DJ Vadão DJ Vadão na cabine da Toco em 1988. Foto: Acervo Pessoal

Lenda da noite paulistana, DJ Vadão quer olhar para frente aos 45 anos de carreira

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Da Toco à era digital, artista bate papo com Jota Wagner sobre como se adaptou a todas as mudanças da vida noturna e cultura DJ

DJ Vadão celebra 45 anos de estrada em 2026 com uma bela jornada. Passou por danceterias seminais nas história da noite paulistana, como Overnight, Toco e Contramão. Comandou o primeiro programa de rádio dedicado à dance music transmitido por satélite para todo o Brasil, o que o levou a tocar nos quatro cantos do país, além de excursionar para os Estados Unidos e Japão. Viu muita coisa mudar na noite, no modo de discotecar e até mesmo no comportamento das diferentes gerações.

DJ Vadão

DJ Vadão em live da Toco em 2022. Foto: Acervo Pessoal

Falamos tudo isso na longa conversa que tivemos para o Music Non Stop, com direito a duas baita novidades. A primeira é que, depois de quase dez anos na rádio Energia 97 FM, ele mudou de casa: está agora na Alpha FM, onde comanda aos sábados, das 22h às 00h, o programa Disco Classic, com o melhor dos anos 70 a 2000.

A segunda é que, no final deste ano, para celebrar a carreira, o artista vai se apresentar passando longe do flashback, tocando música eletrônica e outras vertentes musicais que escuta e pesquisa até hoje.

Poderíamos contar toda sua história em longos parágrafos aqui, mas que tal se ele mesmo fizer isso para gente? Com vocês, o passado, o presente e o futuro de DJ Vadão.

Jota Wagner: Faz dez anos desde que você falou com a gente pela última vez. O que mudou na vida e na cabeça do DJ Vadão nesse tempo?

DJ Vadão: Na minha cabeça, não muito. O que mudou foi a cena. Não concordo com tudo o que mudou, não acho tudo tão legal. Mas a gente tem de aceitar. As modernidades, as tecnologias… sempre vão ser muito úteis, nunca são feitas para atrapalhar. O problema é que as pessoas as utilizam de uma forma errada, às vezes.

Para ficarem mais preguiçosas…

Sim, para ficar mais fácil. O intuito da tecnologia não é esse. É você ampliar seus conhecimentos e a capacidade de relizar coisas enquanto está ali, trabalhando. Muitos deixam que a máquina faça tudo por eles. Perdem a essência do DJ, que é tocar com alma, sentimento, de ver a pista e ter a liberdade de mudar tudo a hora que quiser. Uma banda, por exemplo, não pode tocar uma música por 30 segundos, ver que não foi legal e ter a oportunidade de mudar. Não dá para se tornar um preguiçoso e deixar que a máquina faça tudo por você.

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Poucas profissões viram tantas revoluções tecnológicas como a dos DJs. Como você lida com isso?

Hoje eu estou em um momento em que toco para um único nicho. Eu gostaria de trabalhar com outros, mas o mercado não tem permitido. Então, utilizo muito bem o nicho em que tenho um nome forte, que é o de músicas dos anos 80, 90 e início dos 2000. Mas eu gostaria, por exemplo, de estar tocando música eletrônica atual. Tem muita coisa que eu gosto. Continuo atualizado, comprando minhas músicas ou recebendo de alguns amigos.

Mas é muita mudança, né? Começamos com o vinil. Era uma dificuldade enorme, lá em 1981. Comprar um disco importado era caríssimo. Então a gente dependia muito de coletânea. Às vezes até discos de trilhas sonoras de novela, para poder ter mais músicas dentro de um único vinil. Hoje, com um pendrive, você carrega duas mil músicas. As coisas mudaram demais. Mas eu passei por tudo isso. Pelos CDs…

Até os anos 2000 eu resisti, ainda tocava só com vinil. Mas aí, o que acontecia? Você pegava um avião, ia para Nova Iorque, trazia um monte de novidades e, quando chegava aqui, todo mundo já havia baixado as mesmas músicas no Napster. Foi quando passei a trabalhar com CDs. Hoje eu trabalho com a controladora, que é extremamente prática. Levo meu notebook, vou para qualquer lugar do Brasil e levo comigo uma biblioteca gigante.

DJ Vadão

DJ Vadão. Foto: Acervo Pessoal

Você pegou a época em que as casas noturnas tinham sua própria coleção de vinil, né?

Sim. Essa coisa de DJ ter discos não existia. Os discos eram da casa. Tudo o que comprávamos em viagem pertencia à casa. Depois, a coisa foi mudando e aconteceu uma inversão de valores. Quando tudo era da casa, a gente ganhava bem. Hoje, continuamos com um bom cachê, só que você tem um custo que não tinha, já que todo o equipamento é seu. Então já não se ganha tão bem assim.

Ficou mais fácil tocar para quem já conhece tudo? Como ficou essa relação com a pista de dança?

Eu acho que antigamente você não tinha tanta música saindo ao mesmo tempo. Um sucesso tinha um tempo de permanência muito grande. Muito diferente de hoje. Uma música estoura, mas em três meses, já não toca mais em lugar nenhum. Tivemos músicas da minha geração, lá no final dos anos 80, que ficaram um ano tocando em pistas. As músicas hoje não marcam nas pessoas.

Existe lugar hoje para uma casa noturna que entre no coração das pessoas, como aconteceu com a Toco?

Eu acho que não. Essa geração tem conceitos diferentes. Muita gente pergunta por que a Toco não volta. Teríamos até possibilidade de fazer a Toco voltar em um outro lugar, num formato diferente. Mas ela foi tão culturada do jeito que foi, que estaríamos matando a galinha dos ovos de ouro. Não vale a pena mexer. Por mais que a gente pudesse fazer, nunca seria igual ao que foi.

DJ Vadão

DJ Vadão. Foto: Acervo Pessoal

A geração de hoje não se apega em sair, não gosta de aglomeração. A gente gostava de sair, conhecer as meninas, encontrar os amigos da escola. Hoje há uma gama muito grande de diversão. Muita gente prefere ficar em casa com o celular e um grupo de amigos conversando. O cara vai no Tinder e arruma uma namorada!

Naquela época, você tinha de sair de casa para que alguma coisa acontecesse com você. E qual era o lugar ideal? Dentro de uma discoteca.

Você tocou na Toco desde o começo, ou entrou depois?

Eu entro na Toco em 1988. A casa é de 1972. Passou por várias fases. Começou tocando rock’n’roll, foi para a era disco, funk, new wave, e eu chego quando a house começa a pegar mais forte. Eu já trabalhava na Contramão, que era do mesmo grupo. Fui para lá com a house music e a acid house bombando.

Você se lembra da sensação que tinha quando começou a tocar ali, chegando para contar uma nova história?

A Toco tinha um fator amedrontador. Você subia na cabine, via aquela multidão de gente… Era assustador. E eu vou te falar… trabalhei lá por muito tempo e sempre que chegava e a casa estava muito cheia, dava aquela sensação de primeira vez. Não era um sensação de insegurança, mas de senso de responsabilidade. “Hoje, vou ter de ser melhor do que fui ontem.”

Como lidar com o equilíbrio entre tocar os que as pessoas querem ouvir e o que as pessoas não conhecem?

É preciso ter muito cuidado. Você não pode só tocar o que as pessoas querem ouvir, mas você também não pode só tocar o que você acredita e que elas não conheçam. É sempre um tapa e um beijo. Toca uma música na qual você acredita, mas que ninguém conhece. Se a pista não tiver aquela reação, toca uma música já conhecida, que é um grande sucesso.

Você foi um dos caras que ajudaram a introduzir Pump Up The Jam, do Technotronic, no Brasil. Como foi dar esse tapa no público?

Essa é uma música que vai ser tocada por muitos anos. Até pouco tempo atrás, estava em uma propaganda do Itaú. É um tipo de música fácil para um DJ fazer virar. Ela tem o peso, tem os elementos pesados de pista. Mesmo que a pessoa não conhecesse, tinha uma reação legal. Marcou muito a minha vida por várias questões.

Você abriu o show deles…

Eles vieram para o Brasil para tocar no aniversário da Toco e depois fizeram uma turnê. Eu os acompanhei em todos os shows. Pump Up The Jam virou um divisor de águas para mim. Eu já era um DJ conhecido, tocava em uma grande casa. Mas depois disso, o Vadão passou a ser conhecido no Brasil todo.

Como é que você foi tocar no Japão? Eles são consumidores ferrenhos de música…

Em 1995, eu trabalhava na Overnight e tinha um programa na Jovem Pan chamado Clássicos da Pan. Quando a rádio se tornou uma rede, foi o primeiro programa a ser transmitido via satélite para todo o Brasil. Rolava todos os dias, mas às quintas, eu ia lá e fazia tudo mixado, ao vivo, em quatro blocos.

Então recebi uma carta de um cara do Japão, que já me conhecia daqui. Ele estava morando lá e ia ter o aniversário de uma balada muito frequentada por brasileiros, em uma cidade chamada Hamamatsu. Eles queriam um DJ brasileiro e pediram que eu levasse junto o Emílio Surita. Na ocasião, ele havia acabado de voltar de férias e não pôde ir. Sugeri o Alexandre Medeiros, locutor da rádio, e fomos juntos.

Fico pensando em como foi escolher 80 discos para levar para uma gig do outro lado do mundo…

Fui com o case cheio e voltei com ele vazio. Os caras ficaram com todos os meu discos. Tudo o que eu toquei na noite gerou interesse. O pessoal chegava e falava “esse eu quero, vou comprar, é meu!”. Foi uma experiência muito legal. Fomos para fazer uma noite, acabamos tendo de fazer uma segunda, de tanto que bombou. Aproveitamos para conhecer uma cultura diferente da nossa. Vi uma tecnologia naquela época que nós não temos aqui, até hoje.

Você também tocou nos Estados Unidos. A diferença tecnológica para o Brasil te impressionou muito?

Eu já senti uma diferença enorme do Japão, até em relação a Nova Iorque. O Japão já tinha tecnologia de LED quando Nova Iorque ainda estava no neon. É um negócio para ficar encantado. De 95 para cá, imagino como é que deve estar aquilo, uma loucura. Gostaria muito de voltar.

Eles consomem tanta música que vários discos saem com exclusividade só no Japão. Thriller, do Michael Jackson, o álbum mais vendido da história da indústria fonográfica, por exemplo. Lá você vai ver uma série limitada, em japonês, com picture discs. Trouxe discos triplos que eu nunca vi no Brasil, nem em Nova Iorque. É um negócio fantástico.

DJ Vadão

DJ Vadão nos Estados Unidos. Foto: Acervo Pessoal

No começo do século passado, os DJs começaram nas rádios e foram migrando para as casas de shows. Você fez o caminho contrário. O que isso significou para você?

Foi uma exposição gigante, que só a rádio dá. Você vai ser conhecido em lugares onde nunca pisou. Em vários lugares vai ter gente que sabe quem você é e gosta do seu trabalho.

Como ter um feedback, saber se as pessoas estavam gostando ou não?

Era o telefone. Na época, você tinha que ligar para a rádio. Para saber como estava a audiência, você sorteava um par de ingressos para a festa de sábado, colocava o telefone no gancho e esperava tocar. Era muito louco. E eu fazia questão de atender muitas vezes. Principalmente quando levava o programa gravado. Aí eu atendia, conversava, a pessoa se surpreendia. Algumas se emocionavam. Eu gostava muito desse contato. Nunca fui um cara frio com o público. Sempre gostei de estar perto. Quando termino meu set, gosto de descer, encontrar pessoas, conversar…

Você tem algum projeto para poder voltar a tocar de tudo em uma noite sua?

Estou com uns planos para o fim deste ano. Estou comemorando 45 anos de carreira. Queria fazer umas coisas diferentes. Quero sim tocar em uma noite de música eletrônica, trazer coisas diferentes do que toco no meu dia a dia.

Quando você toca flashback, acaba tendo de repetir muita coisa. Às vezes o ouvido cansa. Gostaria de ir para algumas vertentes diferentes, que eu acredito e gosto, até para sentir se meu gosto atualmente estaria agradando.

Como é a noite perfeita?

Pista fervendo, irmão. Você pode estar em um lugar maravilhoso, fantástico, cheio de gente da alta sociedade, celebridades. Mas se ninguém dançar a música que você tocou, é uma noite de merda. Você pode tocar em uma comunidade, num lugar simples, para pessoas simples, e se elas estão entendendo o que você está querendo passar, curtirem e vibrarem da mesma forma como você vibra, a noite para mim está perfeita.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.