Foto: ReproduçãoAdeus ao Templo: o Warung Beach Club entre a catraca e o amanhecer na Praia Brava
Conexão, comunidade, aprendizado: DJs e frequentadores resumem o que foi um dos clubes essenciais da história da música eletrônica no Brasil
Quando as luzes do Warung Beach Club se apagarem pela última vez neste sábado (06), na Praia Brava, em Itajaí/SC, o encerramento ficará nas mãos de alguém que aparece repetidamente nas memórias de quem viveu o clube: Hernán Cattáneo.

Entre dezenas de artistas que passaram pela casa ao longo de quase 24 anos de história, o argentino ocupa um lugar especial no imaginário de muitos frequentadores. Não por acaso, seu nome surge espontaneamente nos relatos de fãs, profissionais da cena e até de DJs que ajudaram a construir a cultura do Warung ao longo de décadas.
Fundado em 2002, o clube catarinense atravessou gerações e se consolidou como uma das principais referências da música eletrônica no Brasil, recebendo nomes como Carl Cox, Richie Hawtin, Sven Väth, Laurent Garnier, Dubfire, Sasha, John Digweed, Luciano, Solomun, Dixon, Maceo Plex, Guy Gerber, Âme, Adriatique, Jamie Jones, Seth Troxler, Amelie Lens, Charlotte de Witte, Adam Beyer, Nina Kraviz, Honey Dijon, Peggy Gou, The Martinez Brothers, ANNA, Vintage Culture e Gui Boratto.
Fechando suas portas devido à especulação imobiliária — seus sócios receberam uma proposta considerada irrecusável para vender o terreno para um grupo de investidores, e a marca deve continuar fazendo seus eventos itinerantes, como as Warung Tour e o consagrado Warung Day Festival —, há quem ache que a casa foi até mais longe do que o esperado. É o caso de Jonas Facchi, 35.

Seth Troxler no Warung Beach Club. Foto: Reprodução
“Sei que durou muito mais do que todos imaginavam, o que dá um certo alívio. Pude aproveitar grande parte da existência e participar de incontáveis momentos históricos lá dentro. Misto de missão cumprida enquanto clubber e jornalista, com nostalgia e leve tristeza”, declara o fã de Hernán, que certamente estará presente no grand finale.
Frequentador ilustre há 16 anos, e estimando ter comparecido a mais de cem aberturas, Jonas destaca que o clube se confunde com a própria trajetória pessoal: “O Warung é parte fundamental da minha vida. Da adolescência à vida adulta, muitas das escolhas e amigos que fiz estão relacionados a ele”.
Ele não está sozinho. Cristiano Duarte da Rosa, 35, locador de equipamentos de áudio e fã assíduo há 14 anos, revela que a boate “representa um legado imensurável que mudou o rumo da minha vida. Foi através do Warung que eu descobri uma paixão que hoje se tornou minha profissão. O Warung moldou meu gosto musical, minha forma de enxergar a música, a pista, a conexão entre as pessoas e a própria vida”.

Daniel Waltrick Pinto, 39, o DJ Danee, vai na mesma direção: “O Warung me formou como pessoa e profissional. Foi minha segunda casa. Conheci muitas pessoas, muitas histórias. É uma parte de mim”.
Já Natalia Lempek, 39, frequentadora desde 2007, resume a influência do clube em duas frentes que aparecem constantemente nos depoimentos — música e amizades: “Foi onde fiz a maioria dos meus amigos, que são meus amigos há 19 anos”.
“Acho que o maior legado do clube foi mostrar que a música eletrônica podia ser vivida de uma forma diferente no Brasil”, segue Cristiano. “Não era só sobre a festa. Era sobre a jornada toda: a expectativa da viagem, o encontro com os amigos, a pista, o nascer do sol e aquela sensação de pertencimento que poucos lugares conseguiram criar.”

Nina Kraviz no Warung Beach Club. Foto: Reprodução
Essa ideia aparece também nas palavras de Gustavo Caon Loeff, 42, membro de carteirinha desde os primeiros anos.
“É um lugar de encontros, amizades, descobertas musicais e momentos que marcaram diferentes fases da minha vida. Para mim, sempre foi um templo da música, onde artista, pista e público se conectavam de uma forma única.”
Não à toa, a casa noturna ficou conhecida informalmente como “Templo”.
O Warung como escola

Eli Iwasa no Warung Beach Club. Foto: Reprodução
Existe um consenso sobre uma das principais contribuições do espaço para a cena brasileira: a formação musical de seu público.
“O Warung também teve um papel muito importante não só na educação e formação de gerações de um público que gosta de música eletrônica, mas também teve um papel fundamental na carreira de muitos artistas nacionais”, afirma Eli Iwasa.

Uma das DJs mais importantes da história da música eletrônica brasileira, Eli construiu uma relação profunda com o clube. Foram 11 anos desde sua estreia e oito como residente.
“É daqueles clubes que chancelam o artista, como se desse um selo de qualidade. Eu lembro que levei muitos anos para tocar lá, e posso falar claramente de como teve uma mudança muito significativa na minha carreira”, continua.
Segundo ela, o peso simbólico da cabine exigia um nível de preparação diferente: “Você sente a responsabilidade de entregar um bom set, porque é um público superexigente. É um lugar que espera sets muito especiais dos artistas. Eu aprendi muito tocando ali.”
Leila Scheiwe, 45, vai ao encontro da ideia: “O Warung foi responsável por grande parte da minha formação musical dentro da música eletrônica. Foi uma verdadeira escola”.
O clube que ajudou a colocar o Brasil no mapa da música eletrônica

Foto: Reprodução
Outro aspecto recorrente nos depoimentos de quem viveu o lugar com intensidade é o seu impacto internacional. Para Danee, a influência do Warung ultrapassou as fronteiras de Santa Catarina: “Foram eles que trouxeram os olhos do mundo para o Brasil, especialmente para o Sul do país”.
Leila concorda: “O impacto do Warung ultrapassa as fronteiras do Brasil. Ele ajudou a moldar a cena eletrônica nacional e conquistou reconhecimento internacional”.
“Trouxe artistas de nível mundial, ajudou a formar gerações de ouvintes e mostrou que era possível construir uma identidade própria, respeitada internacionalmente”, complementa Gustavo.
Conexão e comunidade

Foto: Ebraim Martini/Reprodução
Para Eli Iwasa, porém, o reconhecimento internacional não é o suficiente para explicar a relevância do Beach Club. Segundo ela, para além de uma “curadoria impecável” e de “um amanhecer lindo”, havia algo mais difícil de reproduzir:
“O que o fez se destacar entre tantos outros do mundo inteiro foi essa conexão entre música, natureza e pessoas. Já fui para alguns dos maiores clubes e festivais do mundo e é realmente especial o que existe ali. É muito sobre o público, os profissionais apaixonados pelo lugar… Tudo isso criou uma certa magia”.
Como fã, Cristiano resume a mesma ideia: “Não houve uma única vez em que eu passasse pelas catracas e começasse a andar pelos corredores sem sentir aquele arrepio tomando conta do corpo. Existem clubes, existem festas e existe o Warung”.
Hernán Cattáneo e a trilha sonora de uma geração

Hernán Cattáneo no Warung Beach Club. Foto: Reprodução
Se existe um personagem que atravessa os relatos dos frequentadores, este é Hernán Cattáneo. Jonas lembra exatamente o momento em que o argentino mudou sua relação com a música eletrônica:
“Quando Hernán tocou Love Stimulation (Tom Middleton Remix), às 06h30 da manhã, eu vi uma vibe de sorrisos e energia em que todos eram um só. Ali, soube que aquele estilo seria meu favorito para sempre”.
Cristiano descreve sua primeira experiência vendo o argentino na Páscoa de 2013:
“Eu nunca o tinha visto ao vivo, e sinceramente, não fazia ideia do que estava prestes a acontecer. Lembro que fiquei completamente hipnotizado pelo som. Era algo diferente de tudo que eu tinha ouvido até então. Aquela noite mudou completamente minha relação com a música eletrônica. Eu entrei no Warung querendo ouvir uma coisa e saí apaixonado por outra. Foi ali que nasceu minha paixão pelo progressive house. Foi um divisor de águas”.
Leila guarda na memória o encerramento de uma apresentação do argentino em dezembro de 2011: “O encerramento com Dark & Long, do Underworld, foi um daqueles momentos que ficam eternizados na memória. Até hoje eu me emociono”.
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Já Gustavo viveu uma experiência ainda mais pessoal. Em seu aniversário de 2012, foi convidado por Hernán para acompanhar a apresentação diretamente da cabine. Em determinado momento, o argentino perguntou qual música ele gostaria de ouvir ao amanhecer. A resposta foi imediata: In a State, do UNKLE. Pouco depois, a música ecoava pelo sistema de som do Warung.
“Aquele amanhecer sintetiza tudo o que o Warung sempre representou para mim: a proximidade entre artista e público, a paixão genuína pela música e a capacidade de criar memórias que atravessam o tempo.”
Já Natalia, ao ser perguntada pela reportagem por qual sua noite inesquecível, foi direta: “Todas do Hernán, meu número um”.
Talvez seja por isso que a escolha de um long set Hernán Cattáneo para a última noite [o ícone é atração única da pista principal, enquanto Ezequiel Arias, Edu Schwartz e Fran Bortolossi comandam o Garden] pareça tão simbólica para muitos frequentadores. Ao longo de décadas, poucos artistas estiveram tão associados à identidade musical do clube quanto ele.
C’est fini

Foto: Reprodução
Gratidão. Este é o sentimento predominante entre os fãs pelo fechamento do clube. E Natalia observa um fenômeno incomum:
“Nunca vi uma casa noturna fazer uma despedida dessas. Normalmente, quando os lugares fecham, as pessoas estão cansadas deles. Com o Warung é diferente. Já deixa saudade antes de acontecer”.
Talvez essa seja uma das explicações para a mobilização em torno de sua despedida. Ao longo de quase 24 anos, o Warung acumulou apresentações históricas, ajudou a consolidar carreiras, apresentou artistas para o público brasileiro e se tornou referência internacional. Mas, ao ouvir quem passou anos retornando à Praia Brava, a impressão é que seu legado mais duradouro não está nos line-ups ou nos amanheceres à beira-mar.
Está nas amizades construídas, nos caminhos profissionais que nasceram dentro da pista, nas viagens feitas para viver uma noite específica e nas histórias que continuam sendo contadas muito tempo depois de a música parar.
Neste sábado, Hernán Cattáneo fará o último set da história do Warung Beach Club. Para muitos dos presentes, será mais uma madrugada como tantas outras, que começam em uma pista de dança e terminam como memória.



