Djavan nos anos 80. Foto: ReproduçãoDe onde veio Djavan? A história da “djavanização” do Brasil
Edição: Flávio Lerner
Prestes a iniciar sua maior turnê, astro celebra 50 anos de obra que atravessou gerações e dominou o país sem jamais perder sua estranheza
Djavan, um dos grandes da música popular brasileira, começa nesta sexta-feira (08) a maior turnê de sua vida, celebrando 50 anos desde o lançamento de seu primeiro disco (de carreira, tem mais). Um espetáculo feito para mostrar ao país e às novas gerações qual que é a desse carinha que muitos jovens conheceram por memes ou vídeos zoando com suas letras complexas.

Tudo é majestoso: só arenas, começando agora e terminando em 05 de dezembro em Maceió, terra do cantor. O objetivo é fincar a bandeira na terra e deixar claro que o Brasil pertence a ele. Não que ele queira. O cara não gosta muito de se autopromover.
“Tem esse negócio [o musical Vidas para Contar] que está aí fazendo sucesso. Agora estão querendo fazer um filme. Não me deixam em paz com esse negócio. Não, não precisa”, contou em entrevista a Lucas Breda para a Folhapress. E apesar de a turnê levar o subtítulo de “só sucessos”, o astro fez questão de colocar algumas canções que raramente tocou ao vivo, de seu extenso repertório.
Na virada do milênio, Djavan ganhou uma força midiática gigantesca, muito por causa do disco Djavan Ao Vivo, que fez um baita sucesso. Vendeu cerca de dois milhões de cópias, encerrando uma época em que ainda era preciso levantar da cadeira ir até uma loja para comprar um álbum. Entrou no século XXI ganhando tudo quanto é prêmio, incluindo Grammys.

Essa total djavanização do país não parou mais. E é por isso, talvez, que o próprio artista tenha sido meio relutante em fazer uma turnê comemorativa. Afinal, nunca parou — nem de gravar, nem de fazer sucesso.
A percepção de quem é o ídolo é diretamente ligada à década em que cada pessoa cresceu. Para as mais novas, é o cara do “dia frio com um bom lugar para ler um livro”. Para quem dava rolês nos anos 80, ele não saía de dentro do bar. De todos os bares. Não havia apresentação de banquinho e violão em que não se tocassem os sucessos do alagoano, principalmente porque ele junta dois elementos que, na mesma canção, agradam a público e músico. São grandes sucessos populares e também difíceis de tocar e cantar, dando uma baita moral para quem está lá no boteco interpretando-o.
Muitos olham para os cartazes da turnê que está prestes a começar, no entanto, e se perguntam: “de onde que é veio esse cara?”. A gente te explica.
Djavan lançou seu disco de estreia, A Voz, o Violão, a Música de Djavan em 1976, já semiconsagrado. E o maior sucesso de toda a sua carreira, certamente presente no setlist da turnê, é a primeira canção de seu primeiro álbum, Flor de Lis. Como se diz em casa, começou com o pé direito.
Quando chegou às prateleiras das lojas, em uma época em que disco de vinil vendia mais do que jornal — fazendo a função de item de coleção, presente de aniversário e atestado de atualização cultural —, ele não era um completo desconhecido. Havia ganho exposição nacional ao participar de um festival nacional de canções (ainda forte nos anos 70) promovido pela Rede Globo. A música, Fato Consumado, ficou em segundo lugar e abriu as portas do garoto de 27 anos para o país inteiro.
Com o sucesso, veio o convite para entrar em outro gigantesco balão midiático, as trilhas sonoras de novela. Gravou a música Alegre Menina, de Jorge Amado e Dorival Caymmi, para uma novela que foi sucesso absoluto nas televisões brasileiras, Gabriela. O caminho estava pavimentado: a gravadora Som Livre assinou com o novato e o colocou no estúdio para o lançamento de seu debut.
Na época, Djavan já havia composto um batalhão de músicas, jogando em diferentes campinhos musicais. Pintou o primeiro problema. Preocupada em “dar uma cara” ao cantor em seu primeiro disco, a gravadora pediu que ele gravasse somente sambas, como conta o jornalista Francisco Pereira em resenha certeira de A Voz, o Violão, a Música de Djavan.
A contragosto, o músico preparou um repertório irreparável com o que tinha no gênero, e deu um chapéu na gravadora com arranjos inovadores, incluindo até beliscadas no jazz, como na excelente Magia, quase no fim do disco. O povo amou. O que chegava a seus ouvidos era um novo som, soando como um Chico Buarque bem-cantado e repleto do groove nordestino. Rico em arranjos, instrumentação e letras. O homem chegou, para nunca mais ir embora.
Djavan e sua turma tiveram a difícil missão de enviar “só sucessos” em um show de duas horas, extraindo-os de uma história que, além de acumular 25 álbuns de inéditas (sendo que apenas o primeiro já tem um monte de hits), pertence a um cara desapegado e inquieto. Seu último disco, Improviso, é de 2025: o único que não teve uma turnê de promoção graças ao acavalamento com o projeto de 50 anos. E ele já avisou que quer tocar algumas músicas do novo álbum. Se não são sucesso ainda, podem ser daqui a pouco, né?
Se liga no que o cara disse a Breda sobre a montagem do repertório: “A dificuldade é desenhar um roteiro que corresponda ao objetivo central, mostrar ao povo o que ele quer ouvir. Mas antes tem eu. Também quero ficar feliz. Quero momentos em que eu me sinta bem cantando”.



