Foto: Karla Brights/ReproduçãoA escritora brasileira escolhida por Dua Lipa para inaugurar biblioteca de ‘livros rebeldes’
Edição: Flávio Lerner
Olhos d’Água, publicação de Conceição Evaristo, foi a primeira obra da Manifesto Library, nova empreitada da cantora pop
“A nossa escrevivência não é para ninar os da casa-grande, mas para incomodá-los em seus sonos injustos.”
A frase é da escritora Conceição Evaristo, gênia da literatura brasileira e alvo de pedradas da extrema-direita brasileira desde que lançou seu maior sucesso, Olhos d’Água, em 2014. O livro, indicado por uma professora de Ensino Médio da Bahia para seus alunos, gerou indignação em um grupo de pais que deu um chilique público quando viu o que seus filhos estavam lendo. A escola cedeu e, além de proibir a leitura de Evaristo em 2021, ainda demitiu a professora. Justo em Salvador, a casa-grande venceu. Embora jamais tenha sido proibido formalmente, a censura velada correu solta, assim como o racismo se expressa no Brasil, na maioria das vezes.

Quem segue a escritora, mulher e negra, vencedora dos prêmios Jabuti e Juca Pato e convidada para a Academia Mineira de Letras, se encantou essa semana com uma boa notícia. Olhos d’Água foi a obra inaugural da nova empreitada literária de Dua Lipa: a abertura de sua própria biblioteca, a Manifesto Library, que ocupa um andar inteiro na Livraria Lello, em Porto, Portugal, e é dedicada a livros banidos e censurados. Uma homenagem às leituras rebeldes.
“Junto à recepção calorosa que recebi na Livraria Lello, na cidade do Porto, em Portugal, tive a grata surpresa de saber que o livro Olhos d’Água, de minha autoria, foi escolhido como a primeira obra para ocupar as prateleiras da Manifesto Library. A Manifesto Library é uma biblioteca permanente, um projeto em parceria com o Service95 Book Club, e ocupará um dos andares da Lello, disponibilizando para leitura e conhecimento do público cem obras que revelam ‘vozes silenciadas e histórias esquecidas’. Preenchendo lapsos, vazios da história e da literatura”, comemorou Evaristo em suas redes sociais.
A Manifesto de Dua Lipa reúne cerca de cem livros contemporâneos focados em quatro eixos centrais: poder, controle, voz e memória. Como Olhos d’Água já enfrentou tentativas de silenciamento e recolhimento em escolas brasileiras por denunciar o racismo e a violência urbana, a obra encaixou-se perfeitamente no manifesto antitransgressão e anticensura da cantora britânica.

A Manifesto Library de Dua Lipa. Foto: Livraria Lello/Divulgação
“Esta biblioteca é um santuário para livros que desapareceram, para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder e controle, e para leitores que se recusam a aceitar que lhes digam que livro podem ler”, disse a cantora em comunicado oficial.
Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte em 1947. É ficcionista, ensaísta e poetisa, considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea no país. Sua obra é marcada pela denúncia das desigualdades de gênero e raça, além do resgate e celebração da ancestralidade afro-brasileira.
Cresceu em uma família humilde, filha de uma lavadeira. Desde a infância, conciliou os estudos com o trabalho doméstico. Na década de 1970, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou em um concurso público para o magistério e iniciou uma sólida carreira na educação e na pesquisa acadêmica.

Hmmm… mulher preta tendo voz internacional denunciando racismo e desigualdade social? Como temos visto regularmente aqui no Music Non Stop, é a pedra no rim de quem estava acostumado a pagar uma mixaria para empregadas domésticas, sem nenhum direito trabalhista. Dua Lipa deve perder alguns fãs nos bairros nobres das cidades brasileiras.



