Jennifer Finch Foto: Reprodução

Jennifer Finch: a preciosa história de uma das maiores baixistas do punk-rock

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Falecida no último dia 18, membro fundadora do L7 tinha forte ligação com o pai, era fotógrafa e fomentou o cenário do rock underground

No começo do mês de julho, tudo em torno do L7 era pura expectativa. Em outubro e novembro, a seminal banda feminina viajaria para uma massiva turnê de despedida, chamada The Last Hurrah Tour. Em poucos dias, saberiam que sua baixista, Jennifer Finch, seria obrigada a dizer adeus antecipadamente. Antes de partir, exigiu que a banda não cancelasse nenhum show, ordem que será respeitada por Donita Sparks, Suzi Gardner e Demetra “Dee” Plakas, amigas que dividiram o palco com Finch desde que a banda deu seus primeiros passos, em 1986.

No último dia 13, Finch foi diagnosticada com um agressivo câncer no cérebro. Enquanto fãs doavam centenas de milhares de dólares para seu tratamento através de uma plataforma de financiamento coletivo, o L7 tentava entender o que estava acontecendo. A princípio, acreditava-se que uma série de cirurgias emergenciais e tratamento estabilizariam o estado de saúde da amiga. Não foi o que aconteceu. Apenas cinco dias após seu diagnóstico, Jennifer nos deixou, aos 59 anos.

Assim como no mundo todo, os brasileiros ainda estão em choque. O L7 pisou aqui pela primeira vez em 1993, no auge de seu sucesso, para tocar no Hollywood Rock. A performance de Jennifer Finch, descalça e pululante para uma plateia ávida por sua música, foi inesquecível. O grupo voltou ao país mais três vezes: em 2018, ao se reunirem após um longo hiato, em 2023 e no ano passado, ao lado de outra referência do rock feminino, o Garbage.

My Precious

Pais ausentes podem ferrar uma pessoa por toda a sua vida. Adotivos podem salvá-la. A ligação da artista com o pai adotivo foi tão forte que ela mudou seu nome quando ele faleceu, em 1995, para Jennifer Precious Finch. “Precious” (“preciosa”) era como Robert Edward Finch e Sandra Jacobson a chamavam carinhosamente desde que a tiraram do orfanato Salvation Army Home for Unwed Mothers, onde foi deixada pela mãe biológica logo após seu nascimento.

Além de darem à garotinha lar e afeto, também foram responsáveis por seu bilhete de entrada na vida artística. Foi Robert quem lhe deu uma máquina fotográfica de presente e a inscreveu na escola de artes Otis Parsons, nos anos 80. Já apaixonada pela música punk, ela usou sua credencial de fotógrafa para entrar de cabeça no cenário de Los Angeles.

O grude com seu pai era tão grande que, para lidar com seu falecimento, Jennifer decidiu deixar o L7 no auge de seu sucesso mundial e ficar finalmente sóbria. Talvez até com uma forma de manter seu elo, a garota nunca abandonou a câmera fotográfica, mesmo após ter virado uma rockstar. Seus registros de estrada são históricos, bem como a cassetada de fotos que fez da efervescente cena local de skate e punk de sua região.

“Eu não estava pensando em carreira. Tinha interesse em capturar imagens e em música, então dizia às pessoas que era fotógrafa e elas me deixavam entrar nos shows de graça”, contou em entrevista de 2010 ao Whitehot Magazine.

Mas sabe como é, né? A gente vai frequentando as festas, fazendo amigos, ouvindo sons, até que alguém lhe propõe: “poxa, amiga, vamos montar uma banda?”. Não foi diferente com a jovem preciosa. A primeira empreitada musical tocando baixo foi ao lado de Courtney Love (futura líder do Hole) e Kat Bjelland (futura líder do Babes in Toyland), na banda Sugar Babydoll.

Deixou o grupo e fundou The Pandoras, ambos baseadas na cidade de São Francisco, para onde havia se mudado. Tudo isso até chegar ao projeto que mudaria de vez sua vida.

Quero tocar com vocês

Após sair do Pandoras em 1986, Finch decidiu retornar para Los Angeles e descobriu que duas amigas da cidade, Donita Sparks e Suzi Gardner, estavam querendo montar uma banda. Marcou um ensaio com as meninas e foi admitida na hora. Além de tocar direitinho e ter uma bela atitude em cima do palco, a moça era um ativo sensacional.

Graças a seu passado de fotógrafa, conhecia todo mundo no rolê, e isso ajudaria muito na hora de marcar os primeiros shows. Estava formada a espinha dorsal do L7, que teve diversas bateristas diferentes até se estabelecer com Dee Plakas em 1989, quando já tinham um contrato com a gravadora Epitaph e lançado seu álbum de estreia, chamado simplemsente de L7. Não sabiam ainda, mas em menos de um ano, já seriam um sucesso mundial.

Smell the Magic saiu em 1990 pela Sub Pop, responsável por um golaço: aproximar o L7 da música de Seattle, contratando Jack Endino como produtor e enfiando a banda em um movimento cultural que estava começando a encantar o mundo inteiro, estourando a bolha do underground: o grunge.

A cozinha de Finch e Plakas finalmente se consolidou, transformando-se no motor da locomotiva, deixando a fumaça preta para as guitarras e os vocais. A qualidade final do álbum, a atenção que a imprensa dava para o tal grunge e a propulsão de uma internacionalmente bombada MTV levou o L7 a chamar atenção dos grandes festivais da década, como o brasileiro Hollywood Rock, tornando-se um das forças femininas do rock mundial.

Dali em diante, a popularidade só cresceu. O grupo lançou o gigantesco álbum Bricks Are Heavy, em 1992, e Hungry for Stink, em 94, com vários hits compostos por Jennifer Finch. As turnês mundiais rolavam ao lado de bandas como Nirvana, Pearl Jam e Smashing Pumpkins. O bagulho ficou louco. Louco mesmo. Todos que estavam à volta da baixista eram absurdamente chapados. E o ritmo alucinante das viagens, shows, compromissos com imprensa e gravações só incentivava o abuso. Foi no meio desse caos do sucesso que a notícia da morte do pai, Robert, chegou a ela.

Amigas, tô fora!

A baixista de uma das maiores do mundo não pensou duas vezes ao decidir que era hora de dar um tempo. Deixou o L7 e, como primeira atitude, cuidou da saúde física e mental. Era hora de ficar sóbria, aos 30 anos. O problema não era a música, mas o ritmo exigido de um ser humano para estar em uma banda de sucesso mundial.

Tanto que, após processar o luto da perda do pai, Jennifer voltou para os palcos, mas com bandas pequenas e independentes. Ela havia compreendido, com o L7, o que não queria para si. Montou os grupos OtherStarPeople e The Shocker. Fundou uma gravadora independente. Se dedicou a causas filantrópicas, lembrou-se da primeira máquina fotográfica e tirou um tempo para organizar seu imenso acervo de fotos.

Em 2011, a caralha do câncer mostrou seu primeiro cartão de visitas, obrigando-a a fazer um tratamento na tireoide. Um problema que também ajudou Finch a pensar sobre o seu legado. A pausa saudável para a mente durou quase dez anos, quando foi convencida a voltar aos aeroportos com o L7 e as mesmas velhas amigas, todas bem mais maduras.

A inspiração também voltou. Em 2019, lançaram o ótimo álbum de inéditas Scatter The Rats. Em cima do palco, Jennifer Finch e suas amigas puderam testemunhar, vendo aquele monte de meninas na plateia, tudo o que ajudaram a mudar no mundo do rock.

The Last Hurrah, nome da turnê de despedida do L7, significa algo como “a última cartada”, ou “a saideira”. Graças a uma triste jogada do destino, por poucos meses ela não será completa.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.