Madonna disco music Foto: @ricardogomesinst/Reprodução

Como Madonna contou a história da disco music em dois minutos

Adriana Arakake
Por Adriana Arakake

Edição: Flávio Lerner


No 1° show do intervalo de uma Copa do Mundo, Rainha do Pop lembra que a trajetória da música também é escrita onde se dança

Existem artistas que apenas revisitam o próprio repertório. Madonna prefere revisitar a história da música, e foi exatamente isso que aconteceu em sua apresentação de dois minutos na final da Copa do Mundo.

 

View this post on Instagram

 

A post shared by Madonna (@madonna)

Enquanto boa parte das análises se concentrou na participação de Ronaldo e Ronaldinho ou no figurino, a Rainha do Pop fazia um movimento mais amplo. Em poucos minutos, transformou seu show em uma homenagem às origens da disco music, recuperando uma estética e uma cultura que nasceram nos clubes underground de Nova Iorque no início dos anos 1970.

O DJ no centro da cena, patinadores reforçando a estética roller disco que ganhou tanta força na época, a bola de espelhos e o sample de Disco Inferno, dos The Trammps, em Music, eram elementos de uma narrativa de um momento fundamental da música popular: quando a pista de dança deixou de ser apenas um espaço de entretenimento e passou a ser também um lugar de criação, experimentação e pertencimento.

Essa relação de Madonna com a disco não começou agora. Em 2005, Confessions on a Dance Floor já funcionava como uma declaração de amor à cultura da pista. Produzido por Stuart Price, o álbum dialogava com Giorgio Moroder, Donna Summer, ABBA, Pet Shop Boys e toda uma tradição da dance music construída a partir da disco. Na Confessions Tour, ela levou essa pesquisa para o palco com o segmento Music Inferno, que justamente misturava seu hit Music com elementos de Disco Inferno.

20 anos depois, ela retoma esse universo em uma escala completamente diferente, para uma audiência global no show do intervalo de Espanha x Argentina — o primeiro de uma Copa do Mundo, produzido por Chris Martin e lembrando o que acontece anualmente no Super Bowl.

A disco music costuma ser lembrada pelos grandes sucessos que dominaram as rádios no fim dos anos 1970, mas sua origem está em uma história muito mais complexa. Ela nasceu no começo daquela década dentro de clubes e festas frequentados principalmente por comunidades negras, latinas e LGBTQIA+ em Nova Iorque. Antes de se tornar um gênero musical, era uma cultura construída na pista de dança, onde o DJ deixava de ser apenas alguém que selecionava músicas para se tornar responsável por criar uma experiência coletiva.

David Mancuso foi um dos personagens centrais desse movimento, com as festas no seu The Loft — encontros que reuniam uma comunidade diversa em torno da música e da dança. Ele pensava a seleção musical como uma jornada: observava a reação da pista e construía uma sequência em que cada faixa preparava o caminho para a próxima. Ele ajudou a transformar a própria ideia do que um DJ poderia ser.

Enquanto Mancuso redefinia a dimensão artística da discotecagem, Francis Grasso revolucionava sua parte técnica. Considerado um dos pioneiros do beatmatching e do slip cueing, ele desenvolveu formas de conectar músicas sem interromper o fluxo da pista. Nicky Siano, com The Gallery, e Larry Levan, com a Paradise Garage, ampliaram essas possibilidades e ajudaram a consolidar a figura do DJ como um artista.

Mas a revolução da disco não aconteceu apenas atrás das pick-ups. Ela também aconteceu dentro dos estúdios. A música funciona como a culinária. Nenhuma receita nasce do nada. Um cozinheiro combina ingredientes, recupera técnicas, mistura referências e, a partir disso, cria algo novo. A disco music nasceu dessa mesma lógica: juntou o groove do funk, a força do soul, os ritmos latinos, a sofisticação dos arranjos do jazz e criou uma linguagem própria para a pista de dança.

Enquanto Nova Iorque reinventava a forma de tocar música, a Filadélfia ajudava a reinventar a forma de gravá-la. No Sigma Sound Studios, produtores como Kenny Gamble e Leon Huff consolidaram o estilo Philadelphia soul, combinando a força do soul e do funk com arranjos sofisticados de cordas e metais. Ao lado deles, músicos como Earl Young ajudaram a definir o padrão rítmico conhecido como four on the floor, uma batida que se tornaria uma das bases da disco e, posteriormente, da música eletrônica.

Foi nesse ambiente que The Trammps gravaram Disco Inferno, composta por Leroy Green e Ron Kersey. Lançada em 1976, a música teve uma recepção inicial discreta até ganhar projeção mundial ao integrar a trilha sonora de Saturday Night Fever. O filme ajudou a transformar a faixa em um dos símbolos da era disco, mas a cultura que havia criado aquele som já existia muito antes de John Travolta cruzar uma pista de dança.

O sucesso comercial da disco também provocou uma reação. Em 12 de julho de 1979, o estádio Comiskey Park, em Chicago, recebeu a Disco Demolition Night. Durante o intervalo de uma rodada dupla de beisebol, milhares de discos foram empilhados no gramado e destruídos diante de mais de 50 mil pessoas. O episódio terminou com a invasão do campo e o cancelamento da segunda partida, tornando-se um dos momentos mais emblemáticos de rejeição pública a uma vertente musical.

A justificativa apresentada pelos organizadores era de que a disco havia se tornado repetitiva, comercial demais e dominante nas rádios. Existia, de fato, uma saturação do mercado, mas o fato era que a reação contra a disco music carregava uma forte carga de racismo, homofobia e preconceito contra os grupos que construíram aquela cena. Depois daquela noite, o termo “disco” praticamente desapareceu das campanhas da indústria fonográfica, e muitos artistas passaram a ser divulgados sob outros rótulos.

Mas o gênero continuou influenciando a música. Ele voltou para os clubes, mudou de nome e ajudou a criar a house de Chicago — e, portanto, boa parte da música eletrônica contemporânea e novas aproximações entre a pista e artistas que nunca enxergaram essas fronteiras como algo rígido.

George Benson é um dos exemplos mais interessantes dessa conexão. Antes de conquistar as rádios nos anos 1980 com Give Me the Night, ele já era um guitarrista de jazz reconhecido, com uma carreira construída dentro do gênero. Seu sucesso nas pistas e no soul não apagou sua origem. Pelo contrário: mostrou como o jazz, o funk, o R&B e a música dançante sempre estiveram muito mais próximos do que muitas classificações sugerem.

Essa mesma abertura aparece em expoentes como Roy Ayers, Donald Byrd e Herbie Hancock, músicos que incorporaram elementos da cultura clubber sem abandonar a sofisticação e a liberdade de experimentação do jazz.

É essa trajetória que Madonna recupera em sua apresentação. Ao revisitar esse universo 20 anos depois de Confessions on a Dance Floor — assim como o fez em seu novíssimo álbum, CONFESSIONS II, da onde saiu a música Danceteria, também presente em sua apresentação no show do intervalo da Copa —, ela não está apenas retornando a uma estética que marcou uma fase importante de sua carreira. Está fazendo algo que se tornou uma marca de sua trajetória: transformar referências históricas em linguagem pop.

Antes de ser associada ao brilho da bola de espelhos e à era dos excessos, a disco music foi uma invenção coletiva criada por pessoas que encontraram na pista um espaço de liberdade, criação e pertencimento. Com sua capacidade de absorver diferentes movimentos culturais e reconstruí-los para nova gerações, a Rainha do Pop estava lembrando que a história da música também é escrita nos lugares onde as pessoas se encontram para dançar.

+ Participe do canal de WhatsApp do Music Non Stop para conferir todas as notícias em primeira mão e receber conteúdos exclusivos

+ Siga o Music Non Stop no Instagram para ficar atualizado sobre as novidades do mundo da música e da cultura

Adriana Arakake

Adriana Ararake é DJ e a especialista em jazz, soul e blues do Music Non Stop.