Estádio da copa do mundo 2026 foto: divulgação Fifa Sound

Você sabe como foram escolhidas as músicas que tocaram nos estádios da copa?

Jota Wagner
Por Jota Wagner

A seleção de hits que tocaram na Copa do Mundo 2026, de Bon Jovi a Oasis, passou muito longe da escolha dos DJs. Tudo foi muito bem organizado por uma empresa chamada FIFA Sounds

Quem assistiu algum jogo da recém concluída Copa do Mundo FIFA 2026 ouviu, tanto nos intervalos de hidratação quanto no final dos jogos, alguns hits sendo tocados no estádio, de medalhões como Oasis, BTS, Bon Jovi e Shakira. A música, comum nos jogos de basquete e futebol americano lá nos Estados Unidos e recentemente incluída no planeta futebol, serve para “manter a energia lá no alto”, em momentos de paralisação do jogo. E você certamente se perguntou: quem é que escolhe essas músicas e porque?

Bem, se você é DJ e for convocado para  a próxima copa (em 2030, com sede em Portugal, Espanha e Marrocos), talvez esteja pensando: “hmmm… que legal, vou aproveitar para bombar aquela música da banda independente dos meus amigos”. Ou, então, “hmmm… vou imprimir meu estilo musical com tamanha exposição”. O seu Music Non Stop avisa: pode tirar o cavalo da chuva. A programação musical dos jogos é mais travada do que cerimônia de casamento de noivo chato. Obedece a um controle e hierarquia gigantescos, assim como tudo o que a FIFA faz na organização de seus eventos. E os tentáculos curatoriais se estendem até mesmo às “Fan Fests”, eventos paralelos espalhados pelo mundo.

O cuidado é tamanho que, desde 2021, os donos do futebol mundial criaram uma empresa só para cuidar disso, a FIFA Sound, dedicada a cuidar do “branding sonoro” dos eventos. Um esforço coordenado por marketeiros para que os conceitos e objetivos estipulados pela organização sejam potencializados pela música que está sendo ouvida. Antes disso, a FIFA se limitava a escolher uma música como tema oficial do campeonato, em um tempo em que ainda não se dava tanta atenção ao assunto. A partir da criação da nova empresa, a regra é clara: “só toca se nóis deixar”.

Como funcionam as playlists dos jogos

Antes do circo começar a ser armado, a FIFA Sounds seleciona uma playlist com centenas de músicas que interessam ao conceito de marketing. Graças à sua exposição gigantesca, o processo também envolve negociações com grandes gravadoras. Concluída a peneira inicial, as Equipe de Entretenimento de Estádio da FIFA senta à mesa com representantes das Federações Nacionais, que dão seus pitacos. É por isso que, a cada final de jogo da Inglaterra, você ouvia Wonderwall, do Oasis, por exemplo.

No caso das músicas tocada nos intervalos, o mando de campo é da “equipe de entretenimento”. A pausa de hidratação, por exemplo, dura cerca de 2 a 3 minutos. A equipe de som do estádio precisa de músicas cujo refrão seja reconhecido instantaneamente nos primeiros segundos para engajar a torcida de imediato. A ideia é bombar o conceito de hino de arena, com refrões que incentivem o público a cantar junto. Foi o caso notório de Livin On A Prayer, velho hit do Bon Jovi e seu “Whoooooooooooooa, we’re half way theeeeeere…”. Jogo ganho!

E não para por ai

Em parceria com a Universal Music Group, a FIFA Sounds passou a trabalhar em diversos produtos voltados à copa. Em vez de escolher uma música tema, à cada copa do mundo temos, a partir de 2022, um álbum inteiro, com vários temas (que serão bombados à exaustão no estádio para incentivar os royalties paralelos). O que a empresa decidir lá em cima vira regra em todos os eventos da entidade, incluindo as Fan Fests. Faz parte do escopo da FIFA Sounds, também, encomendar remixes temáticos de acordo com cada região onde os jogos acontecem. Se é no México, faz um versão mais latina. Se é nos Estados Unidos, mais hip-hop. E por aí vai, desde que perfeitamente alinhada com os acordos prévios com gravadoras e objetivos de “branding” da FIFA.

Inspirada na indústria de entretenimento americana, a divisão do FIFA Sound passou também a assinar a curadoria de shows de grande porte ao vivo: concertos de contagem regressiva, cerimônias de abertura/encerramento e atrações musicais de intervalo nos estádios. Com o sucesso da apresentação de intervalo da última final, com Madonna, Shakira, Burna Boy, BTS e Justin Bieber dividindo o palco, pode contar com muito mais música nos próximos jogos entre seleções.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.