A formação clássica do New Order. Foto: ReproduçãoComo o maior sucesso do New Order deu prejuízo salgado
Edição: Flávio Lerner
Entenda por que Blue Monday, o single de 12 polegadas mais vendido da história, custou muito dinheiro à sua gravadora
Peter Hook olhou com espanto a placa de bronze que acabara de receber do dono da gravadora Factory Records, Tony Wilson. “Well Done, Hooky” (“Muito Bem, Hooky”), dizia a gravação, sob o icônico logotipo da empresa. Em uma prova de humor ácido (e desapego financeiro), o presente comemorava a marca de 50 mil Libras perdidas pela gravadora com o single mais vendido de todos os tempos, Blue Monday, do New Order.

Tratava-se da quintessência do paradoxo. O single, lançado dia 07 de março de 1943 em vinil, se tornou um gigantesco sucesso, o maior da história da Factory. Era uma ótima notícia, certo? Bem, não para Wilson. Graças a um tremendo descaso na gestão de suas finanças, o produto custou dez pences (os centavos ingleses) a mais do que o preço de venda, que era padronizado em uma Libra para singles naquela época. Sucesso mundial em hype, e fracasso em dinheiro. Cada vez que um jovem ia a uma loja de discos e comprava uma cópia do single do New Order, a gravadora perdia mais um pouco de grana.
A cagada só foi possível graças ao ambiente de festa que reinava nos escritórios da Factory. Tony Wilson e sua turma estavam completamente deslumbrados com o que estavam construindo em Manchester. Quando a gravadora e o New Order resolveram lançar a música que se tornaria um dos maiores hits mundiais da era new wave, todo mundo estava com aquela cabeça de que iria mudar o mundo através da arte. Por isso, a ideia para a capa (na época, singles raramente recebiam investimentos relevantes na capa) seria encomendada ao mestre Peter Saville, já famoso por ter criada a icônica arte do álbum Unknown Pleasures, do Joy Division.
O New Order, como sabemos, era uma ressuscitação do Joy Division, após a morte de Ian Curtis. Logo, para Saville, o job compreendia fazer algo tão icônico quanto a arte de Unknown Pleasures, mas retratando a “nova ordem” proposta pelo mais novo projeto de Peter Hook.

A capa original de “Blue Monday”. Imagem: Factory Records/Reprodução
Após bater cabeça na pesquisa, o artista olhou para um disquete de computador 5 1/4 polegadas, uma inovação tecnológica da época. Para quem nasceu depois de 1970, o disquete tinha um furo redondo no meio, igual às capas de compactos em vinil, mais um furo menor ao lado e um corte vertical na parte inferior. “Pronto, vamos fazer algo parecido!”
Cortar uma capa de disco de um jeito completamente diferente do usual já implicaria em um aumento de custo substancial. Mas a viagem de Peter Saville não parou por aí. O disco ainda tinha um encarte interno todo colorido (e lindíssimo). Obedecendo à bagunça administrativa que rolava na Factory em 1983, o designer teve a manha de mandar o projeto para a gráfica sem sequer fazer orçamento.
O vinil foi para a prensagem na fábrica que já recebia direto da gráfica, embalava e enviava para a distribuidora. Essa, por sua vez, pulverizava nas lojas para que caíssem nas mãos dos fãs de música. Foi apenas nesse momento, com Blue Monday na rua, que Tony Wilson ficou sabendo que o custo unitário do single era de 1,10 Libras. E o preço de venda, 1 Libra.

Mas é que ficou tão bonitinho, né? Mesmo sabendo do prejuízo, Wilson deixou para lá, acreditando que o single venderia pouco e a grana perdida seria recuperada com o álbum do New Order, que seria lançado dois meses mais tarde, em maio. Foi então que o elefante branco arrebentou a parede da gravadora, destruindo o caixa da empresa com suas grandes patas. Os relatórios de venda de Blue Monday começaram a chegar na mesa: 10 mil Libras perdidas, 20 mil, 30 mil…
Quando chegaram a 50 mil Libras (cerca de R$ 350 mil em conversão direta atual), Tony mandou fazer a plaqueta de bronze tirando um sarro de Peter Hook. Ainda havia bom humor com a situação e dinheiro para pagar a conta. Estima-se que mais de 700 mil cópias em vinil de Blue Monday foram vendidas, tornando-o o single de 12 polegadas mais vendido da história.
Por que não corrigiram a rota?
“Senhor Jota Wagner, mas por que diabos os caras não aumentaram o preço do single ou baratearam a capa quando souberam do prejú?”, me perguntará você, empreendedor que nos lê. Porque Tony Wilson, além de desapegado financeiramente, era um doido idealista. Sua gravadora era repleta de motes criados pelo próprio chefe, como “ou você ganha dinheiro, ou você faz história”, e “tudo o que tinha valor foi a história que fizemos, não o dinheiro que ganhamos”.
Era o conceito da arte pela arte. Para a Factory, seria uma blasfêmia tocar no trabalho de Saville para fazer um produto de segunda linha. E aumentar o preço do single, após milhares de pessoas já terem pago uma Libra pelas cópias iniciais, um desrespeito e um atestado de ganância.
Mas é claro que o empresário não sabia que as vendas de Blue Monday jamais iriam parar. Olhando para a pilha de boletos que ia se acumulando em sua mesa, é bem possível que, secretamente, tenha desejado que mais nenhum fã de música fosse à loja atrás de uma cópia.
A Factory abriu falência em 1992, com uma dívida de 2,5 milhões de Libras. Era quebrada, mas, como sempre desejou Wilson, histórica. A notícia causou uma comoção tão grande na Inglaterra que uma outra gravadora, a London Records, entrou em contato para comprar a empresa e salvá-la.
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Quando começou a auditoria para fechar o negócio, os executivos da London descobriram que Tony Wilson e New Order não tinham contrato nenhum “no papel”. Todas as gravações que a banda (o maior sucesso da Factory) tinham feito eram exclusivos dos membros da banda. Os compradores desistiram na hora, e a Factory fechou suas portas.
New Order no Brasil
Depois de oito anos, o grupo de Bernard Sumner volta ao Brasil em 25 de novembro, uma quarta-feira, no Espaço Unimed, em São Paulo, com abertura da banda Jovens Ateus. Os ingressos já estão à venda. E certamente, não vai faltar Blue Monday.



