Victor Ruiz Foto: Divulgação

Victor Ruiz: “Esse álbum é completamente o oposto do hype”

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


DJ e produtor celebra 20 anos de carreira com primeiro LP simbólico, indo na contramão do mercado e do techno que sempre produziu

Victor Ruiz lança nesta sexta-feira (10) o primeiro álbum de sua longa carreira (são duas décadas celebradas em 2026), hoje tocada lá de Lisboa, em Portugal. Introspectivo, diverso e bom, o disco representa uma corrida do DJ e produtor na direção oposta ao que o seu mundo lhe apresentava. Enquanto a preferência dos contratantes de clubes e festivais europeus apontava para uma música mais rápida e pesada na Europa, ele decidiu não mudar seu som e, como enfrentamento, lançar um disco com cores de trip-hop, breakbeats e melodias, incluindo aí uma colaboração com o sensacional Perry Farrell.

VICTOR representa o retorno à superfície após um mergulho profundo. É sobre isso que conversamos: o processo, a ida às profundezas após topar com algo estranho à sua carreira — cheia de datas e viagens antes da pandemia —, frustrações… e vitória.

Jota Wagner: Você viveu em Berlim, Amsterdã e agora Lisboa. O lugar onde você está muda a sua música?

Victor Ruiz: Muda muito. Comecei a fazer o álbum quando vim para cá. Mas lembro que, muitas vezes, não queria ir para o estúdio porque o clima era tão bom, de praia. Quando chega o verão você não quero ficar aqui dentro. Em Berlim e Amsterdã eu só queria fazer música. Um frio do caralho, tudo escuro. Ali, você só vai…

Como está a maturidade do cenário eletrônico aí?

Eu já vinha para a Europa há uns 15 anos, vejo muitas mudanças no mundo todo e acho muito interessante. Os costumes das gerações antigas e novas. Grande parte do meu público é a galera mais velha, que não fica ligada no celular o tempo todo.

Victor Ruiz

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Que delícia…

É animal! Na Alemanha tem rolado muito isso. Fui tocar lá recentemente, tinha duas mil pessoas e ninguém com o celular na mão. Galera dançando e curtindo. No Brasil, que tem uma galera mais jovem, ficam todos no celular. Você sabe quando a música está bombando quando todos estão filmando. É um contraste muito grande, mas de geração, né?

Aqui, após a pandemia, houve uma ascensão muito grande do hard-techno e outros ritmos mais fortes, rápidos, como algo punk, um movimento de rebeldia. Eram três anos sem sair de casa, né? O pessoal não sabia o que fazer consigo mesmo.

Uma certa urgência de viver, não é?

Sim, mas ao mesmo tempo eu senti que era uma parada que ia queimar muito rápido. Porque, quando tem muita intensidade, como o fogo, queima mais rápido.

Este é o seu primeiro álbum e é bastante introspectivo. Queria ouvir de você sobre o processo pessoal e criativo.

Ele não tem nada a ver com o que eu fazia antes. Começou de um conflito interno muito grande, e por isso é tão introspectivo. Me lembro perfeitamente: antes da pandemia eu estava no ápice da minha carreira. Fazendo grana, tocando em shows incríveis na Europa e no mundo. Estava chegando em um lugar muito legal. A pandemia parou tudo e eu fiquei muito tempo sem conseguir fazer música. Em 2021, não lancei uma música sequer. Hoje, acho até que foi um erro. Na saída do lockdown comecei a ter muitos bookings, mas em 2023 foi o contrário do que eu esparava. Completamente oposto. Tudo parou.

Imagino que tenha sido bem frustrante…

Foi muito. Veio essa onda de ritmos mais agressivos e eu não queria mudar. Não tem nada a ver comigo. Tinha duas managers que trabalhavam muito comigo e me disseram, curto e grosso, que ninguém estava querendo me contratar, que meu som estava morto. Foi um baque bem pesado. “Um homem branco, de 30 anos, que toca techno peak time.” Fiquei muito decepcionado, triste, puto. Rolou uma puta crise existencial por alguns meses.

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Então pensei no meu background, que é de rock e não de música eletrônica. Me veio essa parada, fazer outras coisas. Eu não ouço techno em casa. Escuto rock, pop, eletrônica como Moby e Massive Attack… Então estava no estúdio ouvindo um som, comecei a bater o pé, gravei um baixo naquele BPM, depois achei a batida, fiz uns pianos e tal. Em quatro horas, a música estava pronta. É a Alone, terceira faixa do disco. Mostrei para a minha esposa e concordamos que era algo bonito, legal.

Gostei daquilo. Fiz sem nenhum pretexto. No dia seguinte, outro beat, outro bagulho, que acabou virando Skyfall, algo que também não tinha nada a ver com o que eu fazia. Quando estava fazendo a quarta faixa nessa esquema, minha esposa me falou: “acho que você está fazendo um álbum”. E eu nunca tinha feito um.

Qual foi a sensação que você teve ao ouvir o álbum finalizado?

Uma que sinto até hoje. Quase que um alivio. É algo que continua reverberando em mim. Até chegar em uns 70% do processo, eu não sabia o que estava fazendo. Era subliminar.

O nome do álbum é VICTOR, não por causa do meu nome, mas do significado em inglês, “vitorioso”. Veio de um livro que li na pandemia e que dizia, “na vida você é uma vítima ou um vitorioso”.

E eu comecei esse processo me comportando como uma vítima. Eu estava botando a responsabilidade de tudo na minha carreira em coisas externas. “Tá tudo zoado e eu não tenho o que fazer porque sou um coitado.”

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A criação foi um processo bem terapêutico…

Super. Também fiz terapia durante esses anos e me ajudou muito, junto da minha esposa e dos meus amigos, a sair dessa vitimização. Foi profundo trabalhar para melhorar. Estava sendo uma vítima em todas as áreas da minha vida, não só a carreira. Na vida pessoal, familiar, nas amizades, na saúde… Então pensei: “preciso tomar o controle de tudo em vez de ficar sendo um pobre coitado”.

Saí desse álbum como um vitorioso, no sentido de saber quem eu quero ser. Não quero perder minha vida e essa é uma mensagem que quero passar para as pessoas. Eu sei que a vida é foda. É difícil. A gente não escolhe as cartas que a vida dá, mas como as joga. Todo mundo tem seus desafios. Eu percebi muito isso durante esse processo. O álbum é puro, visceral, cru e também diverso, porque eu também queria mostrar quem eu sou de verdade.

Quando tudo está dando certo na carreira, a gente entra em um processo de produzir um single atrás do outro, para conseguir tocar mais e isso nos joga em uma correria meio automática. Você sente que tudo o que aconteceu te tirou desse processo?

Muito. Me mostrou outro mundo. Me tirou do automático completamente. Depois desse álbum, eu volto para o estúdio fazendo o que eu quero fazer. Não fico pensando: “preciso fazer essa música porque quero lançar no selo tal, preciso que toquem minha música”. Acho que não preciso provar mais nada pra ninguém. Estou feliz pra caramba e faço música porque amo o que eu faço.

Quando vira uma obrigação, uma expectativa de uma gravadora ou do público, você se limita e entra em uma caixa. Esse álbum é completamente o oposto do hype, do que meus agentes falaram. Não segui ninguém, só o meu coração.

Falamos de Moby e Massive Attack e me veio o pensamento: você pensa em apresentar o álbum em um formato de show?

Cara, eu pensei por muito tempo, mas foi engraçado. Os bookings voltaram, esse ano melhorou muito para mim aqui na Europa. E eu estou num ponto na vida que se tenho um final de semana livre, eu não me importo. Gosto de ficar em casa, descansar. Não quero mais aquela loucura de mil datas em um mês e depois ficar doente. Então, pensei muito em fazer em um novo formato. Mas, por enquanto, não. Vou continuar como DJ. Mas depende muito do resultado desse álbum também.

Você vê VICTOR como um processo finalizado, entregue, ou uma mudança definitiva no seu som?

Acho que vou surpreender muita gente. Não é para ser algo do tipo “olhem, estou indo para essa direção”.  Tanto que, em duas semanas, lanço um novo EP com o tipo de som que sempre fiz. Por enquanto, esse álbum fica como um ponto na minha carreira, que vai ficar ali.

Mas a gente não sabe. Vai que o bagulho bomba, vai que passa despercebido. Eu não sei. Eu estou bem feliz e orgulhoso dele. E também não estou preocupado. Tô super de boa com isso.

O álbum tem uma colaboração com o Perry Farrell. Como isso aconteceu? Ele não é o cara mais acessível do mundo…

Foi muito louco. Sempre fui muito fã de Jane’s Addiction. Durante a pandemia, passei cinco meses no Brasil com a minha mãe, e me lembro que um cara que trabalhava com o Perry me chamou para fazer um remix de uma música dele. Os caras adoraram e o lançaram. Nisso, o cara me falou que ele estava procurando artistas para fazer colaborações, perguntou se eu tinha algo para mandar pra ele. Me lembro que tinha um melodia guardada e juntei com um arquivo muito antigo meu, de 2010, achado em uma HD velhp na casa da minha mãe. Virou a faixa Sundance. Mandei um arranjo simples e desencanei. Esqueci. Pensei que não ia dar em nada. Depois de uns meses o cara falou: “o Perry já gravou, tá aqui”.

Quando ele me mandou de volta, fiquei muito impressionado. Não mudei quase nada no vocal dele. Ainda chamei meu irmão, guitarrista, para gravar alguns riffs. E ele ainda sugeriu para me incluírem no Lolla em Berlim. Vou tocar lá e ele ainda vai cantar comigo. O cara foi super nice.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.