The Runaways Imagem: Reprodução

50 anos de “The Runaways”: como o Japão salvou o grupo do fracasso

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Álbum de estreia das Runaways flopou nos Estados Unidos, mas foi visto como disruptivo do outro lado do planeta

Vivemos a era das playlists que desmembram discos em micropílulas de humor. Mas o debut das Runaways, The Runaways, de 1976, exigia um gesto inteiro: agulha no vinil, lado A, o soco de Cherry Bomb.

Quando foi lançado nos Estados Unidos há 50 anos (dia 1º de junho), a recepção foi um constrangimento quase solene. O rock ainda era território de homens que se levavam a sério demais; cinco garotas adolescentes com guitarras, a cena tratou como artifício de feira. Kim Fowley, o produtor, era o mestre de cerimônias de um engodo — o single chiclete grudou, mas o álbum patinou, ficando em 194º lugar nas paradas.

Para a crítica e os metaleiros estadunidenses, o grupo de Joan Jett não passava de uma girlband. Um produto, fabricado para o mercado da música. E embora fizessem bonito ao vivo, o público simplesmente não queria ouvir. Para eles, lugar de garota era na plateia. Claro que muita gente se sentiu ameaçada.

Para as meninas, uma tremenda frustração. Até que uma notícia chegou, do outro lado do Pacífico. No Japão, o que era fracasso virou histeria. Primeiro lugar nas paradas! Uma recepção oposta ao que haviam experimentado em sua terra natal.

A explicação tem a ver com o contexto. Em terras japonesas, o som das Runaways chegou puro, antes de sua história. Ninguém ali queria saber sobre como um empresário recrutou e produziu uma das primeiras bandas de rock pesado. O que chegou ali foi o som energértico e o forte apelo visual. Com jaquetas de couro, olhares penetrantes e uma atitude de desbancar um mundo masculino, as integrantes foram vistas como personsagens de um anime. Elas foram as vovós das Guerreiras do K-Pop. E muito mais autênticas.

Em 1977, desembarcaram no Japão e foram recebidas como os Beatles. O disco ganhou ouro. A resposta estava num repertório cultural que já idolatrava garotas em fúria: no mesmo ano, o mangá Sukeban Deka estreava com uma delinquente escolar justiceira como protagonista. A opacidade que os EUA liam como erro, o Japão traduziu como densidade — um mito reconhecido. Nenhum achatamento cultural; as Runaways pisaram num palco onde o gesto já estava ensaiado.

O legado do debut não está nos números americanos, pífios. Mede-se na memória de uma cena que exportou sua urgência em vez de domesticá-la. O rock patriarcal exibiu seu cacoete ao reduzir a banda a um leviano jogo de saias. O tempo mostrou que o artifício estava na recepção, não no som. O gesto de berrar “Hello, daddy!” continua a reverberar onde juventude nunca foi falta de repertório. O Japão comprou o fogo das Runaways. Os Estados Unidos preferiram a fumaça.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.