Foto: Linda Rosier/ReproduçãoKathleen Hanna: a artista que obrigou o rock a ouvir as mulheres
Edição: Flávio Lerner
Neste Dia Mundial do Rock, lembramos daquela que liderou um dos movimentos essenciais do gênero: o Riot Grrrl
Não se fala sobre rock alternativo nos Estados Unidos sem citar o movimento Riot Grrrl, surgido no início dos anos 90. Também, não se fala sobre Riot Grrrl sem citar a banda Bikini Kill, a maior representante dessa onda que ocupou as casas de show e festas (até então beeeem masculinas) com artistas garotas de diversas linguagens. Finalizando, não se fala de tudo isso sem ovacionar Kathleen Hanna, a fundadora do Bikini e voz indomável do movimento.

No Dia Mundial do Rock, nada mais divertido do que falar da mulher que liderou um dos movimentos mais bacanas, transformadores e disruptivos da música daquele país, e por tabela do mundo todo, com fortes desdobramentos aqui no Brasil. Graças a Hanna e a toda uma geração de mulheres, o rock perdeu a chance de cair definitivamente no esquecimento.
Em 2024, ela veio ao Brasil com sua banda pela primeira vez. Os ingressos esgotaram tão rápido que a banda topou fazer uma data extra para não deixar ninguém de fora. Os shows aconteceram na Audio, em São Paulo e a plateia estava repleta de mulheres que amam punk-rock graças àquela deusa da contestação e do feminismo.
Claro que ela se sentiu muito bem, recompensada por ver que sua voz efetivamente reverberou pelo planeta. É impossível contar a quantidade de bandas de garotas que surgiram graças ao Bikini Kill. Dois meses após passar por nosso país, Kathleen Hanna lançou seu livro de memórias, intitulado Rebel Girl: My Life as a Feminist Punk. A obra tornou-se um best-seller do New York Times e é considerada pela crítica um documento histórico essencial para compreender a música alternativa e o feminismo moderno.

Garotas, manifestem-se!
“Porque nós, garotas, queremos criar coisas que nos representem. Estamos cansadas de bandas de garotos que nós gostamos, mas que de repente nos fazem sentir idiotas em letras que nos tratam como mercadoria.”
O texto faz parte do Manifesto Riot Grrrl, publicado originalmente em fanzines, a primordial forma de divulgação das ideias visionárias das garotas do movimento em 1991, antes de mesmo de subirem aos palcos com suas bandas recém-criadas nas regiões de Washington e Portland (onde Hanna nasceu e cresceu).
Mais claro (clareza é uma das grandes características de tudo o que é feito pelas Riot Grrrls), impossível. Chega de ser “namorada de músico”, ou ter de assistir o show lá do fundo porque os meninos estão se acotovelando na frente do palcos. Elas queriam ter o direito de falar sobre elas mesmas, sem passar pelo filtro masculino.
Organizado de forma horizontal, evitando níveis hierárquicos, elas se expressaram primeiro distribuindo fanzines em shows e bares. A capilaridade das revistinhas xerocadas espalhou a ideia por todo o país. Em cada grande cidade dos Estados Unidos havia um monte de meninas incomodadas com a dominação masculina nos palcos.
Tão logo a notícia se espalhou, bandas começaram a pipocar, falando da temática, com algumas delas furando a bolha do underground e atingindo as paradas do sucesso mainstream, como L7 e Babes in Toyland. Dois grupos femininos que jamais deixaram de destacar a importância das Riot Grrrls em suas entrevistas, embora evitassem colar sua imagem diretamente no movimento.

O manifesto Riot Grrrl. Imagem: Reprodução
Não foi o começo, mas o meio
O que pouca gente sabe é que ajudar a criar o movimento Riot Grrrl não foi, para Kathleen Hanna, um descobrimento. Ela já estava no rolê há muito tempo, e viu no punk-rock o terreno ideal para disseminar as ideias que já tinha desde adolescente. Ainda na infância, sua mãe a levou a um comício pelos direitos das mulheres no qual a ativista Gloria Steinem discursou. Mais tarde, a leitura de A Mística Feminina, de Betty Friedan, consolidou sua visão política.
Nascida em 1968, ingressou na The Evergreen State College, em Olympia, Washington, no final dos anos 1980. Para custar os estudos, trabalhou como fotógrafa e se voluntariou em um abrigo para vítimas de violência doméstica e estupro. O contato diário com as dores e traumas dessas mulheres canalizou nela uma fúria visceral, que inicialmente se manifestou na poesia falada (spoken word) e em exposições de arte independentes.
Após uma de suas apresentações, a renomada escritora e ícone punk Kathy Acker deu a Kathleen Hanna um conselho que mudaria tudo: se ela queria que sua mensagem alcançasse e impactasse as massas, precisava parar de ler poemas e montar uma banda.

Estava plantada a semente do que seria, em um futuro bem próximo, a Bikini Kill. Mais tarde, a artista ainda integraria outro projeto de sucesso no rock alternativo, um tantico mais pop, mas ainda assim visceral, a Le Tigre. Em seus shows, instituiu a política “Garotas na Frente”, quando pedia para os rapazes abrirem espaço para as fãs femininas chegarem junto do palco para dançarem.
A ação era uma continuidade de outro alicerce do movimento Riot Grrrl: a criação dos “espaços seguros” para meninas, tanto em casas de shows, quanto em encontros privados para discutir situações pessoais e feminismo.



