Copa do Mundo Bernard Sumner, do New Order, e o jogador John Barnes no clipe de “World in Motion”. Imagem: Reprodução

De Spice Girls a New Order: quando a música encontrou a Copa do Mundo

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Confira cinco sucessos (ou não) feitos por gigantes da música que embalaram nações

Dizem por ai que o futebol é uma caixinha de surpresas. E deve ser mesmo. Afinal, que esporte seria capaz de reunir, em um mesmo projeto, o ícone pop Spice Girls com a banda cult alternativa Echo & the Bunnymen para tocar uma música feita pelo guitarrista do The Smiths? Aconteceu, e essa é apenas uma das parcerias mais malucas da história quando o assunto é Copa do Mundo.

A cada quatro anos, federações de seus países correm atrás da “música da seleção na Copa”, um hit pop feito para se tornar um hino da torcida nos estádios. Todo mundo ganha: as seleções recebem mais mídia espontânea, gravadoras e artistas enchem as burras de dinheiro e a torcida ganha uma música para cantar junto.

Nós te contamos, em entrevista publicada aqui no seu Music Non Stop, a longa e fertil história dos jogadores e músicos brasileiros em composições falando do esporte mais popular do planeta.

Mas e em outros países? Tem também. Em especial no Reino Unido, formado por apaixonados por rock e futebol.

A Copa do Mundo da França e a seleção musical mais absurda

Para aproveitar a Copa do Mundo da França, os ingleses acharam que a megalomania musical poderia se reverter em bons resultados para sua seleção. A gravadora Universal Music reuniu Ian McCulloch (vocalista do Echo & the Bunnymen) e Johnny Marr, o lendário guitarrista dos Smiths, e encomendou uma música-tema para a Seleção Inglesa daquele ano.

Parecia promissor. Mas o bagulho começou a ficar surpreendente na hora de gravar: a gravadora reunião as Spice Girls, grande sucesso pop da época, com o Echo and The Bunnymen e as bandas Ocean Colour Scene e Space (apostas do britpop de então). Uma baita salada, chamada de England United.

O resultado foi (How Does It Feel to Be) On Top of the World. Apesar de o single ter atingido a nona posição nas paradas, muita gente torceu o nariz. Críticos musicais classificaram a música como “chata” e até mesmo dois jogadores da seleção que participaram do videoclipe oficial, Ian Wright e Rio Ferdinand, deram entrevistas dizendo que a música era uma “baboseira” e um “lixo”. A coincidência trágica: assim como a canção, a Seleção Inglesa também ficou em nono lugar na Copa, perdendo nas oitavas de final.

Mas antes do erro, teve um belo acerto

Duas copas antes, a Federação Inglesa de Futebol (e não uma megagravadora, talvez aí esteja o segredo do sucesso) convocou o New Order, monstro do pós-punk e do synth-pop britânico, para compor e gravar o hino oficial da Inglaterra na Copa de 1990: World in Motion.

O grande barato da empreitada é que a seleção nacional comprou a ideia. Vários jogadores foram ao estúdio gravar os vocais de apoio, e o atacante John Barnes protagonizou um rap icônico no meio da faixa. O resultado: o single se tornou o único número um do New Order nas paradas do Reino Unido, e mudou a forma como músicas de futebol eram vistas pela crítica. A Seleção Inglesa não fez feio. Ficou em quarto lugar, sendo eliminada nas semifinais.

EUA, o país do soccer

O estadunidense Rivers Cuomo, líder do Weezer, sempre foi fã do nosso futebol (lá chamado de soccer). Empolgado com a classificação do seu país para a Copa da África do Sul, em 2010, o músico colou na federação nacional e mostrou a eles a faixa Represent, composta para ser o hino motivacional da Seleção dos Estados Unidos.

Ainda assim, foi lançada como não oficial, mas aceita pelos fãs. Assim como o esporte nos Estados Unidos naquele ano, a música passou longe de ser um grande sucesso. Mas entrou para a história como uma joia perdida.

C’mon, Wales!

O país é pequeno, mas a garra é grande (bem como sua história na música). Pela primeira vez em 58 anos, o País de Gales jogaria um grande torneio, a Eurocopa 2016. Motivo para comemorar. E os escolhidos para compor o tema oficial foram ninguém menos do que os Manic Street Preachers, lendas do rock alternativo local. O time, aqui também, entrou na festa. O videoclipe oficial de Together Stronger (C’mon Wales) contou com a participação de todo o elenco galês, incluindo astros como Gareth Bale e Aaron Ramsey. Todo o lucro das vendas foi revertido para instituições de caridade contra o câncer.

E a do Brasil, vai pegar?

Aqui no Brasil, os artistas precisam disputar espaço com jingles de bancos e de grandes emissoras de TV. Isso não intimidou a CBF, que escalou Papatinho e Bernardo Massot para compor a música oficial da Copa do Mundo 2026, chamada Bate no Peito. A gravação ficou por conta de Samuel Rosa (um dos maiores fãs de futebol do pop brasileiro), Ludmilla, Zeca Pagodinho, João Gomes e Veigh. O projeto também tem viés beneficente, destinando os royalties ao Instituto Fome de Música.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.