CMAT Foto: Reprodução

CMAT: como Charli xcx e Olivia Rodrigo ajudaram a formar uma nova estrela

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Estourada na gringa, cantora irlandesa é uma das atrações do Primavera Sound São Paulo 2026 — e promete tirar ano sabático em 2027

Dizemos por aqui que um artista estourou quando, após anos tentando viver da música que cria, batendo perna em bares e pequenas casas noturnas, finalmente extrapola o cenário local e passa a ser conhecido além do círculo de amigos e poucos admiradores. É o que está acontecendo agora com CMAT, a garota irlandesa que tocará nas edições sul-americanas (incluindo o Brasil) do festival Primavera Sound em 2026.

Uma nova expoente da música folk que acordou um dia e ouviu Olivia Rodrigo fazer um cover de uma de suas canções em um show na rádio BBC em 2026. Rodrigo cantou When a Good Man Cries, e ainda declarou ser uma baita fã da artista que, até então, andava chamando atenção somente em seu país natal.

A reviravolta na carreira de CMAT, poucos sabem, não foi só culpa de Rodrigo. Uma outra estrela da música, muito antes, foi fundamental para tirá-la do buraco e dar-lhe uma minimentoria artística: Charli xcx. Já lhe contamos.

Ciara Mary-Alice Thompson (abreviando, CMAT), hoje com 30 anos, postou surpresa em suas redes sociais: “Eu acordei há dez minutos e acabei de ouvir Olivia Rodrigo cantar a palavra ‘Dunboyne’ [cidade natal de CMAT] em uma rádio nacional inglesa. Em que fase da simulação nós estamos? Ela cantou melhor do que eu, agora eu tô frita! @oliviarodrigo, topa tomar umas cervejas?”.

O presente rolou em junho de 2026, quase um ano após Ciara lançar Euro-Country, seu terceiro álbum, onde está When a Good Man Cries. Mais tarde, Olivia contou que havia descoberto aquela canção há meses, e que estava apaixonada pela cantora que, naquele momento,  já estava na batalha pela carreira há alguns anos.

Seu disco de estreia, If My Wife New I’d Be Dead, de 2022, estreou em primeiro lugar nas paradas da Irlanda. Animada, lançou já no ano seguinte Crazymad, for Meseguindo na linha do folk-pop potente, dançante e com poesia ácida. Olivia Rodrigo deu um empurrão generoso, digno de que uma mulher que dá a mão e puxa outra para cima. Mas sabe o que é mais louco? Ela não foi a única estrela a cruzar a vida de CMAT. Anos antes, quando a cantora se encontrava em um buraco criativo medonho, Charli xcx foi quem lhe deu um tapa na cara figurativo que transformou sua carreira.

Em 2016, Ciara se mudou para Manchester e começou a namorar um cara chamado Alan Farrell, que conheceu em um aplicativo de relacionamentos. O interesse mútuo pela música fez com que montassem o duo Bad Sea. O mozão cuidava da parte criativa e ela entrava com os vocais, meio sussurados e oníricos (o oposto do que faz hoje).

A música era recheada de sintetizadores e processamentos eletrônicos. Após dois anos vivendo na cidade inglesa, a jovem ficou sabendo que uma de suas ídolas, Charli xcx, havia aberto um sorteio para que fãs fizessem um audição crítica do disco que estava prestes a lançar (Charli, de 2019). Ela foi sorteada e viajou para Londres, onde um grupo seleto ouviu, ao lado da compositora, as demos das músicas.

Foi então que algo inusitado aconteceu. Enquanto todo mundo babava ovo, Ciara fez críticas pontuais às músicas, e isso chamou a atenção da diva pop, que pediu para que ela ficasse após a audição para um bate-papo mais pessoal. Ao saber mais sobre aquela menina enxerida, descobriu que ela estava na maior deprê, descontente com o namorado que a desencorajava criativamente.

Charli percebeu que havia algo estranho ali: como uma garota tagarela, inteligente e decidida estava presa a um lago de lamentações? O conselho rápido e direto: larga esse mano, volta pra Dublin e faz sua própria música. “Sort your shit out!” Rude, do jeito que a futura CMAT precisava. E ela não pensou duas vezes.

Voltou para Manchester, fez a malas e abandonou o Bad Sea e o namorado. Provando que a leitura de Charli xcx foi cirúrgica, precisou de apenas três anos para chegar ao topo das paradas irlandesas, e de mais quatro para estar em um dos maiores festivais do planeta, em sua perna sul-americana (além de vários outros, como o icônico Glastonbury). Um belo exemplo de como mulheres unidas podem se ajudar.

Só que a ajuda das duas foi tão boa que a carreira, digamos, passou do ponto. CMAT declarou recentemente ao podcast Sidetrack que está “perdendo a cabeça” com tantos compromissos artísticos, o que a fez decidir que não fará um só show em 2027. Tirará um ano sabático, na concepção da palavra.

“Eu não farei nenhum show no próximo ano, o calendário de 2027. Nadinha. Nem sei se eu poderia estar dizendo isso, mas é o que vai acontecer. E eu não estou nem aí. Podem vir e brigar comigo se quiserem”, afirmou.

Para quem lutou tanto e se encontrou justamente na aceitação de si mesma, Ciara deixa claro que não quer deixar de ter o controle de sua vida e carreira daqui para a frente.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.