Metallica em 1986. Foto: Chris Anthony/ReproduçãoMetallica e os 40 anos de “Master of Puppets”, seminal LP da história do metal
A história e as curiosidades de uma das mais importantes obras de heavy metal, lançada em 03 de março de 1986
Primeiro, diga a verdade. Você clicou para ler esta publicação não só porque gosta de Metallica. Uma das influências, certamente, foi o impacto causado pela cena em que o ator Joseph Quinn simula o épico solo de Master of Puppets na quarta temporada de Stranger Things. A afirmação não é ousada — é realista. Se hoje o álbum homônimo é celebrado com tanto entusiasmo pela cultura pop, parte dessa excitação em torno de seus 40 anos se deve ao resgate da faixa-título na série mais popular dos últimos tempos.
James Hetfield e Lars Ulrich foram os primeiros a admitir o fenômeno. Em conversa com o apresentador Jimmy Kimmel, no talk show homônimo exibido pela rede ABC em abril de 2023, os líderes do grupo falaram com franqueza sobre o revival da canção.
“Imaginar que a maioria das pessoas que nos assistem não tinha nem nascido e hoje gosta de uma música de heavy metal de quase nove minutos é insano”, ressaltou Ulrich.
Depois de brincar — dizendo que a faixa foi composta especialmente para a produção da Netflix —, Hetfield também abriu o coração: “Nós ficamos muito felizes quando coisas mais antigas como Master of Puppets atraem fãs de uma geração mais nova”, destacou o vocalista e principal letrista do quarteto.

A origem de Master of Puppets
Empolgados com a evolução revelada no LP anterior Ride The Lightning (1984), os integrantes do Metallica — James Hetfield (vocal, guitarras), Lars Ulrich (vocal, bateria), Kirk Hammett (vocal, guitarra-líder) e Cliff Burton (vocal, contrabaixo) — dedicaram algumas semanas à gravação de demos contendo riffs e esboços de melodias que formariam as oito faixas de Master of Puppets.
O trabalho criativo foi concentrado na garagem situada ao número 3132 da Carlson Boulevard (Califórnia, EUA), entre maio e julho de 1985. Com o material bem ensaiado, o grupo partiu rumo à Europa, onde o álbum seria registrado no Sweet Silence Studios, em Copenhague, novamente com produção do dinamarquês Flemming Rasmussen.
“Acredito que havia algo mágico no ar quando fizemos Master of Puppets”, relembrou Ulrich à revista Louder, em 2022. “Era algo que nunca havia acontecido em nossa carreira.”
Embora o processo não tenha sido radicalmente diferente dos trabalhos anteriores, o baterista costuma creditar a Burton uma série de inovações, especialmente nas harmonias aplicadas às novas músicas.
“Demorou um pouco para nós aceitarmos esse ingrediente nas faixas, porque eu e James nunca tínhamos produzido algo nesse estilo”, recorda.
Terror e cinema
Sóbrios, concentrados e munidos de todo o material desenvolvido na chamada “Mansão Metallica”, a banda decidiu explorar com maior profundidade referências culturais nas composições selecionadas para Master of Puppets.
Uma das mais recentes na linha de produção — The Thing That Should Not Be — foi inspirada no universo literário do mestre do horror H. P. Lovecraft, especialmente no conto (que deu origem ao filme) The Shadow Over Innsmouth.
Outra referência cinematográfica (e mais popular) surge em Welcome Home (Sanitarium), influenciada pelo clássico Um Estranho no Ninho, estrelado por Jack Nicholson.
Determinados a não promover o álbum com videoclipes ou forte estratégia de singles, o Metallica poderia ter encontrado resistência comercial com o LP — não fosse seu apelo orgânico junto ao público.

“Master of Puppets é um disco muito menos comercial do que Ride The Lightning”, analisou Flemming Rasmussen, também em papo com a Louder.
“O álbum reflete a atitude do Metallica na época, após assinar com uma grande gravadora. Algo como: ‘vamos fazer o que quisermos e não nos importamos se eles não gostarem’”, seguiu o produtor, referindo-se à mudança da Megaforce para a Elektra Records.
Entre as decisões tomadas sem concessões, a banda apostou em composições extensas, com solos elaborados, como a própria faixa-título e Disposable Heroes — um comentário quase político sobre o clima de tensão provocado pela Guerra Fria.

Cliff Burton e a profecia: aquele que não deveria ser
Embora concebido sob uma postura declaradamente anticomercial, Master of Puppets chegou às lojas em 03 de março de 1986, em LP e cassete, destinado a se tornar um fenômeno.
Foram 72 semanas (!) nas paradas da Billboard, alcançando a até então inimaginável posição #29 e superando a marca de 300 mil cópias vendidas nos Estados Unidos apenas três semanas após o lançamento.
Hoje, segundo a própria Billboard, Master of Puppets já ultrapassou oito milhões de unidades vendidas apenas na América do Norte, com estimativas globais acima de 10,5 milhões — consolidando-se como um dos pilares definitivos do heavy metal.
Mesmo com tantos motivos para celebrar, o álbum ficaria marcado como o último registro de estúdio com Cliff Burton.
Após se apresentar com o Metallica em 26 de setembro de 1986, em Estocolmo, o baixista — então com apenas 24 anos — foi a única vítima fatal quando o ônibus da turnê Damage, Inc. derrapou em uma estrada próxima à pequena cidade sueca de Dörarp, na manhã seguinte. Os demais integrantes sofreram apenas ferimentos leves.
Desde então, o Metallica mantém viva a memória do amigo com execuções frequentes de Orion, a penúltima faixa (e única instrumental) de Master of Puppets, que evidencia toda a sensibilidade e técnica de Burton no baixo.
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As canções de Master Of Puppets
Battery
O riff de Battery surgiu em um quarto de hotel, enquanto James e Lars assistiam a um programa na rede BBC. Mais tarde, a dupla finalizou a letra, inspirada no título de um dos clubes onde o Metallica se apresentava — o Old Waldorf, em Battery Street.
Master of Puppets
Composta logo após o fim da turnê do álbum Ride The Lightning, Master of Puppets surgiu após James retornar de uma festa onde a heroína circulava livre entre os convidados.
“Isso me assustou muito, porque as pessoas pareciam controladas por alguma coisa”, ressaltou em depoimento ao livro Metallica All the Songs: The Story Behind Every Track.
The Thing That Should Not Be
Uma das últimas composições a entrarem em linha de produção em Copenhague, The Thing That Should Not Be é baseada em um conto de terror de H. P. Lovecraft e fala sobre coisas na vida que as pessoas não querem encarar. O solo de Kirk Hammett foi o último ingrediente a entrar na mixagem.
“Foi algo totalmente improvisado, praticamente em um take. Enfim, deu tempo de pegar o meu avião”, declarou Hammett ao mesmo livro.
Welcome Home (Sanitarium)
A segunda faixa do LP inspirada por outra arte, Welcome Home (Sanitarium) ganhou vida após Hetfield assistir ao clássico Um Estranho no Ninho. Já a música Rainbow Warrior, do Bleak House, “emprestou” um de seus arpejos para o arranjo final.
Disposable Heroes
Em 1985, o mundo vivia a sombria experiência da ameaça nuclear. Enquanto assistia ao documentário World At War na TV, James Hetfield se comoveu pelos patriotas que doam suas vidas no campo de batalha — na maioria das vezes, de forma anônima. Foi esse sentimento de medo e frustração que originou Disposable Heroes, uma crítica direta às vidas humanas consideradas “descartáveis”.
Leper Messiah
Religiões — mais especificamente, as dos falsos profetas — entram no alvo de Leper Messiah, cujo título foi absorvido da canção Ziggy Stardust, de David Bowie. Com o tema em mente, James desenvolveu uma critica às pregações e promessas mirabolantes dos evangelistas; mais especificamente, do norte-americano Jimmy Swaggart.
Orion
O tema instrumental que leva o nome da constelação de Órion (mas que surgiu com o título The Only Thing) seria usado mais tarde pela banda para homenagear o baixista Cliff Burton, morto após o acidente sofrido com o ônibus da banda em uma estrada da Dinamarca.
Damage, Inc.
A música que deu nome à turnê de Master of Puppets é uma das mais pesadas do repertório do álbum, inspirada principalmente por bandas como Black Flag e Discharge. A letra de Damage, Inc. também é a mais pesada de todas do disco, e contém uma coleção sortida de palavrões, o que levou o álbum a ser censurado em algumas praças.




