Foto: Bruna Medina/Music Non StopEm show da turnê de 40 anos de 3° álbum, Titãs mostram que o dinossauro ainda ruge
Edição: Flávio Lerner
Bruna Medina conta como foi o show de abertura da turnê Titãs – Cabeça Dinossauro
Um clássico é um clássico, mesmo 40 anos depois. E o show que deu start à comemoração das quatro décadas do disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs, não poderia ser diferente do que a atmosfera do álbum proporciona ao ouvinte: uma noite de rock pesado, político e visceral, que levou os mais de quatro mil fãs da banda que estiveram presentes no Espaço Unimed na noite deste sábado (28), em São Paulo, à loucura ao longo da apresentação de uma hora e meia.

Uma grande surpresa arrebatou o público logo na abertura do show, ao ser introduzido pela exibição e leitura de um documento da época da Ditadura Militar relacionado à execução de Bichos Escrotos, datado de 1987. O argumento que a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) apresentava era o de que a expressão “vão se foder!”, presente na música, não poderia ser executada publicamente, mas entendia que o termo “escroto” não levava conotação grosseira.
Portanto, se eles não utilizassem o trecho problemático, poderiam manter a música em suas apresentações. Essa intro fez com que o Bichos Escrotos, a nona faixa da setlist, fosse cantada a plenos pulmões e gestos exacerbados da plateia quando chegava o momento de cantar o verso censurado há 39 anos. O documento pode ser encontrado na íntegra pelo site do Arquivo Nacional.
A apresentação trouxe um total de 25 músicas dividida em duas partes. Na primeira, o disco homenageado foi tocado na íntegra, carregado de uma energia explosiva em diversos momentos. Músicas que não eram incluídas em sets dos Titãs há muitos anos, como Igreja, Estado Violência e Porrada, parecem conversar com o momento atual do nosso país, e deixaram o público em polvorosa.

Imagem: Reprodução
Os grandes hits da obra, como a faixa-título Cabeça Dinossauro, AA UU, Família e Homem Primata, contaram com a interação já conhecida de um público empolgado e enérgico, visto que essas canções têm lugar cativo nas apresentações da banda ao longo dos anos desde 1986.
Uma grande felicidade foi ver no público o reflexo de um legado enorme como é o de uma das bandas mais relevantes do país há décadas: os pais que levaram seus filhos ainda adolescentes para vivenciar a força de um álbum que atravessa gerações, provando que certas obras não pertencem apenas ao passado e seguem sendo descobertas, cantadas e sentidas como se fossem novas.
Somente depois de aproximadamente 50 minutos se deu a primeira (e praticamente única) interação da banda com seus espectadores. O guitarrista — e agora até cantor! — Tony Bellotto agradeceu à presença e comemorou o início da turnê, além de agradecer aos médicos que o trataram de um câncer recente, e que estavam assistindo à apresentação.

Foto: @bmaisca/Divulgação
Ao longo das canções, os três Titãs remanescentes que carregam o nome e o espírito da banda — que um dia já contou com nove músicos fundadores — até os dias de hoje de maneira excepcional, se alternaram entre os vocais. O palco trazia uma dinâmica diferenciada do que estamos acostumados, porque além dos telões laterais e de fundo, contava com uma estrutura elevada onde se posicionava a bateria, e que trazia uma faixa de led aproximando as artes visuais com os músicos de maneira bem orgânica.
Além disso, uma escada lateral dava um destaque específico para qualquer um dos músicos que lá subisse (nota particular desta escritora: Sérgio Britto ficou a própria personificação de Nosferatu ao surgir no topo da escada em meio à escuridão do palco com apenas um foco de luz vindo do chão para iluminá-lo).
A segunda parte deu consistência à atmosfera underground que veio junto com a íntegra de Cabeça Dinossauro. Nela, o grupo optou por não trazer os sucessos mais pop ou baladas, e continuou com canções na pegada pós–punk, mais pesada, da sua origem, dando espaço a faixas que nem sempre são ouvidas em setlists comuns.

Foto: @bmaisca/Divulgação
Toda a apresentação carregou um sentimento bastante conhecido de quem viveu o início dos Titãs: o de inconformismo e inquietação de quem quer lutar para transformar o que não faz sentido. Na reta final, tanto Diversão quanto Flores (esta, a música de encerramento) representaram uma quebra ao trazer leveza.
A sensação de quem esteve lá para ver uma apresentação mais que especial de uma banda icônica que sobrevive há tantos anos com maestria em meio à separação e morte de integrantes, doenças graves e polêmicas, foi uma só: a de satisfação em poder cantar — e viver —, do começo ao fim, um disco que não só marcou época, mas que continua relevante e muito atual.
A turnê iniciada na cidade que viu a banda nascer ainda aterrissa em mais três capitais, por enquanto: Belo Horizonte (25/04), Rio (09/05) e Curitiba (18/07), com bastante espaço para inclusão de novas datas em outras tantas cidades pelo Brasil. Acompanham os três Titãs originais no palco os músicos Beto Lee (guitarra), Alexandre de Orio (guitarra) e Mário Fabre (bateria). A realização da tour comemorativa é da produtora 30e.
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Setlist completo do show Titãs – Cabeça Dinossauro
Primeira parte: Cabeça Dinossauro
- Cabeça Dinossauro
- AA UU
- Igreja
- Polícia
- Estado Violência
- A Face do Destruidor
- Porrada
- Tô Cansado
- Bichos Escrotos
- Família
- Homem Primata
- Dívidas
- O Que
Segunda parte
- Será que é Isso que eu Necessito?
- Anjo Exterminador
- Armas pra Lutar
- Canção da Vingança
- Vou Duvidar
- Eu Não Sei Fazer Música
- Diversão
- Nem Sempre Se Pode Ser Deus
- Eu Não Aguento
- Lugar Nenhum
Bis:
- Desordem
- Flores



