Ave Sangria Foto: Reprodução

A história do Ave Sangria, grupo anistiado após ter sido ceifado pela Ditadura Militar

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner

Banda de rock psicodélico nordestina foi destruída nos Anos de Chumbo por ter feito música “de cunho homossexual”

52 anos após ter sido assassinado culturalmente pela Ditadura Militar, o grupo de rock psicolélico nordestino Ave Sangria será recompensado, com uma pensão vitalícia de dois mil reais por mês (além de um valor retroativo, ainda a ser calculado) a três de seus integrantes — Marco Polo, Almir de Oliveira e Agrício de Carvalho Noya Filho (no caso deste, o benefício vai à sua viúva, Katia Regina Cruz de Oliveira). Segundo o Diário de Pernambuco, as famílias do baterista Israel Semente e do guitarrista Paulo Rafael, também falecidos, serão igualmente contempladas.

A grana sairá do orçamento de 1,2 bilhões anuais destinados ao ressarcimentos às vítimas da Ditadura. O valor é pago pela União quando, na verdade, deveria sair do orçamento do Exército. Mais precisamente, das pensões dos criminosos que cometeram as atrocidades, enquanto ocupavam cargos.

As duas filhas de Carlos Alberto Brilhante Ustra, o notório torturador do regime militar, recebem mais de 30 mil reais mensais de pensão, juntas. Um comete o crime, o outro paga. O paradoxo dos Anos de Chumbo.

Ter sua arte roubada prestes a atingir o sucesso na carreira é um mal irreparável. A União, com sua “ajuda de custo” mensal, está fazendo sua parte, ainda que tardiamente. Nós também podemos fazer a nossa: ouvindo, pesquisando e cultuando a incrível Ave Sangria.

Um ícone do rock brasileiro

Para um artista, depositar toda sua energia e criatividade em um projeto e não ver “o filho” fazendo sucesso, é de uma frustração traumatizante. Imagine, caro leitor, ver seu disco bombando e, menos de dois meses após seu lançamento, vê-lo ser retirado das lojas pela censura militar. Foi o fim (pelo menos por um longo tempo) do sonho do Ave Sangria, grupo formado em Recife em 1969, inicialmente como Tamareira Village.

Cabeludos, maquiados e andrógenos, os músicos foram descobertos na capital pernambucana por um olheiro da gravadora Continental. Tratava-se de um coletivo hippie, com um monte de gente tocando em performances teatrais e fazendo uma deliciosa mistura de rock psicodélico com ritmos nordestinos. Um diamante. Em 1974, já com o novo nome — que, segundo relatos, foi dado por uma cigana, que os encontrou no interior da Paraíba e os chamou de “as aves sangrias” —, foram para o Rio e gravaram seu primeiro álbum em cinco dias.

Homônimo, Ave Sangria foi um sucesso imediato. Começou a bombar nas rádios e a se destacar comercialmente em diversas capitais brasileiras. A exposição trouxe um problema. A música Seu Waldir, na voz de Marco Polo, foi interpretada como apologia a um amor homossexual. “Seu Waldir, eu trago no peito um coração apaixonado, louco pelo senhor.” E a homofobia não era apenas institucional, mas também forte tanto na população brasileira, quanto no público do rock’n’roll.

Críticos musicais desceram o pau na canção, e, segundo Marco e Almir, a esposa de um general pediu ao marido que agisse para tirar aquela “afronta” das lojas. O disco foi recolhido. A gravadora rompeu o contrato, e a Ave Sangria teve as asas cortadas bem quando aprendia a voar.

Com as finanças arruinadas, veio a depressão, e o projeto se dissolveu. Naquele momento, Marco Polo (vocal), Ivinho (guitarra solo), Paulo Rafael (guitarra base), Almir de Oliveira (baixo), Agrício Noya (percussão) e Israel Semente (bateria) só queriam esquecer tudo o que haviam passado.

A redescoberta do Ave Sangria

Mas o público não se esqueceu deles. Primeiramente, os jovens apaixonados pela história do rock psicodélico brasileiro. A história “daquele disco” do Ave Sangria seguia nas rodas de conversa. Até que a boa e e velha internet (para isso ela serve bem) fez seu papel.

Comunidades no Orkut dedicadas à banda foram criadas. Discussões e novas informações passaram a inflamar os fãs, e também a apresentar a incrível música do grupo a quem não os conhecia. Ao Diário de Pernambuco, em 2019, Almir de Oliveira dessabafou: “em 1970, éramos jovens e os velhos encarceraram nossa obra musical. Agora, somos velhos e os jovens nos libertaram do cárcere cultural”. Preciso.

Com o fim da censura, não havia por que manter o primeiro (e até então único) álbum no limbo. Mas demorou até que alguém se lembrasse de relançá-lo. O golaço ficou a cargo da gravadora independente Ripohlandya, em 2014, em versões em vinil e CD.

O revival de Ave Sangria ainda contou com o lançamento em vinil de um histórico disco ao vivo, chamado Perfumes y Baratchos, gravado no Teatro de Santa Isabel em dezembro de 1974.

O bochicho chegou aos integrantes que, animados, resolveram gravar um novo LP em 2019, Vendavais. O grupo voltou firme, e segue na ativa até hoje, mas sem Israel, Ivinho, Agrício e Paulo Rafael, que faleceram em 1990, 2015, 2015 e 2021, respectivamente. A formação atual traz Júnior do Jarro, Gilú Amaral e Juliano Holanda ao lado de Marco e Almir. No entanto, não há shows confirmados nos próximos meses.

Ditadura nunca mais! Ave Sangria, para sempre! Aproveite o aniversário do golpe de 1964 (iniciado dia 31 de março e concluído na tarde de 1º de abril, com a deposição de João Goulart) ouvindo o mais safado, visionário e divertido disco do nordeste brasileiro.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.