Public Image Ltd. Foto: Reprodução

Se John Lydon fala demais, o Public Image Ltd. continua falando melhor

Leonardo Vinhas
Por Leonardo Vinhas

Edição: Flávio Lerner

Banda liderada pelo controverso “Joãozinho Podre” influenciou de Radiohead a U2 e é essencial para a história do pós-punk

No próximo dia 08, o Public Image Ltd. (PiL) vem ao Brasil. “E eu com isso?”, você pergunta. Bom, se você é alguém que curte pós-punk, rock com cara de dub (ou dub com cara de rock), pop esquisitão, texturas de guitarra fora da curva ou vocais estridentes, você pode ter muito a ver com isso, sim. Mas vamos por partes.

Public Image Ltd.?

Public Image Ltd. é o nome que John Lydon escolheu para sua banda quando saiu dos Sex Pistols e abandonou o apelido Johnny Rotten. Ele se juntou a um egresso do Clash (o guitarrista Keith Levene), a um baixista maluco por reggae e música africana (Jah Wobble) e a um baterista canadense que não pensava em seu instrumento de forma convencional (Jim Walker), e com essa turma, cometeu um discaço de estreia, Public Image: First Issue (1978). No ano seguinte, já sem Jim, veio Metal Box, e aí o bicho pegou.

Um crássico

Metal Box é considerada uma das maiores obras do pós-punk. Nela, até O Lago dos Cisnes, de Tchaikovski, é pervertida em uma peça dub acelerada, dançante e cheia de sons industriais, chamada Death Disco. Mas não era só isso: a combinação de krautrock, música industrial, dub e psicodelia se tornaria uma fonte de inspiração para gente do naipe de Massive Attack, U2, Pearl Jam, Nine Inch Nails, Radiohead e… Legião Urbana.

O álbum já impressionava por seu invólucro (uma caixa de metal, em vez do envelope de papelão de todo vinil). Era duplo, para que os sulcos das faixas fossem espaçados de modo a garantir a profundidade e a qualidade do som que a banda forjou em estúdio. O LP rodava loucamente entre a “turma da colina”, em Brasília — um grupo de amigos que depois viriam a formar a Legião Urbana, o Capital Inicial e a Plebe Rude. É um dos discos de cabeceira do Dado Villa-Lobos.

Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers, é fissurado nele, e chegou a fazer um teste o PiL em tempos recentes, só para ter o prazer de tocar com a banda. The Edge, do U2, também pirava nas texturas de guitarra de Keith Levene (e de John McGeoch, que integrou a banda nos anos 1980), e ainda chegou a gravar com Jah Wobble.

Crossover com rap

Meio mundo gosta de dizer que o cruzamento entre rap e rock começou com o Aerosmith e Run-D.M.C. regravando Walk This Way em 1986. Mas Mr. Lydon já tinha feito isso ao se juntar com o grande Afrika Bambaataa. Sob o nome Time Zone, lançaram World Destruction, que juntava Kraftwerk, funkão, proto-rap e uma letra antimilitarista e pró-ecologia. Como esse cara foi apoiar o Trump mesmo?

Ah é, tem essa. Como quase todo punk velho, o ex-“Joãozinho Podre” virou reaça. Mais sobre isso adiante. Por ora, vale saber que World Destruction foi incorporada ao repertório do Public Image Ltd. e está no setlist dessa turnê, que inclui ainda…

This Is Not a Love Song

É claro que essa não ia faltar. Maior hit mundial do PiL, é disco-rock irônico e debochado que ironizava o barateamento lírico das músicas comerciais — e que acabou fazendo tanto sucesso quanto os sons banais que ela criticava, veja só.

É uma canção impressionante ainda hoje: a alternância entre climas mais esparsos com outros explosivos, sempre conduzido por um baixão cheio de groove, é um espetáculo. Obra de arte mesmo.

Raiva é energia

Aqui no Brasil, porém, “todo mundo” conhece mesmo Rise, que foi até regravada pela Legião no seu Acústico MTV. É uma faixa de Album, disco que mudou totalmente a abordagem sonora do PiL, saindo da esquisitice experimental avant-garde para o pop grandioso e superproduzido.

O line-up dessa canção é absurdo: Tony Williams na bateria (tocou com Miles Davis e era uma lenda do jazz), Steve Vai na guitarra, Ryuichi Sakamoto nos teclados, Bill Laswell no baixo e L. Shankar no violino elétrico. A letra é anti-Apartheid, o regime de segregação social que ainda vigorava na África do Sul. E o refrão — “a raiva é uma energia” — é um lance que a gente bem poderia se lembrar por aqui, pra fazer algo de útil com a raiva em vez de xingar muito no Twitter.

Não mais Joãozinho, ainda podre

Fazer inventário moral de celebridade é jogo duro: parafraseando Nelson Rodrigues, se a gente soubesse o que algumas pessoas pensam de verdade, não cumprimentaríamos ninguém na rua (talvez nem a gente merecesse ser cumprimentado, aliás).

Mas o Sr. Lydon tem abusado da boa vontade: apoia intervenções militares no Oriente Médio (“enquanto não ver um país árabe ou um país muçulmano virar uma democracia, não vejo nenhum problema na forma como eles são tratados”), é contrário a casais homoafetivos adotarem filhos, e mesmo tendo se naturalizado cidadão dos EUA para poder ter acesso ao Obamacare (serviço de saúde pública instituído por Barack Obama), apoia Donald Trump porque ele “se importa com os trabalhadores”, chegando até a defendê-lo publicamente das acusações de racismo que são (justificadamente) imputadas ao Laranjão. Ah, sim, ele também apoiou o Brexit.

Em casos assim, fica a dúvida: Lydon acredita mesmo nisso tudo, ou só está sendo o Joãozinho Podre que sempre foi, escolhendo as palavras e posturas que mais vão irritar os mais sensíveis e garantir repercussão? Vai saber.

Ainda dando no couro

Da formação original, só sobrou John Lydon mesmo. O guitarrista Lu Edmonds e o baixista Scott Firth estão na banda desde 2009, o resto da turma entrou no ano passado. Mas basta pegar qualquer vídeo recente dos caras no YouTube pra ver que a estridência do frontman continua alta, e que a banda segura com dignidade e punch as releituras dos clássicos.

Vale ainda dizer que metade do álbum de estreia está no setlist, e que não é todo dia que a gente consegue ver ao vivo um clássico ser executado ao vivo por seu idealizador. Então, talvez valha a pena deixar a antipatia por Mr. Lydon de lado e se arriscar no show do Public Image Ltd.

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Serviço

Public Image Ltd. em São Paulo

Data: 08 de abril de 2026 (quarta-feira)
Local: Cine Joia – São Paulo/SP
Horário: 19h
Ingressos: Via Fastix

Leonardo Vinhas

Leonardo Vinhas é jornalista, escritor e produtor cultural na ativa há mais de 20 anos. Escreve para o Scream&Yell desde 2000, já produziu 19 discos para o selo S&Y, e foi co-responsável pelo Festival Conexão Latina.