Effie Imagem: Reprodução

Anti K-pop? Entenda como Effie pode subverter a indústria musical coreana

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner

Artista de 22 anos está ajudando a apresentar ao mundo uma Coreia do Sul que ninguém enxerga nos shows do BTS

“Eu não finjo mais”, contou a sul-coreana Effie, em entrevista à revista Dazed, quando decidiu parar de tentar parecer como os outros artistas do K-pop, uma estética tão forte e poderosa que por muito tempo parecia ser o único caminho possível para quem queria fazer música na Coreia do Sul.

Em um cenário em que a produção musical foi moldada pelo método industrial milionário, começar uma carreira demandava encontrar uma empresa consolidada, disposta a investir em uma adolescente e transformá-la em produto, meticulosamente formatada para transmitir a mensagem de que, naquele país, a vida é perfeita. O bom e velho soft power que fez artistas coreanos ganharem uma legião de fãs no mundo inteiro com músicas plásticas, visual higienizado, entregue ao planeta com canções sobre amor teen.

Por mais que tenha tentado “fingir” durante um tempo, a garota de 22 anos (começou a lançar suas músicas com 15) não participava desse sonho dourado. Deslocada, solitária e zoada pelos colegas na escola, Effie tentou suicídio duas vezes nessa época, até que encontrou a música como forma de expressão, aprendendo sozinha a mexer em softwares de produção no quarto de casa.

Subia suas músicas em plataformas independentes, como o SoundCloud, e chegou até a gastar um dinheiro alugando equipamentos de vídeo para tentar editar videoclipes com a estética perfeitinha do K-pop. Mas um dia, tocou o foda-se. E sem saber, passou a liderar uma revolução em seu país, trazendo outros artistas para junto de si que não se encaixavam naquela indústria. Na atitude e na forma de conduzir sua carreira, foi punk. E está ajudando a apresentar ao mundo uma outra Coreia do Sul, que ninguém enxergava assistindo aos shows do BTS.

Viver o status quo de sua nação era tão pesado para Effie que ela largou a escola com 16 anos, já com a ideia de viver somente de música. No ano seguinte, lançou o single Highway. Em 2021, colocou na rua, de forma independente, seu primeiro EP, Neon Genesis, e rompeu de vez com aquela estética perfeitinha. Apostou em videoclipes lo-fi, mal feitos, partindo para uma batalha “anti K-pop”.

Ao contrário de tudo o que é feito no país quando o assunto é lançar comercialmente novos artistas, construiu uma carreira orgânica baseada na vulnerabilidade, no boca a boca da internet e na rejeição ao polimento excessivo. Sua música é um refúgio para aqueles que se sentem deslocados, um grito de independência que mistura seu idioma nativo com o inglês para fluidez rítmica, mas que é profundamente enraizado na experiência pessoal e cultural de uma jovem coreana. Contestação em seu estado puro.

Demorou um pouco, mas o povo da indústria se deu conta de que havia público para o lado obscuro da música da Coreia. Misturando rap, drill e o tal hyperpop, a artista foi reconhecida como “Artista do Ano” pela maior plataforma de streaming do país, a Melon, em 2025 — logo após lançar seu primeiro álbum, E.

Acostumados com a obediência cega, no entanto, ainda não sabem como vão lidar com Effie e a turma de artistas rebeldes que a acompanha no país, como sogumm, Yaeji, Sumin, CIFIKA e Giriboy. Mesmo com o sucesso internacional de seu álbum de estreia e os dois EPs que já lançou, ela ainda não tem contrato com nenhuma grande gravadora.

Para quem crescia nos colégios do país e não se encaixava bem no mundo dos bonitinhos apaixonados que dançavam perfeitamente, Effie foi um alento para os que viram que não estavam sozinhos. Mais, viram que não eram poucos. Um novo momento cultural está vindo à tona na Coreai do Sul. Dessa vez, bem mais verdadeiro e sem filtros.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.