
8.5/10
Edição: Flávio Lerner
“Quando eu fizer 33 anos, vou pendurar a guitarra”, anunciou Mick Jagger, um ano antes de completar três décadas de vida e de muitas pedras rolantes no rock, no programa The Dick Cavett Show. “Será o momento de me dedicar a outras coisas. Não quero ser um rockstar para sempre”, filosofaram os lábios mais vorazes dos Rolling Stones.

A data exata era 1973. Enquanto sua banda preparava Goat Head Soup para a (impossível) tarefa de superar Exile On Main Street, Jagger sequer suspeitava que 50 anos depois daquela profecia malfadada, ele não só teria um status ainda mais cósmico, como o recém-lançado Foreign Tongues (Polydor/Universal) seria um dos álbuns mais aclamados do momento.
Isso não lembra um pouco um episódio de Black Mirror ou Twilight Zone?
Seja qual for a resposta, outras questões pairam sobre a atual posição dos Stones. Estaria o mundo carente de criatividade e longevidade musical? Ou quem sabe, precisaremos buscar uma outra saída para esta encruzilhada assombrada pelo lendário Robert Johnson?
Línguas estrangeiras decifradas
A esta altura, os seguidores da banda nascida da paixão pelo blues no início dos anos 1960, já tiveram tempo de sobra para explorar o conteúdo de Foreign Tongues. A contribuição do Music Non Stop para traduzir as línguas estrangeiras transformadas em canções é ir além do básico. E o xis dessa equação pode estar diretamente ligado a uma declaração da outra metade da laranja stoneana sobre o presente.
Vamos lá. Para Keith Richards, o desafio de gravar e produzir Foreign Tongues ao lado de Mick, Ronnie e do produtor Andrew Watt (além da A-list de convidados, incluindo Paul McCartney e Robert Smith), se tornou uma espécie de luta pela sobrevivência do rock and roll da forma como o conhecemos. Pior: sabendo que os Rolling Stones não produzirão eternamente.
“A Inteligência Artificial está me matando, sabe? Se temo pelo futuro da música? Temo pelo futuro de tudo”, alertou o guitarrista sobre o estágio atual da humanidade, em entrevista ao podcast Sidetracked with Annie and Nick, da BBC Sounds. Será que Richards vislumbrou o apocalipse visto em O Exterminador do Futuro, quando as máquinas ganham vontade própria?
Keith pode não ter essa mesma visão macabra exposta no cinema, mas ao mergulhar nas gravações de Foreign Tongues, podemos capturar a essência da mensagem dos Rolling Stones. Mick, Keith e Ronnie se preocuparam em marcar território e conservar a essência do som que os tornou imortais.

Nada de deixar brechas ou argumentos do tipo: “eles se venderam para conquistar o público atual”. E isso tem de sobra nas 14 faixas selecionadas para o álbum (15, contando o bônus da edição japonesa, Bad Luck Hideaway).
Charlie Watts vive
Hit It Me In The Head — gravada originalmente em 2021 — já começa abençoada pela presença do saudoso Charlie Watts, na última gravação do baterista antes de escalar o Monte Olimpo e se estabelecer por lá.
Ao contrário do material incluído em Hackney Diamonds, a faixa é mais crua e suja, como se fosse resgatada das fitas arquivadas de Sticky Fingers, mas envelopada em 2026.

Cadenciada — e forjada — nos riffs herdados de Chuck Berry, Divine Intervention parece ter sido concebida no crepúsculo dos anos 1970, e ganha ainda mais identidade graças à intervenção da guitarra de Robert Smith, do The Cure.
Outra estrela de primeira grandeza da companhia é Covered In You, que desponta pela dramaticidade e entrega vocal de Mick e das linhas pegajosas de baixo executadas por Paul McCartney, como se ele fosse um Stone, não um Beatle.
E por falar em vozes, nenhum álbum dos Rolling Stones pode receber o certificado de autenticidade sem que Keith Richards apareça para desfilar sua melancolia e sinceridade. E desta vez ela desponta ainda mais venenosa e hipnótica, rastejando pelos versos de Some Of Us.
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Balanço: enquanto Hackney Diamonds aparenta ser mais conciso após quase três anos imerso em suas canções, pode se dizer que Foreign Tongues apresenta os Rolling Stones em busca de sua própria alma, sem fazer concessões que os coloque em xeque com seus fãs. Se aquele decidiu assumir seu casamento com os novos tempos mesmo sem perder as raízes, este parece disposto a assumir uma aliança definitiva com todas as gerações que fizeram os Stones serem o que são — e irão ser.



