Psica Festival Psica 2024. Foto: @tveronica_/Divulgação

Como o Festival Psica virou referência no Brasil sem abrir mão da Amazônia

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Às vésperas do primeiro Festival Psica no Verão Amazônico, Jota Wagner conversa com o cofundador Gerson Dias

Tem coisas que só o Pará pode fazer por você. E o Festival Psica é uma dessas. Desde 2012, uma vez por ano (e a partir de 2026, com uma edição extra que rola neste final de semana), os irmãos Gerson e Jeft Dias transferem a capital cultural do Brasil para o meio da Amazônia, contando a história a partir da perspectiva paraense. Só lá você encontra Sepultura, Gigante Crocodilo Prime, Elza Soares e Os Amantes no mesmo balaio. Durante o Psica, eles fazem do jeito que querem, e todos são bem-vindos.

O rolê se tornou algo gigantesco atualmente, com dez palcos — cinco gratuitos na rua e cinco dentro do estádio do Mangueirão —, mas começou como uma festinha de quintal que misturava cumbia, tecnobrega e thrash metal. Evoluiu para o festival Mongoloide e depois Psica, mantendo basicamente a mesma essência mistureira. É que no meio da Amazônia, a raiz cultural é tão forte que só é possivel vivê-la de dentro para fora. Grandes artistas nacionais, para chegar, pedem licença. Um exemplo para todas as outras regiões brasileiras.

Às vésperas do primeiro Festival Psica no Verão Amazônico (17 e 18 de julho, na Ilha do Marajó, com entrada gratuita e nomes como Tribo de Jah, Mombojó e Duda Beat entre as atrações mais conhecidas), conversamos com Gerson, um dos irmãos que transformaram o evento no que ele é hoje. E a história é divina!

Jota Wagner: Qual a história dessa nova edição do Psica na Ilha do Marajó?

Gerson Dias: Sempre foi um sonho nosso. A gente frequenta o Marajó desde que estava na barriga da minha mãe. A família, por parte dela, veio de lá de Salvaterra, na parte oriental. Meu pai sempre foi comerciante e vendia várias coisas lá, onde tem as melhores praias. De cerveja a CD pirata.

 

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Esta aí o DNA empreendedor da família…

A música e o empreendedorismo. Íamos com o meu pai vender essas coisas lá. Com o festival, conseguimos essa reconexão. Desde crianças, sentíamos a energia que tem lá. Tem algo especial naquela terra. É um território sagrado. Esse ano, conseguimos tirar esse projeto do papel graças a um dos nossos patrocinadores, que nos instigou a fazer o Psica circular fora da capital. O primeiro lugar que pensamos foi Marajó.

O festival principal atingiu uma dimensão gigantesca. Em 2025 foram dez palcos…

A gente encontrou um formato que vai perdurar durante muito tempo. O primeiro dia é gratuito, na rua, com cinco palcos. Os outros, com ingresso, dentro do Mangueirão. É como fazer dois festivais. Cada um tem seus fornecedores, sua equipe… Nossa pretenção é crescer em curadoria. Explorar algo mais internacional, com nomes maiores, para incluir Belém nesse circuito de shows internacionais. Mas estamos indo devagar.

Vocês estão na linha de frente em uma conexão com a América Latina, que ainda é muito fraca no resto do país…

Exatamente. Aqui a gente bebe muito na fonte da cumbia, do zouk, do merengue. Essa conexão acontece no primeiro dia, gratuito, que fazemos ali na área da feira de Ver-o-Peso, onde a massa da população periférica consome esse tipo de música. Faz muito sentido, por exemplo, trazer uma Rossy War, cantora de tecnocumbia do Perú. Ninguem sabe no resto do Brasil, mas ela é maior influência da Joelma. Aqui ela toca em qualquer esquina. A gente traz o Armando Hernández [Colômbia], que o resto do Brasil não conhece, mas aqui sim.

Para trazer alguma atração internacional, ela precisa fazer sentido. Sempre tivemos essa conversa com o nosso público e sempre fica algo redondo.

Eu conheci Belém na época de um festival chamado Yamada TIM Festival, que rolou em 2004.

Foi o primeiro festival que eu fui na minha vida. Tinha 14 anos.

Foi uma influência para subverter o mapa da música no país, fazendo algo centrado na cultura nortista?

Muitos festivais influenciaram o Psica, assim como o Yamada TIM Festival. Ele já apresentava muitos artistas daqui da terra e foi nossa primeira referência. Lembro de ver Sepultura e pensar, “nossa, isso aqui é muito grande”. E em 2019, pude trazê-los para o meu festival. Foi histórico e me fez voltar ao Gerson de 14 anos.

Festival Psica

Os irmãos Jeft e Gerson Dias. Foto: Divulgação

O Psica também não é o festival mais antigo em atividade. Temos o Se Rasgum também, que veio basicamente do mesmo nicho. Só que em determinado momento a gente vai para um lado e eles seguem para o outro. Vi como eles falavam sobre música local e misturavam com a galera daqui, além de conversarem com o resto da Amazônia. Isso nós puxamos pra gente.

Não somos os pioneiros em fazer essa curadoria de dentro para fora. Temos outras referências, como o Lambateria, que é um festival estritamente de ritmos amazônicos: tecnobrega, carimbó, lambada, merengue, zouk e essas coisas. O que a gente faz é difundir isso, ainda mais, para o Brasil e o mundo.

Qual o peso dos artistas locais no Psica hoje?

Algo que, sim, fomos pioneiros, foi a decisão de protagonizar ainda mais os nossos artistas. Tratamos todo mundo de igual para igual, inclusive em nome e posição no cartaz. Não vão só abrir o festival.

Psica

BK’ no Festival Psica 2025. Foto: @tveronica_/Divulgação

Vocês têm a ideia de levar o Psica e seus artistas para outras regiões do Brasil?

Chegamos a fazer um palco na Virada Cultural, com oito artistas daqui. Lançamos o projeto Rock Doido do Psica, em que circulamos em outros festivais. Fomos para a China com dois artistas que são daqui, Felipe e Manoel Cordeiro. Já temos algumas propostas do Sudeste. É muito importante para nós levar uma pílula do que é a nossa cultura.

Em que momento você e seu irmão sacaram que o lance do Psica estava ficando sério?

Por incrível que pareça, foi durante a pandemia. Foi naquele momento ruim que a gente conseguiu florescer. Até 2020, o Psica não era nossa principal fonte de renda. Tínhamos um restaurante de delivery de marmita; trabalhavam eu, meu irmão, minha mãe e minha avó. Quando a pandemia chegou, minha avó tinha 80 anos. Decidimos suspender as atividades para não colocá-la em risco.

Após uns meses de lockdown, pensamos que tínhamos fazer alguma coisa com o tempo livre. Começamos a estudar, focar em outra coisa. Passamos a estudar editais de música e de fomento. Em 2020, estudamos o edital da Natura e escrevemos quatro projetos. Três foram selecionados, um do Psica e outro de dois artistas que trabalhavam com a gente.

Depois, veio a Lei Aldir Blanc. Pensamos que seria uma boa oportunidade para juntar todo mundo, criar um núcleo e usar a nossa forma de trabalhar. Desenvolvemos um modelo possível de replicar. Chamamos todos os artistas que estavam precisando e executamos 33 projetos!

Festival Psica

Festival Psica 2024. Foto: @1taldekleber/Divulgação

Como o Psica era viabilizado até 2019?

Era uma parada completamente colaborativa, do it yourself mesmo. Contávamos com a colaboração de todo mundo. Muita gente não recebia grana, se doava. Produtores, jornalistas, social media… Eu e meu irmão entrávamos na conservadora de gelo para picar no meio do evento, para vender cerveja. Fazíamos de tudo. Só tínhamos a grana da bilheteria e da venda de cerveja. Pegávamos cartão de crédito de todo mundo para comprar passagens para os artistas e íamos pagando devagar. Não víamos o dinheiro. E ainda assim, em 2019, conseguimos construir um line-up muito foda, sem patrocínio nenhum, com Sepultura, Djonga, Luedji Luna, Jaloo… Tudo feito na cara e na coragem.

Desde a época da Mongoloide, tínhamos uma rede de uns 50 amigos que faziam um empréstimo coletivo pra gente. Pedíamos uns 600 reais para cada um. Em 2021, entrou a grana da Natura. Foi uns 250 mil. Nunca tínhamos recebido uma grana dessa.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.