Paul McCartney - The Boys of Dungeon Lane

The Boys of Dungeon Lane

Paul McCartney

Folk / Psicodelia / Rock | 2026

9/10

Claudio Dirani
Por Claudio Dirani

Edição: Flávio Lerner


Poucas horas antes de o produtor Andrew Watt vir ao mundo em 20 de outubro de 1990, na cidade de Nova Iorque, Paul McCartney estava bastante ocupado em divulgar o single da performance ao vivo de Birthday — com direito a duas versões de um vídeo para a MTVAos 48 anos, o músico experimentava naquele momento mais um de seus incontáveis recomeços, após ficar longe das turnês desde 1979. Nem é preciso dizer que Watt (então, um recém-nascido) sequer sonhava em cruzar o destino de um Beatle três décadas mais tarde.

Olhando para um passado ainda ainda mais distante — precisamente, em março de 1976 — recordamos que McCartney, ainda com 33, precisou conviver com a dor e o prazer, ao sofrer a perda de seu pai, Jim, em meio a uma turnê mundial e o lançamento de Wings at the Speed of Sound. Ele era oficialmente um órfão. Sua mãe, Mary Patricia, havia falecido no Halloween de 1956, quando o adolescente de Speke, Liverpool, tinha 14 e era apenas um dos garotos que circulava por Dungeon Lane em busca de ideias e de uma saída para o trauma.

Quase sete décadas seriam necessárias para que todas essas perdas e linhas do tempo se cruzassem em forma de música — não por coincidência, o remédio usado por Paul  McCartney para escapar de sua inevitável dor.

A um dia do lançamento oficial de The Boys of Dungeon Lane, estive no The Cavern Club, em São Paulo, pelo Music Non Stop para tentar capturar o que as 14 novas faixas de seu álbum prometiam oferecer sobre uma vida e carreira tão investigada e documentada. O ambiente, aliás, onde quase cem pessoas se reuniram para experimentar essa catarse, pôde ser comparado ao quarto de hotel escolhido para o personagem de Christopher Reeve viajar no tempo no longa Em Algum Lugar do Passado.

O Cavern Club funciona como um livro de história 4D, uma verdadeira máquina do tempo

O interior do Cavern Club pode ser comparado a um um livro de história em 4D, com itens feitos por IN (Inteligência Natural). Estão lá réplicas honestas dos instrumentos musicais usados pelos Beatles, como o bumbo da bateria Ludwig (uma marca registrada de Ringo Starr), amplificadores VOX, uma guitarra Rickenbacker 325 e muitas fotos do quarteto através dos tempos. O suficiente para acreditar que o ano era 1956 ou 1964, nunca 2026.

Foi nesse ambiente que os dias não deixaram para trás que as músicas de The Boys of Dungeon Lane foram apresentadas e absorvidas durante pouco mais de uma hora.

Apesar de Paul McCartney não ter marcado presença como fez em Los Angeles e Londres para divagar sobre suas composições, ele certamente esteve presente em alma. Isso ficou cada vez mais transparente em letras e melodias que deram jovialidade à sua herança de memórias.

O mais intrigante, nesta primeira audição, foi notar que a juventude de Andrew Watt foi como o toque de Midas para que o álbum não soasse como apenas um artefato nostálgico. Na abertura com As You Lie There (talvez a música mais inovadora), fica claro como o produtor colaborou para montar uma estrutura quase sinfônica em parceria com Paul McCartney, onde ele relembra de Jasmine — uma adolescente de Liverpool que teria sido sua namorada, caso ele tivesse a chance de se declarar.

Nessa jornada de reminiscências, há espaço para George Harrison, em Down South — uma canção totalmente crua, com apenas voz e violão, em que Paul resgata suas viagens de ônibus pela cidade natal, sonhando com a fama “bem antes de cantar Twist and Shout”. Os fantasmas do bem que convivem com The Boys of Dungeon Lane ainda aparecem em três canções que voltam aos tempos da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente, pouco tempo antes de McCartney vir ao mundo, em 18 de junho de 1942.

Salesman Saint fala sobre o casal Jim e Mary McCartney, em uma balada irlandesa, com direito a bumbos militares, enquanto Life Can Be Hard e suas variações rítmicas são uma clara homenagem ao jazz, uma paixão de seu saudoso pai.

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Está na hora de assistirmos a De Volta Para o Futuro

Em meio a um delicioso fish and chips degustado na mesa do Cavern paulistano, ainda houve tempo de apreciar músicas mais ligadas ao presente de Paul McCartney — e que surpreenderam, tanto pela criatividade como pela performance. 

Ripples in a Pond é um pop direto e otimista, suado como declaração de amor à esposa Nancy Shevell. Por sua vez, a enigmática Never Know é uma espécie de mensagem aos novos fãs de que o ex-Beatle está mais conectado do que nunca ao passado, mas nunca em sacrifício ao presente.

Então, depois de mergulhar em Em Algum Lugar do Passado, passamos agora a pensar muito mais em De Volta para o Futuro — simplesmente, porque vem mais Paul por aí, com certeza.

Claudio Dirani

Claudio D.Dirani é jornalista com mais de 25 anos de palcos e autor de MASTERS: Paul McCartney em discos e canções e Na Rota da BR-U2.