Foto: ReproduçãoMuito antes do TikTok, Lily Allen usou a web para vingar na música
Edição: Flávio Lerner
Há 20 anos, cantora britânica lançava seu álbum de estreia depois de ser recusada por gravadoras e bombar no MySpace
“O artista fulano assinou contato com a gravadora após viralizar no TikTok.” Você já viu isso muitas vezes e já não é mais novidade. Pois saiba que nem mesmo a rede social mais famosa do mundo atualmente inventou a roda. Há 20 anos, em 17 de julho de 2006, Lily Allen lançou no Reino Unido seu disco de estreia, Alright, Still, bombando na internet muito antes da rede chinesa sequer ter sido pensada. E praticamente forçou uma gravadora a finalmente dar-lhe atenção.
Antes do álbum vir ao mundo e fazer um gigantesco sucesso internacional com hits como Smile e LDN, a garota batia cabeça pelas ruas de Londres, enquanto trabalhava em uma floricultura, tentando emplacar sua carreira artística. Mergulhados na febre da música eletrônica da virada do milênio, nenhum britânico queria saber daquela baixinha que fazia música pop inspirada no ska jamaicano que sempre ferveu nas ruas da cidade, trazida pelos imigrantes. Allen chegou assinar contrato com a gravadora London Records, que se arrependeu e arquivou suas gravações. Tremenda frustração.
Mas a sorte bate à porta, principalmente para os mais atentos. A garota, então com pouco mais de 18 anos de idade, descobriu um tal de MySpace, uma novíssima rede social surgida nos Estados Unidos, com design horroroso para os padrões atuais, que permitia que artistas fizessem o upload de algumas músicas.
Para os artistas, uma inovação sensacional em tempos de internet capenga. Para o público, uma possibilidade interessantíssima: falar diretamente com eles. A rede bombou definitivamente quando o pessoal percebeu que figurões como Madonna, John Mayer, Courtney Love e Billy Corgan abriram perfis e publicavam, eles mesmos, músicas e diários pessoais. Sem filtro e sem equipes de marketing por trás.

Lily Allen era da turma dos desconhecidos, e sua música (além da imagem) fofinha causou furor no MySpace, ao lado de outros estreantes espertos como Arctic Monkeys e Adele. As canções que ela publicou bateram um milhão de plays, enquanto, segundo a própria, chegou a receber dez mil pedidos de amizade (que você precisava aceitar um a um) em apenas uma semana. Acha pouco? Para tempos em que a internet engatinhava, eram números incríveis. O público queria Lily e gravadora nenhuma seria capaz de dizer o contrário.
Tá bom, tá bom, a gente lança!
Confrontada com as irrefutáveis provas de sucesso de Lily Allen, a Regal Recordings (selo da EMI) resolveu abraçar a cantora. Mais, apressou a gravação e lançamento do álbum para aproveitar o hype de internet.
Para reforçar o DNA jamaicano do álbum, a gravadora chamou produtores de peso como a dupla Future Cut, Greg Kurstin e um jovem Mark Ronson.

As letras de Allen, de ácido divertimento, conquistaram a geração de sua idade, e Alright, Still ficou em segundo lugar nas paradas britânicas, e em vigésimo na estadunidense. O MySpace estava certo: Lily Allen era um sucesso.



