ANNA Foto: Alisson Demetrio/Divulgação

ANNA: “Minha conexão com o Brasil cresceu muito nos últimos 4 anos”

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Prestes a inaugurar o ANNA All Night Long na região de Campinas/SP, onde nasceu e se criou, DJ brasileira fala com Jota Wagner

Com um certo clima de retorno às raízes, ANNA decidiu retornar à região onde nasceu e cresceu para fazer um set especial de muitas horas no Ame Club, em Valinhos/SP, neste sábado, 25. Ela é de Amparo, pertinho dali, e começou a tocar no clube 666, de propriedade do pai, o icônico Bira.

Ali, no “Six”, para os íntimos, ganhou do pai uma pista só para ela (a casa tinha várias, e a filha ficou com a de música brasileira). Aprendeu na prática como levar uma história por sete horas seguidas.

Voltando ao lar, seu público agora verá uma mulher com carreira internacional consolidada na música eletrônica, singles de sucesso lançados e larga experiência adquiria dos principais clubs e festivais de música eletrônica do mundo.

A DJ brasileira, que inaugura agora o ANNA All Night Long, falou com o Music Non Stop desde sua casa em Lisboa. No papo, nos conta sobre a carreira, a decisão de se mudar para a Europa e a importância desse retorno triunfal.

ANNA

ANNA no Ame Club em 2026. Foto: Gui Urban/Divulgação

Jota Wagner: Crescer dentro de um clube é um privilégio para quem um dia sonhava em ser DJ, não?

ANNA: Eu acho que aquilo me deu muito feeling de pista. Lá, eu já comecei fazendo sets All Night Long. Tocava sozinha por sete horas toda semana. E tinha 15 anos. Virei DJ por causa do meu pai. E o clube foi o que me moldou.

Quando você se mudou para Europa, e por quê?

Em 2015. Foi um estalo, sabe? Eu acho que o Brasil estava meio limitado para mim. Lembro que era uma época em que todo mundo queria buscar o mesmo tipo de som. Não tinha diversidade. Eu falava com a minha agência e eles diziam: “você tem de fazer outro tipo de música”. Meu agente da época disse: “olha, você nunca vai dar certo”.

Mas eu tinha muita confiança no que eu fazia. Pensava que aquilo não podia dar errado. Na minha cabeça era impossível. Eu acho que tinha muito amor por tudo isso. Já estavam acontecendo coisas para mim aqui fora. Estavam tocando minhas músicas, e eu pensei: “não tem o que fazer aqui, estou muito limitada”. Encontrei uma agente na Europa, a Leticia [van Riel, falecida recentemente]. Foi ela quem me falou que eu precisava mudar de país, senão as coisas não iam rolar.

Para qual cidade você se mudou primeiro?

Barcelona. Fiquei oito anos lá.

E como foram os primeiros tempos lá? Afinal, é uma mudança temerária…

Na cabeça da Leticia seria mais fácil arrumar shows. Mas a agência em que ela trabalhava era mais com EDM, então não tinha muitos contatos no techno. Construímos tudo do zero. Criamos cada oportunidade, através do meu amor pela música e dela pelo projeto. Demorou, não foi uma explosão. Foi um trabalho gradual. Acho que tudo chegou para mim quando eu estava pronta mesmo. Fui assinando um EP aqui, tocando ali, e em 2017 rolou um turning point. Mas tudo teve de ser construído com perseverança e paciência.

Você já está há mais de dez anos na Europa. O que o Brasil ainda precisa aprender em relação ao profissionalismo?

Muitas vezes, absolutamente nada. A Europa tem muito mais tempo de cena, algo que nasceu aqui e tudo o mais. O movimento é de Detroit, mas a Europa abraçou isso há mais tempo do que o Brasil. E mesmo assim, acho que não deixamos nada a desejar. Muitos clubes e grandes festivais do Brasil não deixam nada a desejar em relação aos daqui.

O ANNA All Night Long de 25 de julho é um tipo de festa que você já fazia aí na Europa?

Eu queria fazer isso pela primeira vez no Brasil. Não é um label, um projeto que eu quero fazer. Não sei. Se eu gostar, me inspirar, posso fazer mais edições, mas não é algo que eu esteja pensando.

O que eu queria mesmo era levar minhas ideias, curar uma noite, levar minha energia. Porque minha conexão com o Brasil cresceu muito nos últimos quatro anos. Ficou bem forte. E queria fazer no interior de São Paulo. Sou de Amparo, faz todo o sentido.

Em festivais, os DJs tocam cada vez menos tempo. Foi isso que a levou para um projeto como o ANNA All Night Long?

Cara, eu não sei. Acho que é mais de gosto mesmo. O DJ tem uma história a ser contada, mas também uma energia a ser trocada com o público. Então eu posso fazer um set de três horas, mas sei que se tocar por uma hora, não fico devendo nada. É a forma como você troca essa energia. Eu sei que tem DJs que gostam de tocar mais tempo. Eu gosto de tocar por duas horas, mesmo tendo começado por sete. Foi como eu aprendi. Não ficava cansada, não ficava sem saber o que tocar.

Como você se prepara mentalmente para algo assim?

Já fiz long sets, mas nunca chamei de ANNA All Night Long. Estou encarando como uma trajetória por toda minha carreira. Tanto que vou mixar com vinil e digital juntos. Mas eu não preparo set. Nunca. Minha preparação é no estúdio, com pesquisas diárias. O que eu vou fazer é entender o que tocar na primeira hora, na segunda… Criar uma jornada para a galera ficar presa ali.

Você lida bem com expectativas antes de grandes shows?

Hoje em dia, o DJ virou meio que uma banda. Nossa valorização é o quanto a gente vende de ingresso. Então, é essa a expectativa. Mas eu acho que eu lido bem com isso. Dou o meu melhor e tenho um time incrível que está me ajudando muito. Quero que a noite seja a melhor possível. Às vezes, fico meio ansiosa, me perguntando se estamos fazendo do jeito certo, se está vendendo bem, mas fora isso, é uma coisa saudável. Nada que me bloqueie.

O que vocês estão planejando para o futuro da ANNA?

Eu não gosto de planejar muito. Vou evoluindo conforme a minha trajetória. A música também muda, as coisas aparecem. Agora, por exemplo, estou num ponto em que quero criar um label. Conforme eu vou vivendo, vou me inspirando, vou aprendendo.

Claro, tem umas metas, principalmente para quem tem um time grande como eu. Então sento com os managers e penso no que eu vou fazer no ano. Assinar três EPs, por exemplo, mas é algo mais solto. Só que normalmente acontece diferente do que eu planejei. O goal é conseguir expressar a minha verdade.

Prefiro que uma pessoa escute a minha verdade do que um milhão ouvindo algo feito para hypar uma marca. Não consigo fazer isso.

Nós te vemos sempre rodeada por um monte de equipamentos analógicos em seu estúdio. Como lida com tantas novas tecnologias?

Acho que são fases. Depois que construí meu estúdio, fiquei superconfortável para fazer tudo o que eu quero. Ainda assim, semana passada vi uma drum machine que gostei bastante, e fazia tempo que eu não me interessava por nenhum equipamento. Tive a fase dos sintetizadores, e agora estou na de instrumentos. Não paro de comprar handpan, flauta, gongo… Acabei de comprar um gongo e não tenho nem onde colocar. Estou numa obsessão por instrumentos mais cósmicos, de cura.

Dia 26 de julho, acabou o ANNA All Night Long. Você vai para o hotel e bota a cabeça no travesseiro. O que precisa ter acontecido para você pensar: “foi uma noite perfeita”?

Acho que é sentir que a gente conseguiu aquela energia de conexão com a pista. Nos tornamos um. Quando a gente se conecta, é uma energia que vai e volta. Nos sorrisos, na respiração das pessoas. Conectar, transformar e criar aquele campo. Quando há essa conexão linda, milagres acontecem. É isso que eu quero. Quando as pessoas falam: “ANNA, o que foi aquela energia?”, eu me sinto tão feliz e realizada!

O feedback mais lindo que já recebi até hoje foi quando uma menina me disse: “ANNA, quando ouço você tocar, eu me sinto conectada comigo mesma”. É pra isso que faço música.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.