Milo J Foto: Divulgação

Desafiando o mito da ‘Argentina branca’, Milo J vem ao Brasil em setembro

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Rapper de apenas 20 anos é mais um dos expoentes latino-americanos que assumem orgulhosamente suas raízes

“Não representam a Argentina branca e decente.” É com esse tipo comentário que o garoto Camilo Joaquín Villarruel, o Milo J, vem precisando lidar após sua música ter atingido sucesso internacional, simbolizando uma parte do país vizinho que seus conterrâneos reacionários, de quatro para a colonização, assumidamente odeiam. Esse é o pedaço da carreira que torna seu êxito maior do que a música.

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Com apenas 20 anos, o garoto atravessou um buraco no muro latino-americano aberto pelos também argentinos CA7RIEL & Paco Amoroso e pelo porto-riquenho Bad Bunny — artistas que assumiram orgulhosamente a periferia e a ancestralidade cultural indígena/negra de seus respectivos países, para desespero de quem ainda tinha alguma esperança de ser assumido como um legítimo europeu desterrado.

Milo J foi ainda além. Meteu o dedo na ferida da extrema-direita levando à maior plataforma de exposição musical atual do planeta, o famigerado programa Tiny Desk (o mesmo que consagrou mundialmente CA7RIEL & Paco), um festival de referências folclóricas em uma apresentação sensacional de 16 minutos.

No episódio publicado no YouTube em 30 de abril de 2026, o já temido garoto resolveu desferir uma série tapas na cara do pessoal da “Argentina branca e decente”. Deseletronicou sua música levando como acompanhamento a trupe folclórica argentina Agarrate Catalina, um dos maiores expoentes da murga, gênero teatral e musical carnavalesco nascido nas classes populares, profundamente ligado à crítica social e política.

Abusou de instrumentos tradicionais, como a flauta andina e o charango. Na bancada do bagunçado escritório onde é gravado o programa, estrategicamente posicionou um livro de Martin Fierro, uma espécie de Dom Quixote argentino que é o símbolo da identidade camponesa do país, e um antigo exemplar da revista Folklore com ninguém menos do que a deusa Mercedes Sosa na capa.

Na época, Milo já era uma pedra no sapato de quem acha que lugar de indígena e negro é limpando banheiro e recolhendo lixo na rua. Iniciou sua carreira no trap, mas amadureceu precocemente e mostrou para o país em 2025, com o terceiro álbum La Vida Era Más Corta, uma virada artística impressionante, abraçando a música alternativa e o folclore argentino, como fizera Bad Bunny pouco tempo antes, tornando-se um defensor da cultura caribenha.

La Vida Era Más Corta chamou atenção por celebrar a “Argentina marrom” com versos como “Morocho color lodo, que aprendió a estar con nada y con un poco ya tiene todo…” (“Moreno cor de lama, que aprendeu a ficar sem nada e com um pouco já tem tudo…).

Ao falar sobre o trabalho, declarou em tom de manifesto: “Eu sou marrom. O disco é marrom. A cor secundária da Argentina é marrom. A América Latina é marrom”.

Já com uma enorme base de fãs consolidada graças ao disco anterior, 166 (2024), número da linha de ônibus que levava a seu bairro Morón, na periferia de Buenos Aires, a desobediência colonial passou a despertar ódio. A apresentadora de TV Andrea Rincón associou sua música à “possessão demoníaca”. Qualquer semelhança com os ataques no Brasil às religiões de matriz africana não são mera coincidência. Afinal, compreender que o Cone Sul da América Latina não passa de um rascunho do sonho europeu ainda dói em muita gente.

Depois de levar sua La Vida Era Más Corta Tour Mundial a estádios lotados pela América Latina e pela Europa, Milo J, que tem sua estreia no Brasil marcada para os dias 12 (Rock in Rio) e 13 de setembro (Audio, SP), retira a máscara dos que estão no baile. E o que vemos atrás da maquiagem, das roupas sofisticadas e da pretensa erudição nos salões de baile, é um bando de pessoas “marrons”. Precisamos prestar atenção nesse mano!

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.