CA7RIEL & Paco Amoroso - FREE SPIRITS

FREE SPIRITS

CA7RIEL & Paco Amoroso

Alt-pop | 2026

8/10

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner

Talvez a resenha do álbum novo de CA7RIEL & Paco Amoroso, FREE SPIRITS, devesse ser encomendada a um psicanalista, e não a um crítico musical. Desde o final de 2025, quando cancelaram o lançamento do seu terceiro LP e vários shows marcados alegando esgotamento físico e mental, os garotos vêm usando a piada e os trotes para tratar o tema, como a hilária participação no Grammy, vestidos de monges e declarando que tinham agora um “novo mentor espiritual”.

O termo “depressão sorridente” é usado para quadros em que a pessoa mascara sua tristeza com piadas e humor. FREE SPIRITS é uma verdadeira tese sobre o tema. Musicalmente estruturado e criativo, é mais um acertado passo na carreira da dupla. É festeiro também. Mas nas letras, tem um peso que poderia, não fosse a alegria das batidas latinas, deixar muita gente prostrada na cama.

Esquivar-se através da piada é uma característica do duo argentino. Seu novo álbum já começa usando a tática. Os primeiros versos do álbum são “ninguém faz nada de novo, tudo já foi feito”. De cara, já saem avisando que não estão ali para reinventar a roda, embora a principal razão do seu sucesso foi ter feito justamente isso na música latina. Mas até aí tudo bem. Estão falando de música e indústria, como sempre fizeram. El bicho piega quando começam a falar de si mesmos, e do momento que estão vivendo.

Após um início morno com Nada Nuevo e Goo Goo Ga Ga (com Jack Black), o disco engata na terceira música, No Me Sirve Más. Dale depressão sorridente a partir daqui. “A casa que eu queria não me serve mais, a mulher da minha vida não me serve mais, o que antes me servia não me serve mais, quero sempre mais.” Uma canção incrível, diminuída por um refrão chiclete. Na seguinte, Ay Ay Ay, sobem ao Caribe ao lado de Anderson .Paak, falando abertamente sobre o vício em prostituição. Vida Loca, por sua vez, traz um relato sobre os malefícios da fama: “E agora me sinto como Avicii. Como é ruim ser famoso. […] É o preço dessa vida. Perdi o amor da minha vida”. Lembrando que Avicii cometeu suicídio em 2018, aos 28 anos de idade.

Outro destaque é Muero, com o melhor da dupla, e da música latina por tabela. “Buscando a saída, eu me perdi. Digo que estou bem, mas á verdade é que…”. Pesado, também para uma track que será tocada em tudo quanto é baile, para um monte de gente dançando, bebendo, cantando e, talvez, buscando uma saída. São nesses detalhes que FREE SPIRITS navega entre um baita serviço prestado a juventude e uma bad trip de virar o estômago.

Guardada como segredo e parte da estratégia de marketing do duo no Grammy (o mentor era na verdade uma participação especial de Sting, ex-The Police), Hasta Jesús Tuvo un Mal Dia é um dos pontos mais fracos do álbum, posicionado-se muito mais no terreno (chato) onde mora atualmente Sting do que onde vivem CA7RIEL & Paco Amoroso [nota do editor: estou tendo uma síncope aqui, pois esta é minha faixa favorita].

Pule para Soy Increíble, em que a dupla desce mais fundo em suas letras, falando sobre a tristeza das turnês, a tal “Síndrome do Quarto de Hotel”, responsável por já ter levado tantos de nossos talentosos artistas embora. A tristeza por estar em meio a tanto puxa-saco, sem ter o carinho real de ninguém.

“Para celebrar quão perfeito eu sou, incrível. Me canso, não gosto da solidão. E se vocês se vão, vou também. Hoje, se me dizem ‘te amo e te quero’, não creio. Me tornei obscuro e tenho medo.”

Todo Ray, uma das melhores faixas, pinta um quadro em que o R&B, o soul e a música latina jamais foram separados por fronteiras. E termine a audição repetindo o mantra de CA7RIEL & Paco Amoroso em Lo Quiero Ya!, colaboração com ninguém menos que Fred again..: “Quero comprar uma casa pra você, e outra para descansar. Quero muita marijuana para deixar de pensar. Dizem que o que é bom demora, mas chegará. Mas eu quero já!”.

FREE SPIRITS é interessante em vários níveis. Se cuidem, garotos.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.