C6 Fest 2026 Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Em edição menos estrelada e mais desafiadora, C6 Fest se consolida

Music Non Stop
Por Music Non Stop

Texto por Bruna MedinaCamilo RochaJota Wagner e Lalai Persson

Edição por Flávio Lerner

Na sua quarta temporada, festival esgotou pela primeira vez todos os ingressos e mostrou que ainda há mais terreno para ousar

Os artistas gringos que vieram ao Brasil para tocar no C6 Fest 2026 se sentiram em casa. Principalmente porque, nos dias 23 e 24 de maio, chuva e frio tomaram conta do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Pela primeira vez, o “festival boutique”, com público limitado, grandes atrações e um espaço planejado para garantir tudo sem filas, marcado para acontecer sempre na abertura do outono (a estação mais agradável na América do Sul, com tempo seco e clima ameno) sofreu com o mau tempo, em um ano que esse mesmo Senhor Outono resolveu tirar férias do país, nos deixando em uma estranha situação que emendou verão com inverno.

Em tempos de mudança climática, é no tempo feio que a gente percebe a capacidade de organização de uma produtora. O C6 Fest confiou demais em São Pedro, montando um evento com pouquíssimas áreas de proteção para seu público durante aquela chuva safada de sábado: forte, com vento e tempo frio. A solução para o público foi se aglomerar nas casinhas de reidratação (as torneiras de água grátis) ou na marquise do Ibirapuera, “fora” do rolê.

Explicamos: por ter três palcos e ser realizada em um parque onde o fluxo do público não é interrompido (e isso é lindo), para ir de um show ao outro você sai por um posto de controle, anda um pouco pela área comum, aberta a todos, e entra novamente validando sua pulseira em outro espaço. Entre a Arena Heineken, aberta, arborizada e bela, na bunda do Auditório do Ibirapuera, e a Tenda MetLife, havia a enorme marquise do parque, projetada por Oscar Niemeyer. Ali, em meio aos skatistas que se divertiam, o povo se escondeu da chuvarada que ia e voltava, com intensidade imprevisível.

Pela primeira vez, a entrada e a saída da Tenda eram em locais diferentes, melhorando a circulação e a segurança do público. O palco era coberto e os artistas que tocaram ali no sábado, como Wolf Alice, Baxter Dury e Matt Berninger, deram a maior o sorte, já que mesmo quem não havia ido ao rolê para prestigiá-los aproveitou para se esconder da chuva fria. 

Público esperando pelo show de Matt Berninger. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Para garantir o trânsito seguro entre os frequentadores, a organização montou diversas passarelas de EVA, protegendo as solas dos sapatos e as barras das calças do barro que se formava. Já os boxes de restaurantes não tiveram o mesmo cuidado. Sem qualquer tipo de proteção para preservar o design padronizado, a solução era esperar a comida ficar pronta debaixo de chuva e comer rápido, para não virar sopa.

Em termos de estrutura, não há nada igual no Brasil ao C6 Fest (sim, precisamos de mais festivais com esse padrão). Bons banheiros, boas opções de alimentação, nada de filas, uma ótima integração arquitetônica entre infraestrutura e ambiente, e alta qualidade sonora — embora, em alguns shows da Arena Heineken, o volume do som pareceu baixo, talvez por exigências da própria área, envolta por natureza e em um ambiente primordialmente residencial.

O público, o maior de sua recente história, foi diverso como o line-up, e se misturou com agradável destreza, sem as bolhas tribais que percebemos em eventos maiores.

C6 Fest 2026

A nova geração vem forte. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Quem tocou no C6 Fest 2026 não quis saber se o clima não era de outono ou se o desembargador que mora no Ibirapuera iria ficar chateado por não poder assistir sua Netflix em paz. Subiram no palco para fazer grandes shows. Os headliners The xx e Robert Plant fizeram o que era esperado: shows épicos.

Os diamantes da neo-soul e do indie rock escalados para o evento também arrebentaram. E a coragem dos curadores em celebrar a música brasileira com BaianaSystem no sábado e Paralamas do Sucesso & Nação Zumbi no domingo também são dignos de nota, apesar de destoarem um pouco do que o público do festival está acostumado a ovacionar. É preciso decolonizar o que é “cool”, e isso faz parte da missão de quem faz um festival bacanudo como o C6 Fest 2026.

Vale uma nota final. Apesar de ter anunciado o line-up menos estrelado de suas três edições (que já tiveram nomes como Kraftwerk, Air, Nile Rodgers, Pavement e Wilco, por exemplo), a edição de 2026 foi a que vendeu seu ingressos mais rápido, comprovando consolidação e confiança na curadoria. Uma abertura que permite que experimentem ainda mais!

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Os shows do C6 Fest 2026

C6 Fest 2026

The xx no C6 Fest 2026. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Musicalmente, o C6 Fest 2026 justificou a confiança do público na curadoria ao entregar uma sequência de apresentações marcantes.

Na Tenda MetLife, o Wolf Alice fez uma estreia arrebatadora no Brasil. Ellie Rowsell conduziu o público entre harmonias etéreas, guitarras explosivas e momentos de puro caos controlado, especialmente em “Play the Greatest Hits”, ápice barulhento de um show intenso do começo ao fim. A banda inglesa mostrou por que se tornou um dos grandes nomes do indie contemporâneo, equilibrando doçura e veneno em uma apresentação recebida com euforia por uma tenda completamente lotada.

Também no sábado, Mano Brown e Rincon Sapiência transformaram o festival em um verdadeiro baile black ao revisitar o projeto Boogie Naipe. Cercado por dançarinos, convidados e uma atmosfera inspirada tanto nas festas de rap quanto no programa Soul Train, Brown mostrou um lado mais dançante sem abrir mão dos clássicos dos Racionais MC’s.

O BaianaSystem confirmou seu status de potência ao apresentar um show político, explosivo e visualmente hipnótico. Mesmo mais contido do que no famoso Navio Pirata de Carnaval, o grupo comandado por Russo Passapusso entregou um espetáculo vibrante, impulsionado pela participação dos tanzanianos Makaveli e Kadilida, representantes da cena singeli de Dar es Salaam. Covers inesperados, participação de BNegão e um trio de metais formado apenas por mulheres contrastaram com um público que não se jogou como é de prache nas apresentações do grupo soteropolitano.

Wolf Alice

Wolf Alice no C6 Fest 2026. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Vocalista do The National, Matt Berninger apostou em um caminho diferente: um show maduro, elegante e emocionalmente denso.

O dia foi encerrado com o retorno do The xx ao Brasil, após 13 anos. Em meio ao frio e à chuva, Jamie xx, Romy e Oliver Sim transformaram o Ibirapuera em uma pista emocional, equilibrando minimalismo, introspecção e catarse dançante. O show costurou músicas clássicas da banda, momentos das três carreiras solo e uma execução memorável de On Hold em suas duas versões (a original e o remix de Jamie), sintetizando perfeitamente a dualidade que, mais do que nunca, define o trio: o quarto escuro e a pista de dança.

No domingo, o Magdalena Bay provou que o synth-pop ainda consegue soar futurista e divertido. O duo de Los Angeles trouxe teatralidade, estética de internet e refrões grudentos para uma Arena Heineken bastante cheia logo no meio da tarde, apesar de problemas na equalização do som.

Benjamin Clementine entregou talvez o show mais solene e espiritualmente intenso do fim de semana. Dono de uma voz monumental, o britânico emocionou uma Tenda MetLife em estado de reverência, especialmente em Nemesis, executada ao lado de uma orquestra brasileira composta apenas por mulheres. Entre piano, silêncio respeitoso e refrões cantados em coro, Clementine transformou o C6 Fest em algo próximo de uma cerimônia religiosa.

Benjamin Clementine

Benjamin Clementine no C6 Fest 2026. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Já o encontro entre Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi materializou décadas de diálogo entre rock, reggae, manguebeat e música brasileira. O peso percussivo da Nação deu novas cores a clássicos como Selvagem e A Praieira, enquanto os Paralamas desfilaram um repertório repleto de hits afetivos. Mesmo diante de uma plateia parcialmente dispersa, o encerramento com Manguetown criou um dos momentos mais grandiosos do dia.

O Beirut, por outro lado, acabou ficando aquém da expectativa. O retorno da banda ao Brasil após 17 anos trouxe um set introspectivo demais para a dimensão da Arena Heineken, agravado por problemas de volume baixo. Ainda assim, momentos como Elephant Gun, Nantes e uma delicada versão em português de Leãozinho, de Caetano Veloso, se destacaram.

Quem também mandou ver no português foi Lykke Li, com cover de Sozinho, linda canção de Peninha (tanbém gravada por Caetano). Envolta por fumaça e luzes difusas, a cantora sueca hipnotizou o público com sua “sofrência nórdica”, a partir de músicas que falam de solidão e amor não correspondido. Quando I Follow Rivers surgiu já perto do fim, com Lykke enrolada em uma bandeira do Brasil, a Tenda MetLife virou um grande coral melancólico e apaixonado.

Por fim, Robert Plant encerrou o C6 Fest 2026 como uma verdadeira lenda viva do rock. Apresentando o projeto Saving Grace, o cantor apresentou uma sonoridade folk e celta distante do peso clássico do Led Zeppelin, mas ainda profundamente magnética. Com bom humor, carisma e uma banda impecável, revisitou músicas como Ramble On e Friends, até explodir em Rock and Roll no encerramento, levando o público ao delírio em uma despedida digna do tamanho histórico do artista.

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C6 Fest

Baxter Dury. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Paralamas e Nação Zumbi. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Cameron Winter. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

C6 Fest

BaianaSystem. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Robert Plant. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

C6 Fest

Mano Brown e Rincon Sapiência. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

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