The Infinite Now Berlin. Foto: Camille BlakeThe Infinite Now: o festival em que dormir era parte do programa
Edição: Flávio Lerner
Lalai Persson conta como foram as 30 horas de música experimental no Kraftwerk Berlin
Acordei e a Kali Malone estava encerrando a noite. Notas espaçadas, longas, chegavam como dentro de um sonho. Eu estava dormindo exatamente onde ela queria que eu estivesse. Foi nesse instante, deitada numa cama de camping no fundo do palco principal do Kraftwerk Berlin, que entendi o que a primeira edição do The Infinite Now estava propondo: o sono não era interrupção da escuta, era condição dela.

The Infinite Now Berlin. Foto: Camille Blake
Berlin Atonal e Unsound, dois festivais que há mais de uma década definem boa parte do vocabulário da música eletrônica experimental europeia, se juntaram para programar um evento com 30 horas ininterruptas de música. O ingresso incluía uma cama. Pulseirinha para entrar e sair quantas vezes quisesse, placa com o nome para reservar lugar, miniluminária de cabeceira. As camas estavam espalhadas pelas laterais do palco; um dos corredores foi ocupado por redes, as mais disputadas.
O prédio carrega bem a proposta do evento. O Kraftwerk tem oito mil metros quadrados de concreto sem uma única janela, uma ex-usina que abastecia a Berlim Oriental. Programar horas de sono nele é usar um galpão feito para gerar força bruta para hospedar o seu oposto.
O festival não chegou a ter ingressos esgotados como costumam ser eventos desse porte em Berlim. Programar 30 horas com cama incluída, num galpão sem janelas, é uma aposta que o público não aderiu na mesma proporção das edições normais do Atonal e do Unsound. Mas quem foi, participou de algo que não cabe no formato padrão de festival, por isso não foi intitulado como um.

The Infinite Now – Krafwerk Berlim. Foto: Lalai Persson
Cheguei por volta das 21h. Vi gente entrando com mala, colchão inflável, travesseiro próprio. O lugar já estava cheio, e foi difícil encontrar uma cama livre. Em várias, gente enrolada em edredons. Em outras, mochilas deixadas à própria sorte. Larguei a sacola com cobertores, plaquinha e luminária em uma cama virada para o palco e fui dar uma volta para entender melhor o funcionamento do evento que, ainda, seguia um pouco nebuloso para mim.
O primeiro show que vi foi da Caterina Barbieri acompanhada por Kali Malone no violoncelo e por uma banda de metais. Vestida numa blusa de manga pesada e cheia de ornamentos, Barbieri parecia uma gladiadora. O vocal lírico, que me impressionou, se dissolvia nas texturas sonoras, enquanto a luz do MFO, com o design cênico de Ruben Spini, parecia cair em lâminas por todos os lados, abrindo sulcos brancos na fumaça e transformando o palco numa imagem quase líquida. Corri para os fundos para ver metade do show de lá com uma visão mais ampla do palco.
O show da Barbieri ainda pedia o corpo de pé. Dali em diante, os BPMs só baixaram. Os smallpipes da escocesa Brìghde Chaimbeul soltaram drones atmosféricos que começaram a alimentar um corpo já pedindo descanso. Paul Jebanasam, tocando mātr, foi o convite final: drones profundos e lentos ofereciam uma viagem cósmica deitada. A curadoria não estava montando uma noite de festival, estava preparando o público para dormir. A arquitetura sonora seguia a arquitetura do corpo.

The Infinite Now às 03h. Foto: Lalai Persson
Eram quase 03h quando o vídeo de Lois Patiño e Xabier Erkizia entrou no telão. Uma luz azul baixa iluminava os corredores agora esvaziados. Me arrastei encolhida de frio até a cama. O Kraftwerk estava gelado. Ao lado, meu marido já dormia profundamente enrolado nos cobertores. À minha volta, centenas de pessoas dormindo com estranhos por todos os lados. Vozes do filme cortavam o silêncio, mas não demorei a ceder à cama dura de camping. O som da noite ainda atravessava o corpo, e isso bastava.
Acordei já pela manhã. A Kali Malone tinha tocado por quatro horas enquanto eu dormia. Ouvi algo muito longe, algumas notas, e voltei. Achei que estava dentro do sonho. A maioria das pessoas continuava deitada. Adam Wiltzie entrou quase às 09h revisitando o catálogo do Stars of the Lid com uma obra ironicamente intitulada A Tired Reworking of Stars of the Lid For the Sleep Deprived. O título já dizia tudo sobre o estado coletivo da sala.
Escovei os dentes, coloquei óculos escuros e saí daquela imensa escuridão para tomar um café da manhã. Lá fora, o sol ofuscava a visão. Fui para casa, tomei banho, comi e atravessei a cidade para mergulhar novamente no escuro.

Marta Salogni – The Infinite Now. Foto: Ola Persson
Quando cheguei, as bobinas das máquinas de fita da Marta Salogni giravam sem descanso. Fiquei parada, hipnotizada por elas, até ouvir os aplausos e entender que o show tinha acabado. Passei no bar, peguei uma cerveja e desci para o próximo show, uma performance do Marginal Consort, projeto experimental japonês criado no início dos anos 90, que faz apenas um show por ano desde 1997.
A banda se espalhava em quatro palcos, cada um posicionado num dos cantos do espaço. Demorei a entender que já tinha começado. Um deles caminhava entre as pessoas tocando uma flauta. Outro batia em pequenos objetos espalhados por uma mesa. Foram três horas com quatro senhorzinhos japoneses de cabelos brancos tirando som de lugares inimagináveis — flauta, cartolina, água, violinos construídos de outro jeito, fios, metais. Eles não tentam produzir música a partir de objetos: exploram o som no lugar mais íntimo possível.
Foi andando entre os quatro pontos do palco que vi uma menina desenhando furiosamente num caderno, sentada no chão de frente para um dos músicos. Já fora da área dos palcos, outra lia um livro deitada num colchão. Na noite anterior, eu tinha cruzado com um rapaz escrevendo num caderno.

Marginal Consort – The Infinite Now. Foto: Ola Persson

Marginal Consort – The Infinite Now. Foto: Ola Persson

Marginal Consort – The Infinite Now. Foto: Ola Persson
Muita gente não estava “no show” no sentido frontal. Estava dentro do som fazendo outra coisa: desenhando, lendo, escrevendo, deitadando de olhos fechados. Em outros cantos, em compensação, muita gente filmava e fotografava sem parar: o programa era visualmente intenso o suficiente — a luz do MFO, a escala do espaço, os corpos espalhados pelo chão — para furar a habitual discrição berlinense com a câmera.
A cama foi o que tornou isso possível: o programa como ambiente para habitar e não apenas como espetáculo. A música chegava com a mesma densidade de qualquer ponto do prédio, em pé na frente do palco ou enrolada num cobertor bem longe dele.
Joy Guidry entrou em seguida. Sentada em frente ao computador, segurando o fagote como se fosse algo vivo — suava, assoprava com os olhos fechados, quase em transe. Em algum momento, um discurso potente sobre liberdade se espalhou pelo Kraftwerk. Meio jazz, meio gospel, meio eletrônico.

Keiji Haino – The Infinite Now Berlin. Foto: Ola Persson
E então, Keiji Haino. 75 anos, cabelos brancos lisos na cintura, franja cortada reta no meio da testa, todo de preto, óculos enormes. Autodidata, ativo desde o começo dos anos 1970, mais de 80 instrumentos no repertório, é conhecido como poeta do ruído. Fez dois shows, o primeiro só de guitarra e outro de voz.
O primeiro foi um dos mais barulhentos que já presenciei, o suficiente para espantar parte da galera da frente do palco. Ensurdecedor e fascinante. Ao meu redor, muitos japoneses emocionados — um deles, jovem, abraçava a caixa de som e batia o cabelo. Tenho tinnitus, então tive que recuar e fui ouvir a partir do bar, no andar intermediário. Mas quem ficou saiu chapado de som.
Se o Marginal Consort propôs o tempo como lugar com três horas de presença e um show por ano, Haino propôs o tempo como pressão: meia hora para testar o que o corpo aguenta. Os dois polos japoneses do festival ofereciam, no mesmo dia, duas relações opostas com a escuta longa. Uma pede entrega, a outra pede resistência.

Actress – The Infinite Now Berlin. Foto: Ola Persson
Voltei para esticar na cama e esperar o Actress. Ele não facilita para ninguém: o techno sai quadrado, abstrato. Longe de ser uma experiência festiva, produz um som que desorienta e reorganiza a nossa escuta. Quando você acha que vai dar pista e começa a chacoalhar os ombros, ele quebra e vira outra coisa. Uma luz hipnótica circular parecia nos sugar para uma espiral. Saí desmontada.
Fui embora antes do encerramento das 30 horas com o Terrence Dixon. A energia já se estava se esvaindo e era preciso preservar alguma coisa para sair andando.
The Infinite Now não inventou o concerto de sono. O Max Richter já fez isso, a deep listening está na moda há algum tempo e a performance duracional tem décadas. Mas a parceria entre Atonal e Unsound, em 2026, num galpão gigantesco propondo 30 horas com cama incluída, é uma posição estética que vale entender, pois diz alguma coisa contra a economia da atenção, contra o set de 90 minutos calibrado para o vídeo, contra a ideia de que ir a um festival é resistir. Nele foi o contrário, foi se render. O sono agiu como escuta, o corpo como instrumento e o tempo longo como condição.

The Infinite Now. Foto: Frankie Casillo
Acordei com quatro horas de Kali Malone no corpo sem ter ouvido uma nota de forma consciente. Não sei se existe escuta mais completa do que essa.
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Veja mais fotos da primeira edição do The Infinite Now

The Infinite Now. Foto: Camille Blake

Marta Salogni no The Infinite Now. Foto: Ola Persson

Caterina Barbieri & Kali Malone – The Infinite Now. Foto: Karl Magee

Joy Guidry – The Infinite Now Berlin. Foto: Ola Persson


