The xx C6 Fest 2026 Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Depois de 13 anos de espera, The xx mostra que não esqueceu de nós

Lalai Persson
Por Lalai Persson

Edição: Flávio Lerner


Trio mesclou seus sucessos como grupo e hits solo de seus integrantes em noite inesquecível

Marquei a viagem para São Paulo de última hora e foi uma alegria descobrir que chegaria a tempo para o C6 Fest 2026. Sou fã do The xx há anos e a possibilidade de vê-los era irresistível, mas os ingressos tinham esgotado. Uma credencial de última hora resolveu o problema, e de repente eu estava no Parque Ibirapuera, rodeada de amigos que não via há bastante tempo, numa noite que prometia ser fria e chuvosa e virou outra coisa completamente.

A última passagem pelo país foi há 13 anos, no Popload Festival. Jamie xx, Romy e Oliver Sim seguiram carreiras solo paralelas enquanto o trio virava aquela lembrança doce que a gente guarda de banda que marcou época.

Galocha, roupa quentinha e uma capa de chuva dariam conta do recado. Ingressos esgotados, fãs passando frio para mostrar a camiseta, euforia e histórias de uma época que voltava à tona. Ao longo do fim da tarde e começo da noite, foi surgindo um público de cabelos brancos, velhos amigos, a pista como antigamente.

The xx passou os últimos sete anos sem lançar discos, sem tocar ao vivo juntos. O aquecimento aconteceu no México e depois no Coachella, e nós seríamos os próximos a vê-los, num dos palcos mais bonitos de São Paulo, às costas do Auditório Ibirapuera.

The xx

Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Apesar do frio, um frenesi percorria a plateia depois do show animado do BaianaSystem. Quando a banda entrou com os primeiros acordes de Crystalised, Romy e Oliver Sim se expandindo gigantes nas projeções dos dois lados do paredão branco do auditório, a galera explodiu cantando junto, dançando.

A Romy cresceu bastante no palco desde que abraçou a carreira solo. Estava confiante e parecia se sentir em casa depois de já ter tido uma passagem em 2024 no mesmo C6 Fest. Oliver teve alguns momentos de interação com o público, arriscou uma palavra em português malpronunciada que arrancou grito da galera, antes de voltar ao seu mundinho particular. Jamie xx preferiu as sombras, aparecendo raramente no telão e deixando a dupla de frente dominar e segurar a noite.

O setlist passeou pelos dois primeiros álbuns e abriu espaço para as carreiras solo dos três. No meio do caminho, uma surpresa: o cover de I’ll Take Care of U, faixa do álbum colaborativo de Jamie xx com Gil Scott-Heron, que naquele contexto de reencontro soou como uma declaração.

Mais adiante, On Hold ganhou as duas versões — primeiro a original, delicada e contida, depois o remix do Jamie que em 2017 tomou conta das pistas com aquele sample irresistível do Hall & Oates grudado na memória de todo mundo. Ver as duas lado a lado foi entender, de uma vez, o que o The xx sempre foi: uma banda que vive entre o quarto e a pista de dança, entre a introspecção e o corpo que quer dançar. Romy com Enjoy Your Life, Oliver com GMT, Jamie com Loud Places. Músicas que a gente conhece de cor, mas que ao vivo ganharam outra dimensão.

Em algum momento no meio da noite o tempo dobrou. A pista virou um túnel com todo mundo entregue, dançando, cantando junto, tirando o celular da frente do rosto. Um daqueles shows em que a gente não quer sair do momento. Intro, a instrumental que fecha o primeiro disco, encerrou a noite do jeito que ela merecia: sem palavras.

Eu vim para São Paulo de última hora. Consegui a credencial no último dia. Reencontrei amigos que não via faz tempo. E no meio de tudo isso, o The xx me lembrou por que certas bandas ficam. Não porque a gente não esquece delas, mas porque elas não esquecem de nós.

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