C6 Fest 2024 Charles Lloyd no C6 Fest. Foto: Tati Silvestroni/Music Non Stop

Ronaldo Lemos: “A cada ano, o C6 Fest está mais consolidado”

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Curador do festival conversa com Jota Wagner sobre escolhas, histórias e diferenciais da marca

“Ser velho é a única qualidade que me coloca aqui”, brinca modestamente Ronaldo Lemos em conversa com o Music Non Stop às vésperas do C6 Fest, em que atua na curadoria, ao lado de Hermano Vianna. Uma cadeira invejada por todos os seus colegas.

Line-up C6 Fest 2026
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Segundo o próprio Lemos e também Monique Gardenberg, criadora do evento, a programação é 100% artística, sem preocupações com pitacos dos patrocinadores e do departamento de marketing. A cara do rolê tem mais a ver com a equipe que o conduz do que com uma criação de persona propriamente dita.

Por “velho”, Ronaldo Lemos quis dizer funcionário de longa data. Participou da curadoria do lendário Tim Festival, também criado por Gardenberg e sua Dueto Produções. Quando teve a oportunidade de criar mais um festival após a pandemia, a chefa certificou-se de mandar a mesma equipe.

Agora, começando a terceira edição do C6 Fest, conversamos com ele sobre as dores e as delícias do seu trabalho, escolhas, histórias e diferenciais da marca.

Jota Wagner: Como anda a vontade dos artistas internacionais em vir ao Brasil, comparando com os tempos de Tim Festival, há 20 anos?

Ronaldo Lemos: Mudou muito. Quando fazíamos as programações do Tim lá nos anos 2000, vir ao Brasil era uma coisa meio exótica, porque não tinha um percurso de festivais como temos hoje. A todo momento tem oportunidades de ver artistas internacionais, em qualquer lugar. Nesse fim de semana mesmo, a banda The Chameleons, que eu adoro, tocou no Madame. O mercado brasileiro amadureceu muito. E isso facilita um pouco na negociação. Naquela época era muito mais trabalhoso. Você tinha que convencer o artista.

O C6 Fest é realizado no contrafluxo das agendas internacionais. Normalmente os artistas reservam a América do Sul para o último trimestre…

O que acontece é que o C6 Fest está ficando conhecido entre os artistas e agentes. Eles conhecem a história do festival. Muitos dos que trouxemos nas edições anteriores vieram ao país pela primeira vez. Então isso tem ajudado. Quando as pessoas entendem a proposta, o time que está fazendo, sua história e o cuidado que tem com a relação com o público, ajuda. O artista sabe que vai estar ali, próximo das pessoas. Mesmo com o festival acontecendo em maio, notamos que eles têm o desejo de estar conosco.

A cada ano, a marca C6 Fest está se tornando mais consolidada. Esse é um ano de consolidação do festival como um lugar de importância no calendário de eventos no Brasil.

E isso te dá menos pressão para escolher a programação? De precisar de grandes nomes?

Nada! A pressão sempre foi enorme, extraordinária. Não tem nenhum festival que fizemos que tenha sido tranquilo. Porque temos um modelo que é de experiência musical. A pessoa que vai aposta na curadoria. Mesmo que não conheça nada, vai ter uma boa experiência. Pode ir, que você vai estar exposto a uma experiência contemporânea, interessante, que tenha a ver com o que está acontecendo no mundo agora. E isso sempre foi, de certa forma, um risco.

Ronaldo Lemos

Ronaldo Lemos. Foto: Reprodução

Não temos grandes headliners, como nos festivais maiores. Temos debates calorosos na curadoria, discordando uns dos outros, e é nessa fricção que o festival se constrói.

E nesses bate-bocas, qual foi o artista que você defendeu e ganhou?

O que eu fiquei muito feliz em trazer foi Cameron Winter. Quando o convidamos, não era o Cameron Winter de agora. Era um cara que tinha ali seus vídeos na internet, cantando com um microfone esquisito e um fone de ouvido. Então olhamos aquilo e dissemos, “esse cara é fantástico!”. Foi antes do hype do Geese, dessa figura que hoje é filmada pelo Paul Thomas Anderson e toca no Carnegie Hall. Era uma aposta. Isso é uma característica do C6 Fest, apostar em coisas que estão emergindo.

Existe uma conversa com os departamentos de marketing ou patrocinadores para trazer artistas específicos para um nicho específico de público?

No nosso caso, é 100% artístico. Essa é a característica de todos os festivais que a gente já programou. Não tem essa divisão de nicho ou público. Olhamos para nomes que sejam relevantes, que gostaríamos de oferecer ao público brasileiro. Seja porque nunca tocou no Brasil, seja porque está na hora de tocar de novo. Veja como exemplo o Jon Batiste [no C6 Fest 2023]. Quem estava lá viu que foi um negócio histórico.

Mesmo caso do Benjamin Clementine, escalado agora…

Exato. Vai ser emocional, arrebatador mesmo. É isso que interessa para nós, entende? E isso é o que dá a satisfação para nós, na hora de fazer a curadoria.

Quais foram as negociações mais difíceis de 2026?

Nenhuma foi fácil. Seja Horsegirl, uma pequena banda de Chicago, mas superinteressante, seja The xx, todas são intensas. Envolve agenda, a parte artística, é um trabalho que envolve não só a curadoria. É muito intensivo. E esse negócio do amadurecimento do mercado brasileiro tornou tudo mais competitivo.

Então, não tem um artista que foi mais difícil. Mas todos tiveram uma dificuldade diferente. Citando Tolstói, “as famílias felizes são sempre iguais. As famílias infelizes são sempre infelizes à sua maneira”. Se estivéssemos em uma mesa de bar, te contaria o drama de cada um deles!

Ainda existem essas exigências malucas feitas pelos artistas?

Cara, ainda existem. Mudou um pouco porque a própria natureza do que é ser artista hoje é diferente de 30 anos atrás. São visões de mundo e produções muito diferentes. O Pavement, por exemplo, quis comer feijoada no Bolinha, de última hora. E o Stephen Malkmus [vocalista do Pavement] quis jogar tênis. Jogou, inclusive, com a minha prima a tarde inteira, lá no Pinheiros. Foi uma correria para conseguir a autorização do clube.

Isso vem no contrato antes?

Não, na hora o cara resolve. É uma informalidade, mas são pedidos no estilo O Poderoso Chefão. Vou te fazer uma proposta e você não pode recusar. Você tem que se virar para conseguir, mesmo não estando no contrato.

A produção que se vire…

Pois é. E essas coisas ainda acontecem. Mas a natureza é uma pouco distinta das exigências do passado. E aparecem de última hora. Você está lá, achando que está tudo bem, e de repente aparecem umas demandas malucas, no último minuto.

Quais os três shows que o Ronaldo Lemos não vai perder de jeito nenhum no C6 Fest 2026?

Cara, eu quero muito ver o Robert Plant. Eu acho esse disco dele, Saving Grace, maravilhoso. É um disco que eu ouço todo dia, sempre que eu posso, em momentos que eu tô sozinho. Quero muito ver o Baxter Dury, porque acho espetacular. Ele tem uma coisa meio dandy, boêmio, que eu quero muito ver. E tem o Matt Berninger. Gosto muito do seu disco solo. Uma vitória do festival. E recomendo que o público faça isso também.

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Serviço

C6 Fest 2026

Datas: 21 a 24 de maio de 2026 (quinta a domingo)
Local: Parque Ibirapuera – São Paulo/SP
Lineup completo: Veja aqui
Ingressos: Sujeitos a disponibilidade de lote via Eventim

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.