Foto: DivulgaçãoÍcone da guitarra brasileira, ex-Nação Zumbi fala sobre 2º álbum solo
Edição: Flávio Lerner
Lúcio Maia, que também trabalhou com nomes como Marisa Monte e Seu Jorge, crava: “não me acho um guitarrista muito bom”
Pergunte a qualquer pessoa que se importa com o som da guitarra sobre os melhores guitarristas brasileiros dos últimos anos. Se o nome do Lúcio Maia não surgir na conversa, pode acreditar que o seu interlocutor não gosta tanto de guitarra assim. Mesmo que o próprio músico diga nesta entrevista que ele não é tudo isso.

Fosse na banda de Marisa Monte, no Soulfly, na Almaz de Seu Jorge, na carreira solo ou, principalmente, na Nação Zumbi, Lúcio sempre foi um nome de destaque. O recifense radicado em São Paulo criou um estilo inconfundível que se faz presente nos riffs, texturas e ambiências que saem do seu instrumento.
Os projetos listados acima não são os únicos em uma carreira que já ultrapassa 30 anos. Maia faz trilhas sonoras para cinema e teatro, recém lançou o EP Céu Aberto com o Superego, participou de discos de Duda Beat, Machete Bomb e outros; gravou dois (bons) álbuns sob o nome Maquinado — Homem Binário (2007) e Mundialmente Anônimo: O Magnético Sangramento da Existência (2011) — e um disco solo que leva seu nome em 2019. Neste 2026 em que estamos, ele repete a dose, lançando mais um LP homônimo.
Lúcio Maia, o novo álbum, dá um jeito de juntar as mais disparatadas influências do artista (rap dos anos 1990, Jimi Hendrix, Sun Ra, metal) com generosas doses de psicodelia, elementos que remetem indiretamente ao blues do deserto, ao dub e à viagem cogumelística de bandas como Khruangbin e Allah-Las. Mas esses são os ingredientes. O molho, o modo de preparo e, principalmente, a maneira de combinar tudo isso para que soe como outra coisa, absolutamente pessoal, são totalmente Lúcio Maia.
Por vídeo, o guitarrista, compositor e DJ (tem essa também) trocou uma ideia com o Music Non Stop, e como não poderia deixar de ser, o papo foi além do novo trabalho.
Leonardo Vinhas: Em show no Sesc Avenida Paulista, em abril, você destacou muito a participação do Marcos Gerez (baixo) e Arquétipo Rafa (bateria) na feitura do disco…
Lúcio Maia: A gente toca junto desde 2019. Eu aproveito o input criativo deles, mas a direção musical é minha, e nem é uma coisa de ego. O lance é que a gente não consegue ter tempo para trabalhar com mais intensidade. O Marcão tem a família dele, o Rafa é um músico muito procurado, e aí fica difícil fazer uma semana com ensaio todo dia.

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O que me deixa sossegado é que a gente toca há sete anos, e de lá para cá a gente vem fazendo show. A gente pegou o palco como laboratório, e assim conseguiu fechar uma identidade, um vínculo musical. Mas não tem como fazer arranjo juntos.
Nesse disco, moldei todos os temas, o Rafa gravou as levadas de bateria em um estúdio, aí eu trouxe aqui pra casa, montei tudo e criei as canções.
Teve um norte sonoro, como no disco de 2019, em que você trouxe a sonoridade latina permeando todas as faixas?
O processo de composição foi meio um sistema misto de criação. Por mais que você tente dar uma pré-definida no que você vai fazer, você não fica 100% focado dentro do tema, até porque algumas ideias acabam não sendo tão legais. No anterior, quis dar um enfoque de música latina, então eu compus um monte de canções, fiz vários temas, mas nem todos ficaram bons. Consegui separar sete.
O processo deste foi meio parecido, só não teve esse, digamos, “foco rítmico” como foi no outro, sabe? Ele foi mais aberto para fazer balada, o que pintasse. E não tem percussão! Acho que é o primeiro disco na vida que eu fiz sem percussão (risos). Bom, tem em Brisa Breve, o Rafa gravou uma conga ali, mas só nela.
Quais foram os seus referentes em termos força de composição, de timbragem e de produção?
Eu não me baseio mais assim, cara. Fiz muito isso no passado, mas hoje em dia não precisa mais porque as fórmulas vão mudando ao longo da vida. Tive a minha época de ir na Teodoro Sampaio [rua de São Paulo com diversas lojas de instrumentos] pegar uma guitarra, levar pro estúdio para ver se era ela, fazer experimentos.
Hoje em dia não acho isso necessário, porque não tá na guitarra, sabe? Tá em você, você pode usar qualquer guitarra.
Por exemplo, esse disco eu gravei inteiro com uma única guitarra, que eu tenho já há uns 30 anos.
Comparando com o começo da sua carreira, lá na primeira metade dos 1990, e agora, qual você acha que foi o maior ganho que você teve enquanto guitarrista?
Eu tenho uma opinião sobre mim que é muito chocante para as pessoas: eu não me acho um guitarrista muito bom. Eu não acho que eu mereça estar num lugar especial.
Sei que a minha função, eu cumpri ela com louvor, mas acho que só comecei a tocar melhor guitarra ali por 2010 mais ou menos. O Almaz me estimulou muito.
Se você pegar o último disco [de estúdio] que a Nação Zumbi tinha feito, que foi o Fome de Tudo (2008), e comparar com o que veio depois [Nação Zumbi, de 2014], cara, é uma diferença muito grande! Quando eu escuto o último, gosto mais do meu lance como guitarrista. Não que eu não gostasse antes, mas eu vi uma evolução ali.
E de 2014 para a frente é que eu acho que comecei a me dedicar como guitarrista, estudar mais, aprender mais na parte teórica, procurar entender mais as cifras, entender porque os intervalos são diferentes, sabe? Com a Marisa também tive que estudar bastante.

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Mesmo assim, muita gente te vê como referência na guitarra. Mas a vida de solista que faz música instrumental é mais complicada por aqui. Bandas gringas como o Angine de Poitrine e Khruangbin conseguem, mas no Brasil não rola. Isso te frustra?
Eu já lido com isso faz tanto tempo que nem é mais uma questão. No Brasil a gente tem um mercado muito bitolado, onde parece que as coisas não podem coexistir. Tem “o som do momento” e aí todo mundo se volta só para aquilo. Pintou a Marina Sena, aí vem as spinoffs dela, porque aquilo é o que o mercado entende que deu certo. A Marina apareceu porque ela é espontânea, não é uma criação do mercado.
Não é difícil você fazer uma música para estourar. O difícil é você ficar 40, 50 anos vivendo dentro desse universo, fazendo o que você gosta, se dedicando apenas às coisas que você acredita. É muito difícil você se manter ali dentro da sua integridade, ser feliz e ao mesmo tempo ter uma vida confortável.

Lembro-me de uma entrevista que você deu sobre a sua saída da Nação Zumbi, em 2020, em que você falava que não queria continuar fazendo a mesma coisa, nem tocar coisas de 30 anos atrás…
Há muito tempo, o Falcão d’O Rappa fez um comentário sobre um disco que a Nação tinha acabado de lançar. A gente se encontrou, e ele falou: ‘porra, cara, o disco de vocês é foda, sempre dá muita ideia! Quando eu tô compondo, eu evito ouvir qualquer outra coisa, mas quando eu vi que era vocês, eu tinha certeza que aquilo ia me inspirar’.
E eu tomei aquilo quase como uma função nossa, sabe? A Nação tinha essa função de dar uma bagunçada no negócio, uma certa obrigação de trazer algum frescor. O último disco que a gente conseguiu fazer de composições próprias foi em 2014! Não que acabaram-se as ideias, o que aconteceu foi que a banda se esfacelou inteira. São muitos anos de convivência, e em uma banda, um precisa do outro, sabe? Só funciona se estiver todo mundo junto. Começa a rolar o que tem de mais clichê, que são essas rusgas que vão se agravando.
Foi aí que eu percebi que ali dentro eu não ia ter nunca mais esse frescor. É muito difícil você brincar com o desconhecido depois dos 50 anos. Mas eu quis enxergar outros universos para mim, porque eu acho que eu ainda tenho bastante coisa para oferecer. Eu tenho muita ideia ainda quando eu tô tocando sozinho dentro de casa, o que me pego fazendo é diferente de tudo que eu já fiz. Eu acho que vale a pena; ainda tenho coragem pra isso.



