Angine de Poitrine Foto: Constantin Monfilliette/Divulgação

Curtiu Angine de Poitrine? Então conheça estas 7 bandas

Leonardo Vinhas
Por Leonardo Vinhas

Edição: Flávio Lerner


Microtonalidade, math-rock e esquisitices pop: Leo Vinhas traz grupos obrigatórios — incluindo brasileiros — em tempos de Angine de Poitrine

Parece que os canadenses do Angine de Poitrine desabilitaram uma barreira que impedia muita gente de curtir sons “quebrados” e cheios de pequenas notas estranhas. O rock de nerd da banda, apoiado em música microtonal, math-rock e marketing de exotismo, ganhou a atenção de um público saturado de estímulos — uma façanha e tanto, a considerar esses tempos de hiperdisponibilidade musical.

Mas é exatamente porque temos hoje um acesso sem precedentes à música do mundo todo (e de diversas épocas) que vale dar um toque: o que essa duplinha de narigudos faz não é exatamente único ou novo. Tem bastante gente disposta a criar música estranha amparada a uma premissa (mais ou menos) roqueira, e se o duo desbloqueou essa fase para você, vale a pena ir atrás de outras coisas que estão no caminho.

Que fique claro: o Angine de Poitrine é bem bacana e tem sua própria identidade. Mas não são os únicos nesse rolê, muito menos os pioneiros. Selecionamos sete nomes que, de alguma maneira (ou várias), pegaram música microtonal, compassos quebrados e estruturas musicais que privilegiam a evolução rítmica e harmônica, e transformaram em composições boas tanto para expandir a cabeça como para deslocar os quadris.

Doidões com consciência: King Gizzard & The Lizard Wizard

No tempo em que você preparou seu café da manhã, o King Gizzard & The Lizard Wizard já compôs e gravou três faixas para algum disco deles. A velocidade desses caras para lançar discos é ainda maior que a velocidade na qual eles tocam seus instrumentos : são 27 álbuns de estúdio, 73 (!) ao vivo, mais EPs, singles e compilações — tudo parte do “Gizzverse”, um universo paralelo no qual os discos acontecem tematica e musicalmente.

O microtonalismo não é o único caminho pelo qual esse sexteto australiano passeia: os caras vão para os lados do indie, da psicodelia, da surf music e até do stoner-rock, entre outros. Mas os malucos fizeram uma trilogia microtonal: Flying Microtonal Banana (2017), K.G. (2020) e L.W. (2021). Só não os procure no Spotify porque eles não estão mais por lá: tiraram o catálogo todo da plataforma depois que ficou público que o CEO Daniel Ek investiu mais de 700 milhões de dólares em uma startup de tecnologia militar.

Glass Beams, outro filho da pandemia

Assim como o Angine de Poitrine, os Glass Beams começaram do mesmo jeito que muita gente foi aprender a fazer pão de fermentação natural: era pra ser só uma válvula de escape pra não pirar durante a pandemia, e acabou virando algo muito maior.

Quem concebeu a coisa toda foi Rajan Silva, um australiano de ascendência indiana. E como a música da Índia é fortemente amparada em microtonalidades, o match já estava feito desde o nascimento. Silva compõe, grava e mixa tudo sozinho, e ao vivo se faz acompanhar de outros dois músicos, todos com o rosto coberto por ornamentos indianos.

Os Glass Beams são menos pesados e mais psicodélicos que o Angine de Poitrine, e decididamente mais propícios para proverem trilha sonora de alteração da consciência.

Secret Chiefs 3: sete bandas em uma só

Trey Spruance é malucão desde novinho: fissurado em death metal, Frank Zappa e Parliament, ele montou o Mr. Bungle aos 16 anos, junto com os amigos Trevor Dunn e Mike Patton — é, aquele mesmo que depois foi pro Faith No More, banda da qual Spruance também fez parte.

Os Secret Chiefs 3 são o projeto do coração dele: tem muitos elementos de música persa e indiana mesclados ao rock, à eletrônica e ao metal pesado. E aqui cabe mesmo chamar de “projeto”, já que o nome representa um conjunto de sete “bandas satélite” (Electromagnetic Azoth, UR, Ishraqiyun, Traditionalists, Holy Vehm, FORMS e NT Fan), cada uma representando um aspecto da personalidade e de Trey.

Mais de 40 músicos fazem ou fizeram parte desse universo, entre eles os já citados Dunn e Patton.

Los Bitchos: dançar antes de fritar

De toda a turma listada aqui, essas moças talvez façam a música mais “acessível”, no sentido de usarem estruturas um tiquinho mais convencionais. O fato é que a banda tem um leque tão amplo que já foi colocada em escaninhos completamente diferentes, como “música latina” e “anatolian rock” (rock psicodélico com influências da música folclórica da Turquia).

Já fizeram tours tanto com o King Gizzard como com o Mac DeMarco, e tiveram um álbum produzido por Alex Kapranos, do Franz Ferdinand.

Até que dá para explicar: a banda é formada por uma uruguaia, uma sueca, uma inglesa e uma australiana (filha de mãe turca). A combinação multicultural e multinacional redundou numa música instrumental que recebe, aqui e ali, uma influenciazinha microtonal, mas no geral funciona como uma pequena usina dançante psicodélica.

Austin TV: a verdade está aí dentro

“Seu rosto não é importante. A verdade está no interior.” Esse é o lema desse quinteto mexicano, que também se vale de máscaras, apelidos e ritmos quebrados para compor sua estética pessoal. A diferença é que estão na ativa desde 2001, e ganharam maior exposição durante a pandemia — como em muitos casos, a apresentação na KEXP turbinou a banda para um público maior.

O Austin TV começou bem próximo de um punk cabeçudo, foi expandindo os horizontes musicais, e hoje está dentro dessa leva inclassificável que a gente tenta enquadrar como math-rock. Mas seguem sendo bem pesados e intensos — possivelmente, os mais ruidosos dessa lista toda.

Hurtmold, a “porta de entrada”

Sexteto brasileiro que é referência tanto para o pós-rock como para o math-rock nacional, o Hurtmold foi fundado em 1998 com uma pegada mais hardcore, mas logo se bandeou para um math-rock tomado por influências que podiam ir da MPB à música marroquina. Para muita gente na faixa dos 35–50 anos, foi a introdução a muita sonoridade de difícil acesso num mundo onde a internet ainda engatinhava.

A banda foi bem ativa durante a primeira década deste século, mas depois passou a fazer shows bem mais espaçados, com seus integrantes se dividindo em vários projetos — uma brincadeira recorrente entre os nerds musicais é que, toda vez que um jazzista mais experimental faz shows no Sesc São Paulo, pelo menos dois integrantes do Hurtmold estarão acompanhando a figura.

Tiração de onda à parte, é uma baita banda, e lançou disco ao vivo em 2026, depois de dez anos sem cometer nenhum álbum.

Arrigo Barnabé e a impossibilidade da unanimidade

Quando as discussões musicais ainda não eram polarizadas pela guerra cultural, o paranaense Arrigo Barnabé era a fonte de uma boa treta entre nerds de música: ou se amava ou se odiava o trabalho dele. O homem já tem 47 anos de carreira, mas essa cisão continua: sua MPB dodecafônica coletava um monte de referencias de vários outros gêneros e transformava tudo em trilha sonora caótica para poesia urbana.

Seu álbum de estreia, Clara Crocodilo (1980), marcou o início da Vanguarda Paulista (cena cultural que balançou a caretice da MPB no começo dos anos 80), virou ópera-rock em montagem teatral, e foi revisitada várias vezes pelo próprio autor em outros formatos. Mas o homem tem mais que isso no currículo.

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Leonardo Vinhas

Leonardo Vinhas é jornalista, escritor e produtor cultural na ativa há mais de 20 anos. Escreve para o Scream&Yell desde 2000, já produziu 19 discos para o selo S&Y, e foi corresponsável pelo Festival Conexão Latina.