Tom Findlay e Andy Cato, do Groove Armada, em 2001. Foto: Reprodução30 anos de Groove Armada: do underground londrino às novelas da Globo
Edição: Flávio Lerner
Duo formado pelos britânicos Andy Cato e Tom Findlay começou como expoente do chill-out antes de cair no gosto das massas
O ano é 1996 é você está dando um rolê com amigos em Covent Garden, um bairro onde as pessoas que estavam cansadas dos superclubes caros de Londres se deslocava, em busca de uma festinha. “Mano, tem um porão aqui com uma baladinha nova”, alguém lhe disse. Um buraco com duas pistas chamado The Gardening Club. Você olha o cartaz e repara no nome estranho: “Captain Sensual at the Helm of the Groove Armada”. Na pista um, tocava Andy Cato. Na dois, Tom Findlay. Os dois amigos também eram os organizadores e os promoters da noite, algo comum naqueles tempos românticos e amadores do underground extremo.

A área não era a mais badalada da cidade, que perdia em matéria de clubes para outras como Soho e Shoreditch. Mas tinha sua história. Foi naquelas ruazinhas que o cenário punk havia explodido na Inglaterra, em casas noturnas como o Roxy. Era ali que uma das lojas de roupas mais badaladas da cidade, a Sign Of The Times (ou SOTT, pra os íntimos), reunia figuras como Björk, Kate Moss, Alexander McQueen e Courtney Love para escolher o modelón do final de semana.
O rolê era meio vazio. Difícil disputar com a gigantesca quantidade de festas que a efervescente Londres dos anos 90 abrigava. Os dois faz-tudo da festa haviam se conhecido “um ou dois anos antes”. Andy estava chapando no sótão da casa em que morava, com os pais, quando uma amiga apareceu com Tom. O maluco era tão alto (2,03 metros de altura), que Cato pensou que estava alucinando. Se tornaram autênticos brothers.
O que você e seus amigos não sabiam, dançando naquela festa meio miada no Convent Garden, é que enquanto se dedicavam ao trabalho de produtores de festas e DJs residentes, os dois tramavam, nas horas livres, um dos mais importantes projetos musicais da história da eletrônica, o Groove Armada. Agora, 30 anos depois, você pode bater no peito e dizer: “eu estava lá, testemunhando o nascimento da dupla… e nem sabia!”.
No forno de Cato e Findlay estava sendo assado o single At the River, o primeiro e um dos mais inesquecíveis do Groove Armada, lançado em modestas 500 cópias em 1997. A faixa caiu como um travesseiro aveludado na cena chill-out Londrina logo que chegou as lojas. Merecidamente. Era linda e, para produzi-la, os dois amigos tiraram leite de pedra. Descobriram a música Old Cape Cod, na voz de Patti Page, em uma coletânea que custara meia libra. Para conseguir isolar o vocal, usaram um sampler dinossáurico que conseguia gravar apenas dez segundos. Para gravar o sax, destruíram um fone de ouvido e inverteram os fios, pois não tinham microfone.
At the River foi o aperitivo para Northern Star, álbum mergulhado no acid jazz e no breakbeat. Um som bem diferente do Groove Armada que as grandes massas conheceram, com bangers de pista de dança e grandes arenas, popularizado a partir de seu terceiro disco, Goodbye Country (Hello Nightclub) (2001). É nele que se encontra o hit My Friend, que alcançou tanta popularidade que chegou inclusive a fazer parte da trilha da novela O Clone, da Rede Globo.
Os dois amigos não queriam mais ser ouvidos na sala de casa, enquanto todo mundo derretia depois de uma festa. Queriam faixas para serem tocadas pelos DJs nos momentos mais quentes de festas como a que eles mesmos faziam lá no Convent Garden. Foram muito mais longe.
A partir da monstruosidade sonora de Hello Nightclub, o mundo absorveu definitivamente o duo em sua fase bombante. Viraram headliners de grandes festivais, seguiram lançando seus álbuns de sucesso (o último foi Edge of the Horizon, de 2020) e, entre projetos solo, trabalhos em outras áreas da música e até mesmo se mudar para o interior da França para se dedicar à agricultura orgânica — uma viagem de Cato —, a dupla segue sentada na sala do trono onde os grandes reis da eletrônica mundial batem papo.
Isso, todo mundo conhece. Mas só você estava naquela festinha de porão do Gardening Club.



