Daft Punk - Interstella 5555 Imagem: Reprodução

O que o Daft Punk sampleou [ou não] em álbum seminal da música eletrônica

Flávio Lerner
Por Flávio Lerner

Segundo LP de estúdio da dupla de robôs francesa, Discovery faz 25 anos — e a polêmica do uso de samples para as faixas da obra segue viva

Clássico, lendário e divisor de águas não só para o Daft Punk, como para a história da música eletrônica, Discovery está completando hoje, 12 de março, nada menos que duas décadas e meia de existência. O disco foi o responsável por confirmar o que o projeto já vinha prometendo desde Homework — álbum de estreia de 1997, de muito êxito —, e definitivamente catapultar o duo de sensação underground para o estrelato, com hits eternos como One More Time, Aerodynamic, Digital Love e Harder, Better, Faster, Stronger.

Mas o LP é muito mais do que seus singles; é um álbum com “A” maiúsculo, em que todas as faixas se complementam e mantêm o mesmo nível de excelência — músicas menos consagradas, como Superheroes, Crescendolls e Voyager, não devem em nada a muitos dos hits.

Além disso, foi inovador em diversas esferas, o que colaborou para o seu sucesso estrondoso. Pra promovê-lo, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo lançaram o filme Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, que é uma animação japonesa, com todos os traços e clichês típicos dos animes, com design e supervisão do lendário mangaká Leiji Matsumoto e produção da Toei Animation.

Baseada no andamento do álbum, a animação, em que cada faixa ganhou um videoclipe que traz um pedaço da narrativa — uma banda de extraterrestres que é raptada por um mestre maligno que os transforma em escravos humanos pra fazer sucesso na Terra — foi, inclusive, remasterizada e transmitida nos cinemas brasileiros no fim de 2024.

Discovery, sobretudo, foi o apogeu do french touch, movimento estético que consistia em pegar pérolas da disco music dos anos 70 e 80, destrinchá-las, desconstruí-las e recauchutá-las em uma nova roupagem houseira, cheia de groove e filtros. Boa parte das suas faixas, portanto, são baseadas em samples de canções disco, e isso fez com que a obra gerasse muita controvérsia, com todo aquele papo de que o Daft Punk estaria roubando e fazendo sucesso com o trabalho dos outros.

Com o passar do tempo, a dance music foi se tornando mais famosa e melhor compreendida, e a sampleagem passou a ser reconhecida como uma maneira criativa e genuína de se fazer arte. A controvérsia que ainda pega é que, oficialmente, no encarte do álbum de 2001, os robôs só creditaram o uso de quatro samples [em Digital Love, Harder, Better…, Crescendolls e Superheroes]. Thomas Bangalter chegou a declarar que os outros samples apontados por diversas fontes na internet [inclusive pelo aclamado Who Sampled] não são verdadeiros, e que boa parte deles, na verdade, teria sido regravada do zero pela dupla.

Mesmo assim, alguns dos samples hipotéticos apresentam semelhanças inegáveis, e se os artistas originais não foram creditados nem tiveram solicitação de autorização, é bem provável que eles entrariam na justiça por plágio, o que não parece ter ocorrido. Como o Daft Punk sempre foi cheio de mistérios e raramente dava entrevistas, isso tudo acabou se transformando em mais um daqueles casos cheios de boatos, enigmas e teorias, que acabam reforçando a construção mitológica do projeto.

25 anos depois do lançamento do disco, o debate sobre os samples continua vivo. O uso de recortes de More Spell On You, de Eddie Johns, para One More Time, por exemplo, só foi reconhecido posteriormente. Com isso, os direitos autorais passaram a ser devidamente pagos aos detentores da obra original. Em 2021, o Los Angeles Times revelou que Johns havia passado décadas sem ver retorno financeiro significativo de um dos maiores sucessos da história da música eletrônica.

Já em 2023, o produtor Todd Edwards revelou parte do material original usado nas sessões do álbum, confirmando que algumas faixas — especialmente Face to Face — foram montadas a partir de dezenas de microsamples manipulados digitalmente, enquanto outros trechos atribuídos pelos fãs na internet provavelmente são recriações feitas por Thomas e Guy-Man.

Oficiais ou não, segue abaixo a lista de referências usadas na construção das faixas de Discovery, entre as confirmadas e os hipotéticas. É interessante observar que o Daft Punk as trabalhou de maneiras diferentes, em alguns casos usando as bases originais com alterações discretas [I’ll Love You More/Digital Love; Cola Bottle Baby/Harder, Better…], ao aproveitamento de pequenos trechos colocados em loop infinito [Can You Imagine/Crescendolls; Who’s Been Sleeping In My Bed/Superheroes], e até a desconstrução e remontagem total dos samples em composições completamente novas, como no caso de More Spell On You/One More Time.

Eddie Johns – More Spell On You [1979] [sampleada em One More Time]

Sister Sledge – Il Macquillage Lady [1982] [supostamente sampleada em Aerodynamic]

George Duke – I Love You More [1979] [sampleada em Digital Love]

Edwin Birdsong – Cola Bottle Baby [1979] [sampleada em Harder, Better, Faster, Stronger]

Little Anthony and the Imperials – Can You Imagine [1977] [sampleada em Crescendolls]

10cc – I’m Not in Love [1975] [supostamente sampleada em Nightvision]

Barry Manilow – Who’s Been Sleeping in My Bed [1979] [sampleada em Superheroes]

Tavares – Break Down for Love [1980] [supostamente sampleada em High Life]

Oliver Cheatham – Get Down Saturday Night [1983] [supostamente sampleada em Voyager]

Cerrone – Supernature [1977] [supostamente sampleada em Veridis Quo]

Loggins & Messina – House at Pooh Corner [1972] [supostamente sampleada em Face to Face]

Electric Light Orchestra – Evil Woman [1975] [também supostamente sampleada em Face to Face]

Rose Royce – First Come, First Serve [1978] [supostamente sampleada em Too Long]

Maze feat. Frankie Beverly – Running Away [1981] [também supostamente sampleada em Too Long]

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Flávio Lerner

Editor-chefe do Music Non Stop.