AC/DC em São Paulo Brian Johnson e Angus Young em show do AC/DC no MorumBIS. Foto: @mrossifoto/Music Non Stop

São Paulo revê a força elementar do AC/DC: Brian, Angus e um estádio em combustão

Bruna Monteiro de Barros
Por Bruna Monteiro de Barros

Banda australiana tocou para MorumBIS lotado em seu primeiro show da turnê Power Up. SP ainda vê a banda em 28/02 e 04/03

Em 1996, eu tinha 22 anos e estava iniciando a “faculdade” do rock’n’roll. Na minha cabeça, o AC/DC estava na prateleira do heavy metal, porque havia chegado para mim na mesma leva de Iron Maiden, Metallica, Ozzy e outros clássicos do gênero. E foi com essa certeza juvenil que entrei no Pacaembu para ver o show da turnê Ballbreaker, aquele em que uma bola de demolição destruía a parede do palco antes de a banda começar a tocar. Icônico.

Mas bastaram algumas músicas para tudo virar de cabeça pra baixo. A presença de Brian Johnson e sua boina, Angus Young brincando com a guitarra como se fosse um menino, a magia da guitarra de Malcolm Young com o baixo de Cliff Williams e a bateria de Phil Rudd foram me hipnotizando. Em algum momento, me descolei dos meus amigos e avancei sozinha pela pista em direção ao palco. E ali, no meio daquela massa vibrando, tive uma epifania que me fez abrir um sorrisão: “AC/DC não é metal. AC/DC é rock’n’roll!”.

30 anos depois, na terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, essa revelação me voltou com força ao assistir em São Paulo ao primeiro show da banda no Brasil em 17 anos. Passei duas horas e 15 minutos repetindo mentalmente “isso é muito rock’n’roll”.

O MorumBIS estava lotado para o primeiro dos três shows da Power Up Tour na cidade. A formação atual traz Brian Johnson de volta aos vocais, agora com tecnologia auditiva especial que permite que ele cante em estádios sem risco à audição — depois de ter sido afastado em 2016 por conta do perigo de perda auditiva permanente. Angus Young segue no comando absoluto da guitarra solo. Stevie Young, seu sobrinho, assumiu a guitarra base em 2014, quando Malcolm foi afastado diagnosticado com demência. O guitarrista e fundador da banda veio a morrer em 2017. Chris Chaney está no baixo (Cliff Williams está aposentado das turnês) e Matt Laug na bateria (Phil Rudd está em prisão domiciliar desde 2015).

AC/DC em São Paulo

Angus Young faz seu biquinho clássico em São Paulo Foto: @mrossifoto/Music Non Stop

Na segunda música, Back in Black, plateia em êxtase, uma menina ao meu lado — empolgadíssima, jovem, talvez nem 30 anos — vira pra mim com os olhos arregalados e diz: “Isso é história!”, e solta um “yeah!” que parecia atravessar décadas, como se respondesse àquela Bruna de 22 anos que ainda vive em algum canto meu.

O repertório misturou clássicos absolutos — Highway to Hell, Thunderstruck, You Shook Me All Night Long, T.N.T. — com faixas do álbum Power Up (2020), como Shot in the Dark e Demon Fire. E, na maior parte do tempo, manteve o público vidrado, dançando e celebrando.

O estádio inteiro estava pintado de luzes vermelhas pelos chifrinhos luminosos da turnê, vendidos a R$ 20 na porta. A banda trouxe a estrutura que rodou Europa e EUA: nove telões de LED gigantes, uma passarela longa, o sino colossal de Hells Bells (que não badalou dessa vez) e, claro, os canhões que explodem no final com For Those About to Rock.

AC/DC em SP

Brian Johnson felizão no palco do MorumBIS. Foto: @mrossifoto/Music Non Stop

E Brian Johnson, aos 78 anos, continua sendo um espetáculo à parte: a boina, o sorriso, a alegria quase infantil de quem sabe que está vivendo um privilégio raro — cantar para um estádio inteiro depois de quase ter perdido a própria voz para sempre. Nada mais rock’n’roll.

Angus Young, aos 70, segue sendo o maior menino travesso do rock. O biquinho, os passos de pato, os solos intermináveis, a provocação calculada que faz 70 mil pessoas urrarem ao mesmo tempo. E aquele momento clássico em que ele se deita solando na passarela elevada sob uma chuva de papel picado? Ou quando coloca a mão em concha no ouvido, arrancando um rugido coletivo que parece sacudir o concreto? Nada mais rock’n roll.

E atrás de mim, um sujeito gritava ao fim de cada música: “Brianzinho, eu te amo!”. Incansável. Devoto. Quase parte do setlist. Nada mais rock’n roll.

A Power Up Tour celebra cinco décadas de carreira e reafirma o AC/DC como uma das bandas mais influentes do rock de arena. Os telões, a passarela, o sino, os canhões, o estádio vermelho — tudo funciona, tudo impressiona, mesmo que a era das telas tenha “comido” um pouco da grandeza dos efeitos tridimensionais.

Mas, no fim das contas, nada disso era realmente necessário. Porque basta Brian Johnson e Angus Young juntos no palco. Só isso já é rock’n’roll o suficiente para incendiar o mundo inteiro.

Todo o resto — os chifrinhos, os gritos, a catarse — é apenas o eco daquela epifania de 1996, repetida em milhares de pessoas ao mesmo tempo.  

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E eu ali no meio, vibrando com a multidão, como se a velha revelação tivesse acabado de me atravessar de novo.

AC/DC – Power UP Tour

Dias: 28 de fevereiro e 04 de março
Local: MorumBIS — São Paulo/SP
Ingressos: Via Ticketmaster

Bruna Monteiro de Barros

Bruna Monteiro de Barros é jornalista e escreve sobre música desde meados dos anos 1990. Passou por Folha, JT, UOL, Rraurl e Revista Beatz. Foi hippie, punk, gótica, raver, clubber... No começo do milênio, fez um bico como DJ, dividindo com Claudia Assef a cabine da Ambiance, no lendário clube Susi in Transe.