A Daime-Tribe, uma das primeiras raves do estado de SP. Foto: ReproduçãoMúsica eletrônica é patrimônio cultural de São Paulo: e agora?
Aprovada no último dia 13, Lei Estadual nº 18.400 reconhece a cultura eletrônica como bem de natureza imaterial do estado
“O GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO faz saber que a Assembleia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei: Fica reconhecida a música eletrônica como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural do Estado.”

Pois é, é oficial. As batidas eletrônicas e, principalmente, toda a cultura e o ecossistema profissional envolvido na produção de seus eventos, são patrimônio do estado de São Paulo.
A Lei Estadual nº 18.400 foi aprovada dia 13 de fevereiro, de autoria do deputado Caio França (PSB) com um belo apoio do festivaleiro Defo, um cara que transformou uma fezenda em Lagoinha, no Vale do Paraíba, em um espaço formatado para grandes eventos de música eletrônica — a exemplo do que aconteceu com o antigo pesqueiro Maeda, hoje casa do festival Tomorrowland Brasil, em Itu. Os dois espaços são exemplos da força da chamada “cultura eletrônica” no estado. O projeto tramitou na câmara desde o ano passado, e agora se transformou efetivamente em lei.
Com a aprovação, vem o reconhecimento de que essa cultura é oficialmente considerada um bem imaterial do estado. Importante lembrar que ela chegou ao Brasil na década de 90 de forma meio amadora, clandestina até, e bastante marginalizada, pelas mãos de visionários que experimentaram festas de techno, house e trance na Europa, e a trouxeram ao país junto com sua música e os códigos de comportamento e estéticos. DJs e produtores como Camilo Rocha, Dimitri, Rica Amaral e Feio, que deram a cara a tapa para divulgar aquele novo som em sítios ao redor da cidade de São Paulo, devem estar se perguntando: “rapaaaz, o que foi que a gente fez?”.

Quem esteve em festas e pistas de dança na primeira década de sua existência em São Paulo bem se lembra de como era o “diálogo” com o poder público. Para uma autoridade de qualquer nível hierárquico, ou você era usuário ou traficante de drogas. Hoje, a imensa massa de produtores, técnicos, artistas e demais trabalhadores já podem lidar com uma dose de oficialização de seus meios de vida.
O devido aval a esse movimento só veio após seus eventos descarregarem milhões em impostos nos cofres do governo, mas antes tarde do que nunca. A lei promete reconhecimento da cultura eletrônica como economia criativa, políticas públicas de fomento e proteção contra discriminação ou repressão injustificada. Na prática, é melhor esperar alguns anos para fazer um balanço de quais efeitos serão sentidos após a aprovação da 18.400 no mercado de entretenimento voltado à música eletrônica.



