Vintage Culture no Parque do Carmo. Foto: Leon Rodrigues/PrefSPMúsica eletrônica para o povo: a importância de ocupar a cidade
Estefani Medeiros conta como foi o rolê com Vintage Culture, ANNA e Mochakk no Parque do Povo, na Zona Leste de São Paulo
Neste domingo, 25 de janeiro, São Paulo completou 472 anos ao som de Vintage Culture, ANNA e Mochakk nos parques do Povo e do Carmo. A cidade recebeu mais de 200 atrações culturais, mas foram esses shows que acabaram ganhando protagonismo na programação pela capacidade de público. Nos últimos dez anos, a música eletrônica já marcou presença nos aniversários de SP e na Virada Cultural, mas não tinha ocupado o centro da programação oficial com esse nível de visibilidade.

Foram duas versões do evento com line-up semelhante: uma com controle de acesso por plataforma de ingressos, em área nobre da Zona Sul, e outra aberta ao público na Zona Leste. A escolha por ocupar um parque público amplo e acessível é um gesto cultural relevante. Ocupação urbana e cultura caminham juntas. Pensadores como Henri Lefebvre falam do direito à cidade como o direito de viver e produzir o espaço urbano de forma ativa, não só como consumidor, mas como parte da vida coletiva. Ver a música eletrônica nesse lugar popular e longe do hype do centro é reconhecer que ela também é uma linguagem legítima de convivência, expressão e encontro fora da bolha.
Quando comecei a pesquisar sobre o evento nas redes sociais, deu uma animada, mas rolou incômodo. Muitos comentários negativos sobre o palco da ZL. Gente dizendo para não levar celular, para evitar levar criança, além de observações que nem cabem ser reproduzidas aqui. Quando se fala em segurança pública em São Paulo, a linha entre cuidado e preconceito é muito tênue. Resolvi arriscar o Parque do Carmo. Não o conhecia ainda, tirei minha filha do Roblox e levei comigo.
Frequento parques com frequência, mas ainda não conhecia uma área verde tão ampla dentro da capital. Cheguei no meio do set do Vintage e encontrei a pista fervendo, mesmo com um domingo cinza e garoado. A prefeitura ainda não divulgou números oficiais, mas foram milhares e milhares de pessoas.

Foto: Leon Rodrigues/PrefSP
Fora da comunidade, a cultura clubber ainda é vista como algo de elite, distante da vida comum. Dá para entender como essa imagem se construiu. Mas, o que vi da experiência de ontem foi gente se divertindo e dançando. Famílias, casais, pessoas de várias idades. Os crias de corrente pendurada, adolescentes usando look de festival, muitos latinos também. A Zona Leste concentra comunidades bolivianas e peruanas que estavam ali, misturadas à pista.
Quem queria burburinho encontrou. Quem quis curtir mais afastado também conseguiu. E quem normalmente não banca a boleta de festivais e clubes, teve acesso. Falando de transporte, mesmo saindo no mesmo horário que a torcida do Santos deixava a Neo Química Arena, cheguei em casa com meu celular, minha filha cheia de perguntas curiosas e a sensação de que o domingo foi realmente promissor para a cidade. Um dia que tirou as pessoas de casa e ofereceu uma experiência cultural na periferia mostrou que não existe idade, gênero ou bairro que determine onde a música eletrônica possa estar.
Uma das belezas de morar em uma megalópole é que há espaço para todo mundo. Para quem quer hype/exclusividade, para quem curte club, para quem gosta de festa de rua, para quem é fã de megafestivais, para quem prefere raves. Mas, quando se trata de shows abertos, a ocupação do espaço público precisa ser inclusiva. Precisa ser pensada para todo mundo.

A ZL já vive a coletividade do seu próprio jeito há muito tempo, das manhãs de domingo com pagode e garagem aberta às festas de praça. A distância do centro, somada à maior concentração populacional da cidade, fez com que bairros e moradores buscassem suas próprias formas de viver cultura. Vocês já devem ter lido sobre as noites na Toco, Overnight e Sound Factory, ou ouvido falar de artistas como DJ Marky e Patife em livros como Todo DJ Já Sambou ou Bate-Estaca. E essa história não passa só pelos clubes.
A região também tem ligação direta com a cultura das raves, especialmente com o psytrance, que encontrou nas bordas da metrópole terrenos, sítios e espaços possíveis para existir quando esse tipo de festa ainda era vista com desconfiança. Muita gente que hoje frequenta festivais e pistas eletrônicas começou atravessando São Paulo de madrugada rumo a esses encontros. Existe aí uma memória afetiva de ocupação, coletividade e experimentação sonora fora dos eixos mais valorizados que foram os alicerces do que temos hoje na capital. Levar um evento desse porte para o Parque do Carmo não é um gesto isolado, é um capítulo recente de uma história que já vinha sendo escrita há décadas.
Com o reconhecimento crescente da música eletrônica como patrimônio cultural imaterial, ganha ainda mais importância a responsabilidade de democratizar o acesso e mostrar ao público geral do que essa arte é feita. Diversidade, tecnologia, pista como espaço de encontro, circulação de artistas, formação de público. Quando o gênero ocupa o espaço público de forma democrática, ele fortalece a própria cidade e impulsiona também os artistas nacionais, que passam a ser vistos não como nicho, mas como parte viva da cultura brasileira contemporânea.



