Daniela Mercury Daniela Mercury em trio elétrico no Carnaval. Foto: Reprodução

Por que Calvin Harris deveria ter agradecido a Daniela Mercury

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Uma breve história de como os DJs conquistaram seu espaço no Carnaval brasileiro

Calvin Harris se esqueceu, durante sua apresentação em cima do trio elétrico para uma Rua da Consolação lotada (até demais) em São Paulo, de fazer um agradecimento. Ele só estava ali, discotecando para uma multidão, graças a Daniela Mercury. Afinal, foi a cantora baiana quem teve a ideia de convidar, pela primeira vez, um DJ de música eletrônica para ser a estrela do carnaval de Salvador, há 26 anos.

Mau Mau foi o escolhido e fez a multidão de foliões na capital baiana se sentir, pelo menos um pouquinho, na lendária Love Parade alemã, o Carnaval techno deles, também animado por trios elétricos. Mercury adotou a cultura da música eletrônica ainda quando era um nicho clubber no Brasil. A partir dali, Marky, Patife e Anderson Noise, entre outros DJs, começaram a pipocar no Carnaval baiano. A corajosa diva da música brasileira ganhou o título de madrinha, usando seu poder de influência para ajudar a levar a música eletrônica brasileira para as massas.

Se apresentar em um trio elétrico é bem excitante para um disc-jóquei. As condições técnicas são adversas, o bagulho balança com o movimento e tudo isso, paradoxalmente, só melhora a experiência. Principalmente ao ver, de lá de cima, um mar de pessoas vitaminadas pela conhecida alegria do público brasileiro. Claro que, rapidamente, os DJs internacionais começaram a babar na possibilidade de poder ser apresentar para os foliões.

Em 2006, graças ao apoio da marcas de cerveja Skol (responsável também pelos primeiros grandes festivais de música eletrônica brasileiros, o Skol Beats, entre 2000 e 2008), um mesmo caminhão juntou a nata da discotecagem mundial em uma só tarde: Fatboy Slim, Patife e Marky. O carnarave aconteceu, como não poderia deixar de ser, na visionária Salvador, cujas portas foram abertas por Daniela Mercury. E a curadoria não deixou a desejar. Norman Cook (o Fatboy) é o mais carnavalesco dos DJs internacionais, com suas camisas floridas, a música animada e vibração buena onda.

O caminho para a entrada dos DJs na festividade estava pavimentado, mas demorou até termos um trio elétrico exclusivamente dedicado à música eletrônica, se desconsideramos as ações da Skol, claro. O Unidos do BPM, criado pelo DJ Bruno Matos, começou “parado”, com um paredão de som no centro de São Paulo. Em 2019, o bloco subiu no trio elétrico, e hoje é um dos maiores da cidade. No sábado, 14, às 14h, na Rua Augusta, Matos e sua trupe celebrarão dez anos de carnaval paulistano.

A multidão que dançou ao som de Calvin Harris também não saiba que Daniela Mercury é digna de cantar “o techno dessa cidade é meu. A house dessa cidade sou eu”. Mas a gente está aqui para tapar esse buraco histórico. Em 1993, sete anos antes de chamar o DJ Mau Mau para subir em seu trio, a cantora já havia lançado um disco de remixes no mercado internacional, com reinterpretações eletrônicas de seu hit O Canto da Cidade.

Em 1998, fez o mesmo com Rapunzel, seguindo no plano de mostrar o axé para os gringos com uma nova roupagem. Em 2004, pintou com o álbum Carnaval Eletrônico, metendo drum’n’bass, house e breakbeat na moqueca. Se alguém levantou a bandeira dos DJs no Carnaval e abriu o caminho para o que vemos hoje em dia, foi a moleca baiana!

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.