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Rita Lee e Roberto de Carvalho ganham série de remixes de supertime de DJs. Ouça as faixas e leia entrevista com João Lee, filho e produtor do projeto

Série com três álbuns reúne um dream team de remixers para revisitar a obra de Rita Lee e Roberto de Carvalho. O projeto, com promoção internacional, é uma homenagem do filho João Lee aos pais.

No mundo da música, grandes discos são como calmarias. Surgem no horizonte lindos, ensolarados, cristalinos, depois de uma tempestade perfeita que em rodopiante confluência elétrica pariu tornados criativos trocando tudo de lugar naquele teco de oceano.

Rita Lee e Roberto de Carvalho, a parceria musical (além do casamento) que mais deu certo no pop brasileiro, admiram, neste momento, sentados em seu barquinho, a aconchegante brisa de um belo lançamento que revisita sua rica obra em uma homenagem capitaneada por um dos três filhos do casal, o DJ e produtor musical João Lee, 41 anos.

A tempestade perfeita uniu forças descomunais em uma mesma baía: o foco de um filho que sabia o que queria, uma grande gravadora disposta a abraçar a aventura, uma juventude baladeira de olho nos grooves da década de oitenta (incluindo a filha do maior maestro da época, Lincoln Olivetti) e uma turma de DJs e  produtores de música eletrônica que, além de talentosos e consolidados no mundo da música de pista, são fãs declarados de Rita e Roberto. Precisa mais?

Precisa, não!

Abrindo o Baú de Rita Lee e Roberto de Carvalho

“Estou tentando fazer este projeto desde 2013, para pegar o gancho de 50 anos de carreira dela (Rita Lee). Há uns dois anos, eu tive uma conversa com os diretores da gravadora Universal, fiz uma apresentação para eles do que eu imaginava e eles ficaram super-entusiasmados”, conta João Lee.

Capa do disco Rita Lee & Roberto – Classix Remix Vol. 1, primeiro volume de três discos 

A partir daquele momento, começou o garimpo no acervo da gravadora em busca das fitas master, arquivadas há décadas. “Foram quase 300 fitas antigas, de estúdio. Começamos o processo de digitalização, que demorou bastante tempo. Para digitalizar cada fita de 40 anos atrás leva uns quatro dias. Você precisa abrir a fita inteira, limpar, cozinhá-la em um forno especial para evaporar os agentes corrosivos, remontá-la e, só então, tocá-la e conhecer o que havia gravado ali. Há casos em que haviam três ou quatro versões da música. Só depois de todo esse processo sabíamos qual estava na fita”, conta João.

“Em agosto do ano passado consegui receber tudo isso digitalizado. Então mergulhei de cabeça na parte de curadoria, de separar quais músicas eram importantes e seus estilos”, detalha João, que já vinha conversando com alguns produtores para entender quais músicas tocavam o coração de quem. O ponto facilitador é que todo mundo tem uma música predileta de Rita Lee. “Quando conheci Marky, quase 20 anos atrás, ele me disse: ‘meu sonho é fazer um remix de Caso Sério‘. Quando recebi a digitalização da música liguei pra ele e disse que finalmente iríamos fazer acontecer”. A música, do álbum Rita Lee, de 1980, é a predileta de mãe de Marky. Um círculo virtuoso da gratidão às origens.

Cada um com seus Rita & Roberto prediletos

A declaração de amor do rei brasileiro do drum’n’bass é apenas uma das diversas ouvidas por João durante as reuniões com os produtores convidados. “Para mim, esse projeto tem uma importância afetiva muito grande, porque é uma homenagem que estou fazendo para os meus pais. Por isso, também escolhi artistas que influenciaram muito minha vida. O Renato Cohen, durante nossas reuniões, mostrou o vinil de Atlântida e contou que amava essa música, que adorava as guitarras. Gui Boratto me avisou que amava Mutante, por causa de seus teclados, então essa ficou para ele”, exemplificou.

Além de João e seus pais e de Marky com o afago à sua mãe, outra personagem envolvida no projeto tem na genética um ingrediente importante para a homenagem. A DJ e produtora Mary Olivetti é filha de Lincoln Olivetti, produtor (desses icônicos mesmo, que colocam sua impressão digital em tudo o que assinam, à la Phil Spector) de muitos dos hits que estão sendo remixados.

foto: acervo pessoal

Mary, além de amiga pessoal da família toda, ouvia quando criança as gravações no estúdio do pai, que dividia parede com seu quarto. “Minha mãe, por questões do feminino que é muito importante para ela, achava que a Mary teria de fazer Cor de Rosa Choque, por causa da delicadeza e da sensibilidade dela”, diz João.

O remix de Mary é uma reverência total ao estilo de produção do pai. Assim como imaginamos que o pai faria, Mary convidou músicos para fazer novas linhas de bateria, baixo, guitarra e teclados, algo não muito comum no processo de remix tradicional de música eletrônica. “Quando ouvimos o trabalho pronto, foi uma emoção tão gigantesca… o remix dela é um dos favoritos da minha mãe. Ele é delicado, é suave, educado, chic, tudo ao mesmo tempo… ela puxou alguns elementos que fizeram minha mãe comentar ‘por que é que eu não tive essa ideia'”, deslumbra-se João. “Ela conseguiu canalizar o espírito do pai dela e trazer para dentro da música”.

Rita & Roberto para todas as pistas

Valendo-se de seu background de DJ, João teve o cuidado de montar um repertório que atendesse a todos os tipos de pista. “Quero remixes que toquem desde a pista underground e alternativa, até coisas latinas ou mais funk”, descreve. Várias músicas terão mais de um remix (um total de 36 remixes divididos em 3 discos) e Marky, por exemplo, assinou duas reintrepretações: uma drum’n’bass para que possa integrar seus sets, e outra mais latina, com uma levada cool. “Para a música Lança Perfume, por exemplo, teremos uma versão mais pop, uma disco e uma mais eletrônica”, adianta João.

Apesar de terem acompanhado boa parte do processo, Rita e Roberto deixaram a estrada livre para João, tanto na escolha do repertório, quanto dos artistas convidados. “Mantive algum suspense em relação ao resultado final, mas validava cada processo com eles”. Rita sempre foi especialmente resistente com remixes ou outra interferência em sua obra. “Ficaram com o coração na mão, mas deixaram rolar porque afinal confiaram no filho. Um dia, Marky tocou seu remix durante uma live que eu assistia com eles e foi incrível”, conta. Rita ouviu o trabalho, pediu o celular de João e mandou um áudio no whatsapp de Marky na mesma hora. O resultado foi um retorno do DJ para João aos prantos.

Rita & Roberto, fãs de eletrônica

A convivência dos artistas de grandes gravadoras com remixers não é algo novo. Já na década de 80 as gravadoras encomendavam diretamente de DJs como Gregão, Julio Mazzei, Iraí Campos, Cuca, Sylvio Müller, entre outros, edições mais voltadas para as pistas de dança ou para as rádios. O próprio uso de elementos eletrônicos nas músicas originais era algo comum ao casal em suas composições.

“Meus pais sempre tiveram uma ligação grande com música eletrônica. Me lembro desde pequeno de vê-los incorporando sintetizadores e baterias eletrônicas. Caso Sério tem uma bateria eletrônica. Lembro que na época eles tomaram pancada. Era uma novidade e as pessoas não entenderam. Mas eles eram experimentadores. O barato deles era inovar sempre”, conta o filho orgulhoso.

Em almoços de família, João se lembra de Roberto comentar com eles sobre novas descobertas em suas audições musicais… Ricardo Villalobos, Daft Punk e Nina Kravitz por exemplo. “Para eles, o estilo musical não é o mais importante. Importante é a música em si”, resume.

O escancarado horizonte musical aberto pela tempestade de talento e coragem pode ser conhecido a partir de sexta-feira, 9 de abril, dia em que o primeiro dos três discos chega às plataformas digitais.  Na primeira saraivada, remixes de Marky, Renato Cohen, Mary Olivetti, Gui Boratto, DubDogz, Tropkillaz, Kristal Klear, Chemical Surf, Harry Homero e Inner Soto (novo projeto do DJ e produtor  Whebba) trarão de volta à superfície os clássicos de Rita e Roberto, azeitados para a pista de dança.

João Lee – foto – divulgação

ATUALIZAÇÃO DA MATÉRIA – 7/4

“Acho que a gente vai fazer história com esse projeto”, disse João Lee na coletiva de impresa online realizada no fim de tarde desta quarta (7), reunindo mais de 100 pessoas num link de Zoom. Espero com esse projeto que as pessoas levantem e dancem, no carro, no chuveiro. Que traga alegria pras pessoas nessa pandemia”, disse, abrindo o evento.

Estavam presentes alguns dos DJs e produtores que trabalharam no disco 1: Gui Boratto, Dubdogz, Marky, Mary Olivetti e Whebba. Durante o evento, o jornalista Guilherme Samora, biógrafo da Rita Lee, conduziou o bate-papo e foi mostrando em primeira mão as faixas do disco 1, começando com uma versão de house de Mania de Você, feita pela dupla Dubdogz.

“Estamos num momento em que produtores de música eletrônica brasileiros estão na ponta, estão na frente. É impressionante o que fizeram com as músicas dos meus pais”, elogiou João Lee. “A gente quis manter bastante a vibe da música original, mas também trazer esse nosso lado pra música. Acho que quando voltarem as festas tenho certeza que vai explodir nas pistas”, disseram os meninos do Dubdogz.

“Pra mim foi vibrante fazer parte desse projeto, porque eu tenho essa relação afetiva com a família Lee. Sua mãe brincava comigo, fez parte da minha vida”, disse Mary Olivetti, depois que seu remix foi exibido. “Rosa Choque, originalmente, é uma música lenta. E eu já comecei a pensar nas minhas referências onde eu queria que ela tocasse. Eu consegui encaixá-la numa festa mais intimista. Quero falar dos músicos que fizeram parte dessa música, tive no baixo Alberto Constantino, Paulinho Guitarra e Rodrigo Tavares nos teclados e eles fizeram toda a diferença”, disse a produtora.

Gui Boratto fez uma versão bem com sua marca registrada de Mutante: etérea e com batida bem marcada. “Eu tive 3 golpes de sorte. Como o João está há anos nesse processo de realizar esse projeto grandioso, lá atrás ele comentou que ia fazer e eu já disse que queria Mutante. Ele levou pessoalmente o pen-drive da música e eu comecei a fazer com ele do meu lado. O processo foi muito orgânico. Como eu sou bem nerd de synths, tenho uma tendência de escutar o que a música pede na produção. Os elementos originais todos maravilhosos, eu mesmo gravei baixo e guitarras extras. E até o João me ajudou com algumas bateras também. Ficou essa coisa super orgânica. Acabei mexendo um pouco na harmonia pra dar aquela pitada de melâncolia esperançosa, mas é difícil mexer em alguma coisa de Rita & Roberto, porque ao mesmo tempo você quer colocar a sua assinatura, mas você quer respeitar essas música eternas, amadas por gerações”, contou o produtor Gui Boratto, um dos maiores nomes da eletrônica nacional.

Rita Lee & Roberto – Classix Remix Vol. 1 será lançado nesta sexta, 9 de abril, dê uma checada nesta matéria para conferir o link para escutar o trabalho feito pelos Marky, Mary Olivetti, Gui Boratto, Renato Cohen, entre outros. Os discos Rita Lee & Roberto – Classix Remix Vol. 2 e Rita Lee & Roberto -Classix Remix Vol. 3 serão lançandos, respectivamente, em maio e junho.

ATUALIZAÇÃO 9/4

OUÇA AS FAIXAS DE RITA LEE & ROBERTO – CLASSIX REMIX VOL. 1

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