O boogie brasileiro voltou com tudo, te contamos a história desse gênero dos anos 70 e 80

Por Danilo Cabral

Por definição, o boogie é um gênero musical que compreende um curto período de tempo, entre o final dos anos 70 e começo dos 80, e é marcado pelo vasto uso de apetrechos eletrônicos junto com instrumentos orgânicos, em um contexto dançante e transbordando groove. Uma onda musical que é filha direta da disco music, com os mesmos elementos (linha de baixo na cara, o famoso beat “four on the floor”, vocais maravilhosos e arranjo de cordas) somados aos novíssimos sintetizadores, que eram o último grito da tecnologia musical na época e moda em todos os estúdios de gravação.

Os dois gêneros são tão parecidos que é muito comum confundi-los. Mas o boogie tem suas nuances mais “eletrônicas” e é mais relaxado, tem mais suíngue. Um pouco menos dancefloor, um pouco mais a sala lá de casa. Para se situar, algumas referências como a música Spread Your Love,  do Earth Wind & Fire,  e o clássico More Bounce to the Ounce, de Zapp & Roger. Essa história continua e desemboca na house music, quando os synths tomam conta de vez e um novo e enorme guarda-chuva musical se abre.

Zapp & Roger – More Bounce To The Ounce

Mas vamos falar do boogie da nossa terra. O Brasil tem essa capacidade incrível de tropicalizar tudo quanto é tipo de gênero ou moda musical, com resultados notáveis na maioria das vezes. A gente mistura tudo, tem outras referências e transforma qualquer coisa em som feito para nosso próprio consumo e que, eventualmente, se espalha pelo mundo. Não foi diferente com a disco e com o boogie.

A disco music foi arrebatadora no Brasil, ao ponto de ter uma novela dedicada ao estilo, Dancin Days, que foi ao ar pela Globo em 1978. Todo mundo sabe que nos anos 70 isso era a maior expressão que alguma coisa estava bombando, né? Tínhamos centenas de artistas aproveitando o timing, e os discos e compactos de “discoteca” inundavam o mercado. Quando o calor do momento foi esvaindo, entram em cena Robson Jorge e Lincoln Olivetti, duas lendas dos estúdios brasileiros, trazendo na mala uma porrada de teclados e sintetizadores, dando uma sobrevida à disco music brasileira. Os dois injetaram o som de seus novos brinquedos nas produções que faziam e criaram uma sonoridade própria, uma verdadeira assinatura musical – que posteriormente foi acusada de pasteurização. Mas, enfim, podemos dizer que o boogie brasileiro nasceu aí.

Essa nossa cria voltou à moda com tudo recentemente. Pra variar, começou com os DJs, que redescobriram essa mina de ouro e colocaram para jogo e para a pista esses discos pelos quais ninguém dava nada. De alguns anos pra cá, o boogie tropical tem entrado com força nos sets, e a procura por vinis dessa fase começou a ficar disputada. Mano Brown botou mais fogo ainda, com um disco solo literalmente influenciado pelo boogie.

Nada melhor então do que ouvir cinco exemplos desse papo todo, escolhidos com o propósito de fazer um recorte desse momento musical brasileiro. Essa é só a superfície, tem muita coisa ainda a ser redescoberta no nosso imenso e rico catálogo.

Sandra Sá – Olhos Coloridos (1982)

O segundo disco da Sandra de Sá (antes de ter o “de” no nome) é o começo do namoro entre ela e a dupla Robson Jorge e Lincoln Olivetti, parceria que duraria anos. Apesar deste hit não ter sido produzido pelos dois, já indicava o caminho que Sandra trilharia no futuro com o auxílio luxuoso dos dois.

Lincoln Olivetti e Robson Jorge – Eva (1982)

Depois de terem produzido muita gente, os dois entraram numa pira de gravar um disco inteiro assinado por eles. Chamaram os melhores músicos de estúdio possíveis, tiraram da gaveta algumas composições próprias e o resultado é maravilhoso. Este disco era disputado no braço quando aparecia nos sebos e foi reeditado ano passado pela Polysom.

Marcos Valle – Estrelar (1983)

O que dizer quando Marcos Valle junta gente como Serginho Trombone (Dom Salvador & Abolição), Oberdan Magalhães (Banda Black Rio) e mais Olivetti e Jorge? Boogie até o caroço, esta faixa põe todo mundo para dançar nas pistinhas.

Tony Bizarro – Estou Livre (1983)

Tony Bizarro veio da escola do funk e soul, gravou alguns discos solo e depois partiu para a carreira de produtor, trabalhando com gente como Cassiano e Odair José. Esta música também é produzida pela dupla Olivetti-Jorge e só saiu em compacto, hoje bem difícil de achar e caro.

Almir Ricardi – Festa Funk (1984)

A carreira do Almir Ricardi se resume a três discos e um punhado de compactos. Seu disco Festa Funk (de onde saiu a faixa homônima) é delicioso do início ao fim e tem a assinatura inconfundível de Robson e Lincoln.

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