Daft Punk

A influência e a genialidade de Daft Punk contada através de 10 fatos curiosos que você não conhecia

Jota Wagner
Por Jota Wagner

A dupla francesa Daft Punk anunciou ao mundo seu final através de um misterioso vídeo publicado nas redes sociais. Em homenagem do Music Non Stop aos “robôs” que sacudiram e influenciaram o mundo da música pop, listamos 10 fatos que provam o quanto são geniais (e que provavelmente você não sabia)

O dia amanhecia em São Paulo, mas dentro do Hell´s Club a atmosfera era escura e enfumaçada, propícia para quem queria esticar a existência além das 5 da manhã, hora em que o after hours mais famoso do país começava a funcionar na metade dos anos 90.

Pelas mãos do DJ Mau Mau, residente da “noite”, uma faixa entrava em ação através dos toca-discos: uma batida seca, pesada e mal-humorada, como uma martelada na moleira. Não existem hihats para marcar o ritmo. Nem congas, nem baixo. Poum Poum Poum Poum Poum.  Aos poucos um som de videogame Atari que tomou um banho de café funcionava como um  backbeat. A coisa vai crescendo até que um som rasgado, sujo, como um grito animal alienígena, vai chegando, vai entrando, e vai tomando conta de tudo. Começa meio grave e depois vai se abrindo para um agudo epopeico, de arrancar a tampa da cabeça.

A chegada de Homework

São Paulo ouvia pela primeira vez Rollin’ & Scratching, do Daft Punk, parte do celebrado álbum de estréia da dupla, Homework.

O disco, impecável, era assunto no mundo inteiro e ovacionado pelas revistas especializadas. Apesar de bem pouco fácil de digerir, principalmente para quem ainda estava conectado ao sistema baixo, guitarra voz e bateria, surpreendeu ganhando o mundo pop de assalto, ajudados por excelentes videoclipes, que já em um álbum de estréia foram entregues a nomes como Spike Jonze e Michel Gondri.

O cuidado com os videoclipes era apenas parte de um longo cuidado conceitual que ajudou a cristalizar a mítica do Daft Punk.  O duo criou personas para representar seres futuristas alienígenas tocadores de música (dá-lhe Bowie), transformou suas apresentações em espetáculos visuais eletrônicos e fugia de entrevistas e programas de TV (dá-lhe Kraftwerk) enquanto dominava o mundo. Na primeira década deste século, Guy-Manuel e Thomas mandavam e  a gente obedecia.

Inquietos e perfeccionistas, a dupla montou uma produtora áudio visual em 2005, a Daft Arts, para produzir e lançar o longa Electroma. Dois anos antes, dirigiram uma animação supervisionados pelo grande ídolo Leiji Matsumoto.

A invasão definitiva

Seu segundo álbum, Discovery (2003) teceu novas diretrizes no que dizia respeito à produção musical, compressão dos áudios, processamento dos vocais. Todo mundo correu atrás do novo padrão Daft Punk. Hits grudentos de enorme sucesso transformaram suas turnês em disputadas catarses sensoriais.

Sempre souberam ser assunto. Gerar curiosidade em torno do que estariam fazendo. A concepção do último álbum, Random Access Memory, incluiu convidar astros unânimes para integrar o projeto, o que foi promovido com maestria através de pílulas em vídeo que entregavam um pouco do que viria a ser uma obra prima da dupla.  Antes disso, o duo havia lançado Human After All, o terceiro álbum em 2006, e assinaram a trilha sonora da refilmagem de Tron em 2010.

Selecionamos 10 fatos curiosos sobre o Daft Punk que nos vem como os ingredientes da receita do sucesso deste fenômeno parisiense que virou de ponta cabeça o mundo da música pop.

 

A banda Darlin durou pouco, mas fez muito

Os dois amigos que formariam o Daft Punk em um futuro próximo, Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, se uniram ao colega de escola Laurent Brancowits para montar a banda de indie punk Darlin, em 1992.  O nome foi inspirado em uma música dos Beach Boys e o grupo teve uma vida de apenas seis meses. Lançaram um EP pela gravadora Duophonic, controlada pelos integrantes da banda Stereolab, fizeram alguns shows e acabaram após críticas negativas da imprensa europeia. “Com a Darlin não fazíamos nada acima da média”, disse mais tarde Bangalter em entrevista.  Com o fim do grupo, Guy-Manuel e Thomas formaram o Daft Punk. Já Laurent formou a Phoenix, que você já conhece pelo hit If I Feel Better.

O nome Daft Punk veio de uma crítica.

Os três amigos levaram vários meses para escolher o nome Darlin à sua banda punk. Já a graça do projeto posterior veio fácil, fácil.  Dave Jennings, da revista Melody Maker, resenhou as duas músicas lançadas pelo Darlin como “a daft punk thrash”. O termo não usado de uma forma muito elogiosa não, mas os integrantes da banda adoraram.  Estava batizado o duo que tomaria o mundo a partir de 1997.

O primeiro single do Daft Punk surgiu de um contato feito na Disney

Em 1993 Guy e Thomas foram a uma rave produzida na EuroDisney.  Lá encontraram Stuart Macmillan, parte de outro duo de sucesso na época, o Slam, e fundador da Soma Quality Recordings, de Glasgow.  A partir deste encontro, Stuart se interessou em lançar o primeiro single do Daft Punk, chamado A New Wave (com um mix adicional chamado “Alive“, que acabou integrando o primeiro disco da dupla. O vinil saiu pelo subselo UMM – Underground Music Movement.

Capacetes metálicos custam caro

O visual do Daft Punk que está gravado em nossa mente, com a dupla usando reluzentes capacetes futuristas como motoboys intergalácticos entregadores de boa música, veio depois da explosão mundial gerado pelo seu álbum de estréia Homework, de 1997.   Até então as apresentações eram feitas sem capacetes (muitas no formato tradicional de discotecagem, com discos de vinil) e, quando pintou a ideia de esconder suas identidades, as máscaras usadas não eram lá muito… digamos… sofisticadas, como podemos comprovar nesta capa da revista Mixmag com eles em 1997. Cada capacete da última turnê custou ao Daft Punk 65 mil dólares.

 

Daft Punk

Daft Punk em capa da revista Mixmag, em 1997

A lição de casa que balançou o mundo

Quando saiu em 1997, o álbum Homework, primeiro do Daft Punk, foi um estouro. Trazia 16 faixas de indiscutível qualidade dentro do universo underground, com batidas surdas como um soco e efeitos sujos e nada fáceis de assimilar, mas que tomaram de assalto também a esfera do pop das massas, como o caso das músicas Around The World e Da Funk. A façanha de transmutar água e óleo em uma mesma sardela rítmica que une o clubber super antenado pesquisador de novidades ao universitário pegador e futuro dono de start up acontece raras vezes, são encontros atrais, e viram de ponta cabeça a indústria da música. Homework foi eleito por diversas publicações como um dos melhores álbuns de estreia de todos os tempos. Tanto que, poucos meses apóso lançamentos dos singles que davam a letra do que seria Homework, o Daft Punk já estava sendo escalado para ser headliner do festival Tribal Gathering, ao lado de nomes como Orbital e Kraftwerk.

A guinada definitiva ao Pop

Apesar do enorme sucesso do disco de estréia, o segundo álbum do Daft Punk levou 4 anos para sair. Sua produção tomou 2 anos, confirmando o já conhecido perfeccionismo da dupla. Quando chegou às lojas, assustou fãs que o Daft Punk havia conquistado com primeiro e premiado álbum.  Discovery vinha com a embalagem das grandes massas, super processamento das vozes e compressão. Já integrada ao movimento chamado Maximal,  que tinha como outra protagonista a dupla Justice, também francesa. Se a ideia era conquistar o mundo, a missão foi cumprida. Hits como One More Time tomaram conta das rádios mais populares do planeta.

O Daft Punk lançou um desenho animado de ficção científica

Não é segredo que o Daft Punk foi um dos grupos mais criativos da história ao inventar formas de promover as personas que construiram para si. Em 2003, eles produziram um longa de animação todo musicado pela dupla, supervisionados por Leiji Matsumoto, ídolo do Anime para ambos desde garotos.  O filme Interestella 5555, The 5tory of the 5secret 5tar 5ystem foi lançado junto com o álbum Daft Club, a trilha sonora da animação que une músicos e alienígenas.

Get Lucky foi a cerimônia final de um namoro que durou 16 anos

O estrondoso hit da música Get Lucky , presente no último disco do Daft Punk, Random Access Memory, já causava frisson antes mesmo de ser lançada. Teasers com apenas um loop da música repetido por horas foram lançados no Youtube, gerando milhões de visualizações. O ponto alto era a guitarra de ninguém menos do que Nile Rodgers, fundador e guitarrista do Chic, um dos ícones da Disco Music. Nile já havia trabalhado com nomes como Madonna, Michael Jackson, Mick Jagger, David Bowie, Diana Ross e Duran Duran. O curioso é que o romance entre Niles e o Daft Punk começou 16 anos antes, quando o guitarrista contou aos dois o quanto havia gostado da música Da Funk, presente no álbum de estréia. Desde então tentaram trabalhar juntos algumas vezes sem sucesso. Get Lucky traz de volta a característica que elevou o Daft Punk ao Olimpo com Homework: a de fazer música pop sem perder a alta qualidade das composições e produções. O disco conta ainda com o vocal de Pharrell Williams. No vídeo abaixo,o duo se une a uma super banda e a Stevie Wonder para uma performance no Grammy.

Daft Punk tem seu próprio estilista

Como parte do cuidado visual e conceitual que a dupla sempre teve, é obvio que os figurinos iam ter uma atenção bastante especial. O duo trabalha há mais de 15 anos com o mesmo profissional, o designer Hedi Slimane, que participou por muitos anos dos núcleos de criação de Christian Dior, Yves Saint Laurent e atualmente comanda a Celine. Slimane foi listado recentemente como um dos 50 franceses mais influentes mundialmente.

Daft Punk

Hedi Slimane – foto: divulgação

O epílogo

Como era de se esperar, o fim de uma das duplas mais bem sucedidas e influentes da música não poderia ser tão dentro dos padrões. Apesar de não lançar um disco desde 2013, o que fez com que diversos fãs ao saber da notícia do final do Daft Punk se surpreender por estarem ainda em atividade, o anúncio veio através de um curta de quase 8 minutos, onde as personagens de auto destroem em um deserto. Musicalmente a última mensagem dos robôs aos humanos:

if love is the answer, you´re home.

 

 

 

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