Björk no palco do Primavera Sound SP Björk – foto: Sidney Lopes

Primavera Sound SP: do trap ao erudito, festival cumpriu o papel de curadoria inteligente, apesar de alguns tropeços na organização

Claudia Assef
Por Claudia Assef

Festival catalão realizou sua primeira edição brasileira no final de semana. Ousou, e acertou, no line-up

Foram centenas de apresentações, das quais deu pra ver apenas uma uma fração. Mesmo assim, dá para dizer que a franquia catalã de festivais Primavera Sound fez bonito em sua primeira edição paulistana, especialmente se analisarmos a diversidade e ousadia da escalação para um festival de grande porte.

Texto: Claudia Assef e Camilo Rocha

Foto: Sidney Lopes

Graças a uma curadoria caprichada, havia múltiplas escolhas para o público: de Björk orquestral à salsa irônica do Señor Coconut, do pop confessional de Lorde ao trap de alto impacto de Travis Scott.

Palco Primavera, o mais amplo do festival, pode onde passaram Lorde e Björk. Crédito Sidinei Lopes

Mas nem só de glória viveu o Primavera Sound no Distrito Anhembi, que hoje dá nome ao complexo que reúne antigos conhecidos do público de São Paulo, incluindo o Sambódromo, o Centro de Convenções, o Palácio das Convenções (onde nos anos 1980 tocaram ídolos góticos como Siouxsie & The Banshees, PIL, Echo and The Bunnymen), entre outros espaços do espaço de feiras e lazer construído às margens do rio Tietê em 1970.

Segundo a organização do Primavera Sound, essa foi a primeira vez que um festival de música usou a totalidade dos quase 400 mil metros quadrados do Distrito Anhembi, ocupação que teve pontos positivos, como amplos espaços de alguns palcos, especialmente o Primavera Sound, por onde passaram nomes como Björk e Lorde, além dos vários pontos de alimentação e bebidas (foram criadas praças próximas a todas os palcos, o que diminuiu filas). As grandes dimensões, porém, fizeram com que a missão de migrar de um palco para outro com a frequência que um festival demanda fosse um fator complicador.

No sábado (5), primeiro dia do festival, uma das atrações mais aguardadas, a banda Arctic Monkeys, deixou um gostinho amargo nos fãs, e não foi pela tagline da patrocinadora do festival, a cerveja Beck’s, que também dava nome ao palco, mas sim pela frustração que muitos levaram para casa pelo fato de não conseguirem ver o show. Talvez uma das maiores falhas do evento, o palco foi montado numa área repleta de árvores, que criavam uma enorme barreira para quem queria acompanhar a apresentação, fazendo com que os mais animados as escalassem para tentar ver um fio de cabelo do vocalista (e encantador de serpentes) Alex Turner. Tarefa inglória como enxugar gelo, seguranças tentavam impedir os fãs de subirem nos camarotes improvisados, porém a cada casal que conseguiam tirar das copas, mais quatro se instalavam nas alturas.

O deusão Alex Turner fez com sua banda um show impecável, apesar das “árveres”. Foto: Sidinei Lopes.

Outra reclamação dos frequentadores foram as longas filas para trocar o ingresso digital pela pulseira cashless para acessar o festival. Verdade que essa troca podia ter sido feita previamente em pontos como o Estádio do Morumbi, mas quem deixou pro dia do festival se deu muito mal e amargou até duas horas na fila.

Sobre a configuração dos palcos, fica a pergunta: por que botar os artistas mais bombados numa localização onde dois terços do público não tinha campo de visão, como aconteceu com Arctic Monkeys e Travis Scott? E, no caso de uma artista como Björk, que fez um show intimista, lindo e poético, porém, acompanhada de uma orquestra, a Bachiana Filarmônica, de São Paulo, a experiência para quem queria ouvir o show se transformou numa missão ingrata diante dos decibéis das conversas e risadas do público, muito mais altos do que o som que vinha do palco. Acabou frustrando fãs que não conseguiram ficar no gargarejo – imagina esse show no Auditório?

Björk entregou hits de toda a carreira e usou o figurino mais incrível do festival. Foto: Sidinei Lopes.

Um dos pontos altos do sábado do Primavera Sound foi o show eletrizante da iraniana Sevdaliza, no palco Elo, entre os palcos ao ar livre o mais confortável, com opção para assitir ao show sentado em arquibancada – numa configuração que quem frequentou o saudoso Skol Beats deve lembrar. Velha conhecida de fãs de música eletrônica, a cantora mostrou sua potente voz de Beyoncé oriental enquanto dançava e mostrava hits como Human, cujo refrão ela cantou em português (Sou humana, nada além de humana), enlouquecendo o público. Emocionante ver uma artista iraniana completamente livre, vivendo de sua arte, mostrando seu corpo e rebolando, poucos meses depois da morte de Mahsa Amini, jovem que foi espancada pela polícia em Teerã por deixar mechas do cabelo à mostra. Sevdaliza se mudou com a família do Irã aos cinco anos de idade para a Holanda e deixou a realidade medieval de seu país para trás.

 

Também no palco Elo, só que no domingo, a venezuelana Alejandra Ghersi Rodríguez, mais conhecida como Arca, cantora, compositora, produtora e DJ, fez um show fortíssimo, passeando por músicas de seus nove álbuns de estúdio, sempre apoioadas por visuais modernos e perturbadores.

Outra artista que arrastou um grande público para o palco Primavera Sound no sábado foi a cantora e compositora nipo-americana Mitski, que reuniu sem dúvida o público mais jovem do festival. O que se viu na plateia ao longo do show de uma hora contendo praticamente uma coleção de hits famosos no Tik Tok, como Nobody, foram muitas crianças cantando e pulando a cada início de suas músicas. “Ela fez o show mais legal, amamos as músicas dela”, disseram quase juntas Luna, 12, e Maia, 10, que estavam estreando num grande festival.

A nipo-americana Mitski, a encandora de crianças e fãs do Tik Tok. Foto: Sidinei Lopes.

Como um bom festival espanhol, terra de um povo festeiro e fã de música eletrônica, a tenda dedicada à música eletrônica estava bem montada e com um line-up de respeito. No sábado, passaram por lá as brasileiras Badsista, que brilhou colocando nos visuais de seu show imagens de patriotas do caminhão, Cashu e Isabella, a chilena Valesuchi, Sangre Nueva (DJ Phyton, DJ Florentino e Kelman Duran), Seth Troxler e o uruguaio Nicolas Lutz tocando com o catalão John Talabot.

Como todo festival que atraca no Brasil, a área VIP acaba sendo o lugar onde todo mundo queria estar. No Primavera não foi diferente. Por lá passaram influenciadores, artistas e empulseirados em geral a fim de comida e bebida de graça.

DOMINGO DE SALSA E TRAP

O domingo começou com line-up bem solar, com Jovem Dionísio, o”pai” do Pedrinho, e a elegante Raveena abrindo os palcos principais. Mas foi a dobradinha do quarteto de Tóquio formado pelas meninas da Chai, fazendo seu punk rock kawaii (fofinho, em japonês) e depois a banda Japanese Breakfast, com a potente frontwoman Michelle Zauner, americana de origem coreana, tomando conta do palco e dando o tom chique e poético, entregando um show de rock elegante, com instrumentos como um violino, gongo e sax, arrastando o povo para o Becks.

Jessie Ware transformou o palco numa potente boate ao mesclar ritmos de baile e vocais incríveis. Foto: Sidinei Lopes

Depois do Japanese Breakfast, o palco Becks virou um pistão pelas mãos da diva Jessie Ware. Sua habilidade em juntar ritmos de baile e vocais de longo alcance instalou uma discoteca pulsante entre as  árvores.

Antes de seguir para ver Lorde, esta equipe foi matar a saudade de um amigo de longa data do Brasil, a banda Señor Coconut, do alemão Uwe Schmidt, com suas releituras calientes de Kraftwerk, Sade, Daft Punk e Madonna. Banda perfeita, vestida de traje passeio como fosse tocar num cassino em Las Vegas, com pegada divertida, mas que poderia ser mais valorizada com uma iluminação e cenografia melhores. A atmosfera vintage do Palácio das Convenções (rebatizado de Auditório Barcelona para o festival) podia ter sido melhor aproveitada.

O passo seguinte foi ver Lorde no Palco Primavera, situado em um descampado amplo, que ficou totalmente compactado de gente. Lorde faz terapia no palco, bateu longos papos com a plateia, agradeceu pela oportunidade de poder mostrar sua intimidade por meio da música e gerar identificação. Sorriu muito e se emocionou. Hits como Royals e Green Light foram cantados por dezenas de milhares de vozes.

Lorde, entre hits e conversas com o público. Foto: Sidinei Lopes.

Do outro lado do evento, e era uma pernada ir de um palco a outro, entrava em cena Travis Scott, um dos nomes mais esperados do festival. Posicionado em uma plataforma de alguns andares de altura, o rapper inflamou a massa desde o início em um show com estrutura impressionante. Foi o momento mais imponente, mostrando que artilharia audiovisual conta muito para criar uma atmosfera apoteótica. Travis não economizou em canhões de laser, pirotecnia, projeções, drones e ainda chamou um fã para cantar com ele no palco Goosebumps, um de seus maiores hits.

Travis Scott, o rei do auto-tune e do palco mais elaborado do festival. Foto: Sidinei Lopes.

No geral, um festival que foi muito bem em termos de estrutura: a qualidade de som dos palcos era excelente, a oferta de comida e bebida era farta e era fácil se locomover de um lado a outro, ainda que os palcos fossem distantes um do outro. A sinalização poderia ter sido um pouco melhor, especialmente na indicação da localização dos palcos e das opções de saída. A hora de voltar para casa não foi fácil, com o frequentador lançado ao faroeste de transporte inflacionado e precário que caracteriza tantos grandes eventos no país.

Claudia Assef

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Autora do único livro escrito no Brasil sobre a história do DJ e da cena eletrônica nacional, a jornalista e DJ Claudia Assef tomou contato com a música de pista ainda criança, por influência dos pais, um casal festeiro que não perdia noitadas nas discotecas que fervilhavam na São Paulo dos anos 70.

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