Foto: Diego Padilha/DivulgaçãoChappell Roan celebra o feminismo com bailão metaleiro e queer no Lollapalooza Brasil 2026
A headliner do sábado (21) no Lollapalooza Brasil 2026 fez um belo show fundindo referências de heavy metal e pop, e agradou em cheio
Foi no Lollapalooza Chicago em 2024 que a norte-americana Chappell Roan explodiu, com um show que entrou para a história como um dos mais lotados do festival. Naquele momento, a cantora, que até então era uma artista em ascensão com um culto de seguidores fiéis, viu sua carreira atingir um patamar estratosférico.

Esse feito foi lembrado por ela ao pisar no Palco Budweiser para encerrar a noite de sábado (21) no Lollapalooza Brasil em São Paulo. “Esse festival mudou a minha vida”, disse, emocionada, e emendou: “vi o show da Lady Gaga em Copacabana e fiquei fascinada com os leques. Vocês podem fazer pra mim também?”. A resposta foi uma “lequeada” com abanadores cor-de-rosa e rainbow — um verdadeiro ataque de leques que tomou conta da plateia como um gesto de acolhimento e celebração.
Chappell anunciou que aquele era o 33º show de sua turnê mundial, The Midwest Princess Tour, batizada em homenagem ao seu álbum de estreia, The Rise and Fall of a Midwest Princess, lançado em 2023.
“Que especial esse encerramento no Brasil. Vocês pediram tanto pra eu vir e agora estou aqui.” A fala ecoava a trajetória da artista: natural de Willard, Missouri, uma cidade pequena no meio-oeste americano, Chappell Roan — nome artístico de Kayleigh Rose Amstutz — construiu sua carreira com persistência. Antes do sucesso estrondoso, foi dispensada de sua gravadora durante a pandemia e precisou recomeçar do zero, trabalhando em uma loja de donuts enquanto escrevia as canções que mais tarde a levariam ao estrelato. Essa resiliência e a conexão genuína com seu público explicam a devoção que os fãs brasileiros demonstraram ao longo de toda a apresentação.

Foto: Diego Padilha/Divulgação
Tudo relacionado à sua arte tem uma mensagem clara: fortalecer o feminino. Esse foco no empoderamento começa com sua fenomenal banda, formada por duas guitarristas, uma baixista, uma tecladista e uma baterista. Todas muito habilidosas, elas são parte essencial de uma declaração de presença feminina em espaços historicamente dominados por homens. O palco estilizado como um castelo medieval emulava capas de disco de heavy metal dos anos 80, um universo do qual o feminino simplesmente não fazia parte, exceto por algumas exceções à regra como as guitar heroes Lita Ford, Nancy Wilson e, claro, Joan Jett. Ao subverter essa estética, transforma o que era exclusão em território de potência.
Do alto de suas referências basais, que incluem no topo da lista Cyndi Lauper e Kate Bush, Chappell Roan mostrou em uma hora e meia de show como o pop pode ser construído sobre bases que vêm diretamente de uma música mais complexa e menos convencional. A influência de Lauper, em especial, aparece não apenas na estética vibrante e na ousadia cênica, mas também na forma como ela incorpora a luta por direitos LGBTQIA+ em sua arte de maneira explícita e sem concessões.
Com uma banda poderosa, transformou o Lolla numa arena queer e metaleira ao mesmo tempo, como no momento em que tocou uma versão de Barracuda, um clássico do hard-rock dos anos 1970 da banda Heart, uma das primeiras a ter duas mulheres no front, as irmãs Ann e Nancy Wilson, respectivamente vocalista e guitarrista do grupo que se tornou símbolo do som pesado e com mensagem. Barracuda é um hino do rock que critica a indústria fonográfica e está sempre no setlist de Roan, mostrando que é uma sólida pedra fundamental em seu repertório.
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Passada pelo filtro pop da cantora, a referência pesada e crua se tornou mais fácil e universal. Somada a essa estética rocker, ela trouxe sua paixão pela cultura drag e adicionou elementos de sua diva-mor, Cyndi Lauper. O resultado é a persona que se viu no palco: um pouco drag, um pouco metaleira, um pouco piriguete. Essa mistura resultou num símbolo que foi abraçado com força tanto pela comunidade queer quanto por meninas adolescentes, que estavam em peso na plateia cantando cada letra.
Vale lembrar que Kayleigh se assumiu lésbica publicamente em 2022, e desde então tem usado sua plataforma para defender a comunidade LGBTQIA+ com ações concretas, como a criação do Midwest Princess Fund, iniciativa que arrecada fundos para organizações que apoiam jovens queer em situação de vulnerabilidade.
Claro que não faltaram também os hits que ajudaram a construir a sua meteórica carreira. A superfeminista Femininomenon foi das primeiras a emocionarem o público, com sua letra poderosa que fez as meninas presentes cantarem abraçadas em grupinhos. Teve Naked in Manhattan, Red Wine Supernova, a romântica Casual, The Subway — ainda não lançada em estúdio, mas que já virou hino entre os fãs mais dedicados — e a explosão de Hot to Go!, com o Lolla inteiro fazendo a coreografia. Cada canção era recebida como um hino de reconhecimento, como se a plateia se visse refletida em cada verso sobre aceitação e orgulho, seja no âmbito queer ou feminista.

O momento de maior catarse ficou reservado para o encerramento. Quando as primeiras notas de Pink Pony Club ecoaram pelo Autódromo de Interlagos, a plateia veio abaixo. A canção, que narra a história de uma garota do Meio-Oeste americano que se descobre ao frequentar um clube noturno na Costa Oeste, carrega um significado especial na trajetória de Chappell Roan: foi a música que a fez ser dispensada de sua gravadora, que não acreditava no potencial comercial de uma canção tão assumidamente queer.
Hoje, é seu hino máximo, um símbolo de resistência e autoaceitação. Em São Paulo, com os leques cor-de-rosa se erguendo em uníssono, milhares de vozes cantaram junto cada palavra, transformando o espaço em um grande coro de libertação. Neste sábado, sob o céu de São Paulo, o Pink Pony Club existiu de verdade, com portas abertas para todos que precisavam de um lugar para chamar de seu.



