Foto: ReproduçãoQuando o futebol encontrou o black metal: a lenda de Darío Dubois
Fanático por heavy metal extremo, o jogador profissional argentino entrou em campo maquiado por 14 jogos em 1999
Esta história só poderia ter acontecido na Argentina, onde nossos vizinhos cultivam uma paixão incomparável por futebol e rock’n’roll. É de Quilmes, a 23 quilômetros de Buenos Aires, a banda Vox Dei, cultuada desde que lançou um álbum conceitual chamado La Biblia, em 1971, cinco anos após começar a subir nos palcos da província. Entre seus milhões de fãs havia um carinha chamado Darío Enrique Dubois, nascido exatamente naquele mesmo ano e que, de tão devoto, montou um grupo cover na adolescência para tocar nos botecos de Buenos Aires. Acontece que, além de músico, Darío jogava bola, com habilidade acima da média.

Embora a Vox Dei tenha sido sua porta de entrada, foi no heavy metal extremo que ele realmente se encontrou, idolatrando bandas locais como Retrosatan, Crematorio, Dhak e Bestival, pioneiras nos subgêneros thrash, death e black metal. Rápidos, demoníacos, guturais e… maquiados, se apresentando com as cadavéricas corpse paints.
Acontece que, na época em que batia cabeça em shows madrugada adentro, Dubois já estava encaminhado na profissão de futebolista. Atuava como zagueiro, era grandão e nunca se destacou na elite do futebol argentino, mas jogou por mais de 20 anos em times de divisões inferiores como Lugano, Ferrocarril Midland e Deportivo Riestra. Mesmo assim, tomou uma decisão que o tornou icônico na história: entrar em campo maquiado ao estilo black metal.
A ideia surgiu em 1999, quando estava no Midland. A ideia, mais do que assustar os atacantes que davam de cara com aquele ser, era invocar o guerreiro que havia dentro de si. “Isso te dá energia. Você pinta sua cara, vai para guerra e mata seus inimigos”, comentou em entrevista ao jornal inglês The Guardian.

Darío Dubois em ação pelo Midland. Foto: Reprodução
Nessa época, Darío Dubois já era conhecido pela torcida por ser um cara, no mínimo, único. Tapou o logotivo do patrocinador de seu time com lama antes de jogar quando a empresa atrasou o bicho dos jogadores, roubou o dinheiro que caiu no gramado do bolso de um juiz que o expulsou (e só devolveu mais tarde) e, durante o mês e meio que jogou maquiado (foram 14 jogos), chegou a bater na porta do vestiário dos próprios juízes para usar o espelho.
No campo, em vez de assustados, os jogadores adversários caíam na risada. Mas Dubois, encarnado guerreiro do metal, não estava nem aí: “Eu sou uma palhaço com a cara pintada, mas um palhaço que se mata pela camisa do seu time”.
Como era de se esperar, a atitude do jogador “viralizou”. A ponto de deixar o presidente do Midland puto, os argentinos roqueiros absolutamente encantados e a Associação de Futebol Argentina, a AFA, sem saber o que fazer. “Não havia nenhuma regra que proibia um jogador de entrar em campo maquiado”, contou o atleta.

Mais perdida do que um padre em um festival de metal, a associação resolveu proibi-lo de entrar em campo paramentado, baixando uma nova lei. “Pura inveja, por eu estar chamando tanta atenção da imprensa”, comentou.
Darío Dubois pendurou as chuteiras em 2004, depois de romper os ligamentos do joelho, sem aposentadoria e sem dinheiro guardado. Mas, como cantava Leonard Cohen, “nós somos feios, mas nós temos a música”. O jogador mascarado encontrou sustento trabalhando como técnico de som em uma casa de shows (de rock, claro) em Isidoro Casanova, no subúrbio de Buenos Aires. Cultuado como uma lenda argentina, morreu de forma trágica em 2008, baleado em um assalto enquanto voltava do trabalho, de bicicleta, aos 37 anos.



