Letrux Foto: Bruna Latini/Divulgação

Letrux: “Não vou conseguir fazer outro ‘Noite de Climão'”

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner

Cantora, compositora, atriz e escritora brasileira conversa com Jota Wagner sobre seu novo álbum, SadSexySillySongs

Quando Linda McCartney e seu esposo, Paul, escreveram Silly Love Songs (“canções de amor bobinhas”) em 1976, foram muito mais fundo do que o título da faixa poderia sugerir. O momento “silly” é aquele em que tudo está dando certo em uma relação, quando o dia a dia fica leve, apaixonado como uma manhã de outono. Letrux, em seu novo álbum lançado hoje (27), pegou carona na liturgia e ainda adicionou o sexy e o sad à receita, aprofundando-se ainda mais em um tema necessário aos dias de hoje, quando a perfeição estética, sentimental e falsa povoa as redes sociais.

SadSexySillySongs vem ao mundo para isso: lembrar as pessoas de que o amor às vezes é leve, mas também é quente, e em outros dias triste. Faz parte do pacote. Seu apanhado de letras, com jeito de extraídas de um diário, traz versos belos, silly e comuns a todos os que amaram, perderam, reconquistaram e se reinventaram nas relações.

“Pra que você foi me dizer / Que vocês se conheceram aqui?”, em Ciúme me dá frio; ou “Eu lembro que foi ali aquele beijo / Outras pessoas do meu lado / Outro ano no calendário / Era só pra ser tchau, só que saiu beijo”, em Essa cidade é complicada, são versos juvenis.

Para nos recordar que, quando nos apaixonamos, sempre voltamos à juventude, ao resgatar a inocência e o romantismo otimista que jamais sairá de nós, embora muitas vezes (na parte sad), fique escondido lá no fundinho abissal da alma. É sobre isso que conversamos com a cantora, compositora, atriz e escritora Letrux. Apaixone-se.

Jota Wagner: Para uma artista que já está com a carreira desenvolvida e consolidada, como nasce um álbum?

Letrux: Não tenho muitas explicações, nasci para fazer isso. Sou muito brincalhona, mas levo a sério meu ofício. Ele passa por um lugar de sentimento. Às vezes, penso em por que não resolvi ser advogada, ou uma outra coisa que não trabalha com a expectativa do gosto alheio. A arte não é sobre eficiência, mas sobre emocionar, tocar, bater ou não bater nas pessoas.

Então fazer um novo disco vem da minha vocação mesmo. Alguma antena, algum troço, um destino em capturar alguma sensibilidade e transformar em uma melodia. Não que eu seja especial. É como um padeiro que sabe fazer um pão gostoso. Isso me ajuda a viver, porque eu tenho dificuldade, às vezes, em falar o que estou sentindo. Fazer uma música é uma maneira de fazer isso, e que sorte que algumas pessoas gostem.

As canções foram compostas para o álbum ou eram algo que estava na gaveta?

Tem duas músicas que são mais antigas. Acabei tocando-as no violão em shows. Ciúme me dá frio e I wrote this when I was 22. Esta última não tinha esse nome, mas eu mudei para dar um alerta. E aí, após os shows, as pessoas vinham falar comigo sobre elas, e não sobre [Letrux em Noite de] Climão, por exemplo [primeiro álbum de Letrux, de 2017, de muito sucesso]. Perguntavam onde ouvir.

Eu as considerava um pouco mais bobas, até que percebi que elas tinham um peso. Também tenho um público de 22 anos. Hoje estou com 44 e, tirando os versos que falam de CDs, DVDs, os alertas de idade (risos), elas funcionam muito para eles e para mim. Cultivei um outro apreço por essas canções e tinha várias outras coisas anotadas.

O título veio primeiro: fiquei fazendo muitas aliterações, até chegar em SadSexySillySongs. Aí pensei: “aquelas coisas que escrevi em um caderninho são boas”. Percebi que tinha um tema — dessa vez eu queria brincar com um tema. Então comecei a mandar mensagens pra Mahmundi, pra Jadsa, do tipo: “vamos fazer uma músicas sexy”. Uma mandava uma faixa, eu devolvia com letra e melodia, e a gente encaixava, editava, trabalhava. Foi um norte bom para cada um, nos guiou para chegar em um resultado.

As letras têm um jeito de “diário”.

Eu amo. Sou uma pessoa de diário. Ainda tenho.

É meio nostálgico. Tem um sentimento de “voltar aos 22”?

É, talvez… Eu ganhei meu primeiro diário da minha mãe, logo que fui alfabetizada. Aquilo, para mim, foi uma permissão de liberdade. Ali, podia escrever o que quisesse. Acho que foi meu primeiro impulso. Não se freia ninguém na escrita. Ali eu percebi que, mesmo que se em uma comunicação verbal eu estivesse travada, no diário havia uma fluidez. E, claro, uma hora veio essa maluquice de mostrar para as pessoas. Era o destino batendo na minha porta e falando: “garota, vem”.

Letrux

Foto: Bruna Latini/Divulgação

Como você lida com o dilema da escrita entre o autobiográfico e o ficcional?

Eu consigo escrever sem ser autobiográfica. Ano passado, lancei meu primeiro livro de ficção. Um livro de contos, chamado Brincadeiras à parte. Tem nove contos. E alguns, que chamei de “intervalos”, são mais biográficos. Mas eu acho que a ficção é uma prática muito legal para quem escreve.

Realmente, no começo, tem muita autoficção nas minhas músicas. Mas, em algum momento, se percebe que o caminho é muito vasto.

A possibilidade de ser outra pessoa…

A Maria Callas diz isso. Ao escrever, tem sempre outra pessoa, e não dá para saber qual está escrevendo. Quando eu escrevo, é como psicografia. Eu sou espírita, então acho que o momento da criação é uma faísca do que pode estar acontecendo ali.

Em um momento em que se fala (e se precisa falar) de toxicidade nos relacionamentos, você lança um disco singelo, falando de amor, mas também de perdas, ciúmes…

Eu vou sempre falar sobre amor. É um assunto inesgotável. Sei lá, daqui a cem anos minha tataraneta vai falar: “estou apaixonada por um robô” (bem, já existem pessoas falando isso, né?). Com telepatia, com robótica, o amor sempre vai existir. Acho que eu só sei falar de amor. Com alguns gracejos dinâmicos e outros assuntos, mas é sempre isso.

Com um pouquinho de sofrimento, de ansiedade, sem nunca ser perfeito…

Eu me lembro que uma vez, na revista Caras, que minha avó assinava, teve uma capa do Roberto Justos e sua ex-mulher. E o título era “Nunca brigamos”.  Eu era nova. Mas li aquilo e falei: “isso não vai dar certo”. Ainda nem tinha vivido tantos amores, mas sabia que não ia rolar.

E, de fato, se separaram logo depois. Claro que ninguém quer só brigar, mas acho que o amor é feito de uma caldeirada humana possível. Tem trevas, luz, brilho, escuridão, tudo. Não só só cílios piscantes de paixão. Ele é profundo, e todo lugar abissal exige uma compreensão de todas as dimensões da existência, não só aquela superfície.

Quem já esteve nessas fossas abissais amorosas sabe que falar sobre isso cura. Eu fico tão feliz quando alguém me diz: “casei com uma música sua” ou “me separei por causa de uma música sua”. Tem de tudo. A vida é uma antítese louca.

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Ao mesmo tempo, você diz que faz música para si. Como lidar com o fato dela estar na vida de outras pessoas?

Fazendo muita psicanálise. É foda trabalhar com coisas que criam expectativas. Mas aí eu tento manter a minha música um pouco protegida dessa interferência. Tento proteger essa musa o máximo possível e trabalhar na onda da sensibilidade mesmo. Não vou conseguir fazer outro Climão. Eu era mais nova, tinha outra cabeça. E as pessoas têm esse fetiche, esse delírio de repetição. Não vai rolar.

Não que eu me considere uma pessoa original. Estamos no século 21, ninguém vai conseguir ser original em 2026. Mas não vou repetir meu próprio trabalho. Vou tentar um ato genuíno da minha loucura.

É difícil trabalhar com algo que gera expectativa no outro. A arte não é eficiente. Ela não é utilitária. Então sempre respiro, faço análise há sete anos e vou lidando. Eu vou trabalhando a expectativa e ansiedade da galera com um toque de bom humor e paciência.

Em tempos em que muito relacionamento acaba porque se acredita que só pode existir se for perfeito, esse álbum é um baita serviço para a humanidade…

Eu sempre tive muita curiosidade em saber o que tem depois do furação. O Climão foi um furacão na minha vida, e eu achava que iria fugir com ele. E não, fiquei na cidade destruída, aos prantos. O amor também tem um pouco disso.

Claro, cada um tem seu limite. Jamais vou defender que uma mulher que tenha sido agredida continue. Não é sobre isso, mas num dia de conversa, de elaboração, que não ultrapasse nenhum limite que você tem no seu coração… dá para tentar ver o que tem depois. Tudo está muito efêmero, muito líquido. E eu tenho um pouco de medo.

O que você pensou para os shows após o lançamento do disco?

Vai ser um show mais reduzido, de trio. Eu, o baixista Thiago Rebelo, que produziu o álbum, e uma violonista. Não é um disco de banda. As faixas sexy ganharam uns beats, mas as outras são minimalistas e cruas. Esse vai ser um momento de brincar de outra dinâmica.

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.