The Smiths - The Queen is Dead Imagem: Reprodução

40 anos de “The Queen is Dead”, o revolucionário disco dos Smiths

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Confira cinco curiosidades sobre um dos álbuns mais importantes da história do indie rock

Há 40 anos, um álbum bombástico chegava às vitrines das lojas de discos do Reino Unido. Na capa, uma foto do ator Alain Delon e um título absurdamente provocativo: The Queen is Dead (“A Rainha Está Morta”). Timing perfeito. Em um ano em que o país sentia o gosto amargo da era Margareth Thatcher, com desemprego nas alturas e greves por todos os cantos, os monarcas desfilavam como zumbis, representando uma Inglaterra que não existia mais e insistia em viver de glórias de outrora. Dureza, ainda mais para quem estava em Manchester (terra do The Smiths), uma cidade industrial que sentia o golpe da economia mais doído do que na capital, Londres.

The Queen is Dead foi o terceiro álbum dos Smiths, lançado pela gravadora Rough Trade em uma relação marcada pela discórdia. A banda se sentia cada vez maior. A gravadora queria gastar cada vez menos, temerosa pelo impacto da economia britânica nas vendas de discos. O álbum foi o retrato de uma época e um guia prático para o futuro.

Louvava a homossexualidade em uma cidade tomada por jogadores de futebol beberrões, passava longe do orgulho em ser inglês, apresentava um lirismo incomum na voz de Morrissey e apresentava uma estética de fusão entre rock e a música alternativa que seria copiada, reciclada e repaginada pelo resto da história. O disco é fundamental para entender a música do Reino Unido feita nas décadas posteriores.

Claro que a mais famosa obra de uma banda liderada por um ouriço em forma de vocalista gerou muita história. Morrissey, na época, transformou rabugentisse em contestação, mau humor em protesto. The Smiths já era uma banda consolidada e lidava com a possibilidade de se tornar um fenômeno mundial. Conseguiram, mas por vias tortas. O álbum trazia em seu lado B dois dos maiores sucessos de sua carreira (e de festinhas alternativas) até hoje: The Boy With the Thorn in His Side e There Is a Light That Never Goes Out.

Confira abaixo cinco curiosidades sobre The Queen is Dead.

A cartinha de demissão

Andy Rourke. Foto: Steve Rapport/Getty Images/Reprodução

No meio das gravações de The Queen is Dead, em fevereiro de 1986, o baixista Andy Rourke recebeu um cartão postal pelo correio. O remetente era Morrissey. A mensagem: “Andy — você deixou os Smiths. Adeus e boa sorte”. Sem avisar ninguém do grupo, o vocalista tomou a decisão porque estava de saco cheio do vício em heroína do colega. O grupo chegou a colocar como substituto Craig Gannon e a fazer alguns shows com ele, até que Johnny Marr entrou na situação e convenceu Morrissey a aceitar o baixista original de volta.

A primeira faixa já deu treta

The Queen is Dead, a música de abertura, começa com um sample da canção Take Me Back to Dear Old Blighty, cantada por Cicely Courtneidge no filme The L-Shaped Room (1962). A banda só se esqueceu de pedir autorização. Com o sucesso do disco dos Smiths, a história virou pendenga judicial, só resolvida em 2017, com o lançamento da versão remasterizada do álbum.

Foto histórica

The Smiths - The Queen is Dead

Foto: Stephen Wright/Reprodução

A foto do encarte do álbum se tornou uma das mais importantes da história do rock, com os quatro integrantes em frente a um prédio classicão inglês. Curiosamente, não custou milhares de libras e nem teve uma produção planejada. Foi tirada pelo fotógrafo Stephen Wright, que nem conhecia a banda direito em dezembro de 1985, quando clicou o grupo usando as roupas do dia a dia. Salford Lads Club, o clube social escolhido por acaso para servir de fundo, hoje é ponto de peregrinação turística em Manchester, graças ao The Smiths.

O hit macabro

“E se um ônibus de dois andares colidir contra nós, morrer ao seu lado seria uma forma celestial de morrer. E se um caminhão de dez toneladas matar a nós dois, morrer ao seu lado seria um privilégio.” Quando os executivos da Rough Trade leram a letra do refrão de There Is a Light That Never Goes Out, quase tiveram um treco. Principalmente ao saber que essa era a música que a banda queria lançar como single. Vetaram a promoção da canção que se tornaria um dos seus maiores sucessos. There is a Light… só saiu como single seis anos depois, quando o grupo já havia acabado.

Vice de Madonna

Logo após lançar seu disco, os músicos que foram classificados pela imprensa como “os porta-vozes de uma geração desiludida” ficaram em segundo lugar nas paradas britânicas. A rival veio do outro lado do Atlântico: Madonna, com seu álbum True Blue. Não houve contra-ataque. Nos Estados Unidos, The Queen is Dead não passou do modesto 70º lugar, mas pelo menos ganhou o prêmio de “Disco do Ano” em 1986, da associação estadunidense RIAA.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.