Miles Davis Foto: Reprodução

Como Miles Davis, “O Médico e o Monstro”, foi salvo por Cicely Tyson

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Jota Wagner resgata uma das grandes histórias da conturbada vida da lenda do jazz, que teria feito cem anos no último dia 26

Em 1975, o Pelé do jazz, Miles Davis, que teria completado cem anos no último dia 26, decidiu morrer. Assolado por problemas de saúde, deixou a música, afastou-se de todos e meteu-se em seu apartamento em Nova Iorque tentando inconscientemente apressar o processo, consumindo quantidades absurdas de cocaína, álcool e analgésicos.

Hermeto Pascoal
Você também vai gostar de ler O dia em que Hermeto Pascoal esmurrou Miles Davis

Não conseguiu, principalmente porque o amor entrou em sua vida, o tirou do inferno e fez com que o músico retornasse milagrosamente aos estúdios seis anos depois, com um álbum que dividiu seu público no aspecto artístico, mas unânime na sensação de alívio e alegria. Ele estava salvo, e graças a Cicely Tyson, uma atriz que deu-lhe forças para levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima.

Conhecer a história de Miles Davis é o melhor estudo possível para se aprender a separar o artista de sua obra. Sua vida se traduz na história de O Médico e o Monstro, de Robert L. Stevenson, para o mundo real. O garoto negro nasceu em 1926 em uma família de classe média alta, em uma das regiões mais racistas dos Estados Unidos. Seu pai o ensinou a jamais baixar a cabeça para a discriminação. O que era um importante ensinamento paterno sobre honra, ao ser mergulhado na fama trazida pela indústria da música, se tornou um dos seus maiores defeitos.

Ao atuar eternamente na defensiva, talvez se escondendo de uma autoestima instável, se tornou um adulto difícil de lidar nas ruas e um verdadeiro monstro dentro de casa. Fã de boxe, chegou a quebrar o maxilar de sua primeira esposa, Frances Taylor, em uma das muitas surras que lhe deu nos dez anos que o casamento durou. No auge da fama, sua personalidade era considerada como “profundamente atormentada”.

Encerrado em um estúdio, no entanto, uma outra alma tomava conta do seu corpo. Ou, pelo menos, a parte boa e nobre que, nas ruas, dormia profundamente. Com a segurança e a tranquilidade que seu talento musical lhe garantia, Miles Davis se transformava em uma pessoa profundamente generosa, a ponto de enxergar e valorizar novos talentos musicais, trabalhando profundamente para que brilhassem nas gravações e nos palcos, permitindo seu crescimento e seus voos para o mundo de fora.

Foi assim com John Coltrane, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Tony Williams e Chick Correa, entre tantos outros. Um verdadeiro maestro, que se apresentava no palco de costas para o público e voltado para seus músicos, como fazem os regentes de orquestra. Seu trompete era a batuta, que usava com parcimônia e humildade, elevando os talentos individuais de cada pupilo.

O temperamento fora do estúdio e os problemas de saúde (artrite, diabetes e anemia falciforme) foram levando o músico para um mundo de sombras e solidão cada vez maior. Em 1975, fez de seu apartamento uma caverna sombria e solitária. Não falava com ninguém, além de seus traficantes. Abandonou a música. Mas a vida havia lhe dado Cicely Tyson.

Miles Davis e Cicely Tyson

Miles Davis e Cicely Tyson em 1982. Foto: Reprodução

Dez anos antes, por volta de 1965, Davis viu a atriz em ascensão em uma festa, no apartamento de uma amiga. “Quando eu a vi, com aquele cabelo natural, linda pra caralho, usando aquelas roupas africanas… eu pensei: ‘é a mulher mais bonita que já vi na vida’. Eu simplesmente fui até ela e comecei a falar, sem nem reparar se tinha alguém do lado”, contou o músico em sua autobiografia.

Tyson estava acompanhada, mas o cara não quis nem saber. Pediu seu telefone. Mesmo sabendo da reputação difícil de Davis, como contou posteriormente, resolveu dar-lhe uma chance. Poucos dias depois, estava sentada na plateia, a convite do músico, vendo-o tocar seu trompete.

A intuição inicial da atriz estava correta. Seu envolvimento com o músico foi marcado por alegrias e tormentos. Testemunhou as atitudes malucas, abusivas e violentas do artista e se tornou mais uma de suas vítimas. Uma coisa a incomodava mais do que tudo, sua persistente noia com drogas.

Mais uma vez, foi a música que salvou Davis, mas usando o grande amor de sua vida como instrumento. Cicely já havia se afastado do namorado problema há anos, mas jamais se esqueceu do momento em que o ouviu tocar pela primeira vez. Em 1979, no auge da carreira (prestes a estrelar a minissérie Roots e outros trabalhos marcantes), começou a ouvir boatos cada vez mais alarmantes sobre o estado do ex.

Pegou o telefone e ligou. Percebeu um homem fraco, confuso, mas que reconheceu-a imediatamente. Ela pediu para visitá-lo. Quando chegou ao apartamento, encontrou um cenário devastador. Em suas palavras, o ícone do trompete era “uma casca do homem que eu conhecera”: esquelético, com a pele acinzentada, o corpo castigado pela artrite e a mente embotada pelas drogas. A casa estava imunda, as janelas vedadas com cobertores para bloquear a luz. Miles mal se levantava. Em vez de recuar, a atriz tomou uma decisão radical: ficou. E decidiu que, a partir dali, quem mandava era ela. O astro não se opôs. 

Tyson limpou todo o apartamento, botou os traficantes e amigos de droga para correr, fez com que a luz voltasse ao apartamento, contratou médicos e mais: exigiu o Miles Davis de antes. Mesmo quando saíam para caminhadas, obrigava o músico a se vestir impecavelmente. Terminada a faxina física, mental e psicológica do malandro, ligou para a Columbia Records e marcou uma reunião. Quando ele assinou o contrato para lançar seu primeiro álbum após o inferno, ela estava ao seu lado.

De julho de 1981, The Man With the Horn é divino ao estilo Miles Davis: completamente diferente do que poderiam esperar os fãs da década de 70. Novos músicos, guitarras amplificadas, baixo elétrico, baterias funk ao estilo hip-hop, grooventas e dançantes. Puristas o acharam “muito pop”. Hoje, sabe-se que a obra influenciou muita gente e foi responsável pela criação do acid jazz, a coqueluche cool da década seguinte.

O ressuscitado gênio do jazz se levantou novamente, e passou a ousar cada vez mais. Flertou com a música eletrônica em You’re Under Arrest (1985) e Tutu (1986, chegando a usar bateria eletrônica), se viu no topo novamente e, com a autoconfiança restabelecida, voltou a convidar seus antigos demônios para o rolê.

Apesar de ter abandonado a violência doméstica, resgatou o marido pé no saco que sempre foi, tóxico e infiel. Cicely Tyson tirou o time de campo e chutou seu grande amor para fora de casa, bastante magoada. “Cicely me salvou a vida. Ela me fez querer voltar a viver. Ela me alimentou na boca quando eu não conseguia comer. Ela não tinha medo de mim, nem do meu vício, nem da minha raiva. Ela me tirou das drogas, me fez voltar a me vestir bem, a comer direito. Mas eu não conseguia ser fiel. Eu era um filho da puta”, admitiu no final de sua vida.

Miles Davis faleceu dia 28 de setembro de 1991, aos 65 anos, devido a um derrame cerebral logo após um show com seu grupo no Hollywood Bowl, nos Estados Unidos.

+ Participe do canal de WhatsApp do Music Non Stop para conferir todas as notícias em primeira mão e receber conteúdos exclusivos

+ Siga o Music Non Stop no Instagram para ficar atualizado sobre as novidades do mundo da música e da cultura

Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.