Tela Brasil “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Imagem: Reprodução

5 filmes do Tela Brasil que você precisa assistir

Jota Wagner
Por Jota Wagner

Edição: Flávio Lerner


Entre clássicos, raridades e trabalhos inacabados, cinco obras do cinema brasileiro já presentes no novo serviço de streaming

Com a colaboração de Yasmine Evaristo

Por enquanto disponível apenas em navegadores web (e com promessa de virar um aplicativo móvel nos próximos 30 dias), o Tela Brasil é um serviço de streaming gratuito onde se pode assistir uma coleção de 555 filmes produzidos no país entre 1910 e 2025. Não confunda com o Tela Brasil de 2004, criado por Zita Carvalhosa, Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, que viajaram o país montando salas de cinema em praças públicas e comunidades periféricas oferecendo acesso a uma tela de cinema (a muitos, pela primeira vez).

O novo Tela Brasil, iniciativa do governo federal, tem a função de difundir o cinema brasileiro para quem tem acesso à internet. O catálogo é bastante completo. É possível assistir a sucessos mundiais como Cidade de Deus e Tropa de Elite, até clássicos do cinema novo ou cults como Que Horas Ela Volta, Central do Brasil e Bacurau.

Eu, você e qualquer consumidor de streaming no mundo sabe a agrura que é logar na tela inicial de uma plataforma sem saber direito o que assistir. Mas para isso, existe o seu Music Non Stop. Perguntamos à nossa especialista em cinema, Yasmine Evaristo, quais as pérolas escondidas no catálogo do Tela Brasil que você não deve deixar de assistir. A lista é linda, confira:

Cinema, Aspirina e Urubus (2005)

Diretor: Marcelo Gomes

No sertão nordestino dos anos 1940, o alemão Johann foge da guerra e cruza o Brasil vendendo aspirinas, até encontrar Ranulpho, um homem simples fascinado pelo cinema. Juntos, viajam em uma velha caminhonete projetando comerciais em vilarejos esquecidos pela seca, enquanto a amizade improvável entre o forasteiro pragmático e o sonhador local transforma a paisagem árida em palco de encontros, silêncios e descobertas — e o urubu, onipresente, torna-se símbolo mudo da resistência e do tempo suspenso sob o sol inclemente.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

Diretor: Glauber Rocha

No sertão castigado pela miséria, o vaqueiro Manuel, após matar o coronel que o explorava, foge com a mulher, Rosa, e se entrega primeiro à fé messiânica do beato Sebastião, que promete a ilha onde tudo é fartura, e depois ao desvario violento do cangaceiro Corisco, o diabo louro que rasga a terra com bala e vingança.

Caçados pelo matador Antônio das Mortes, Manuel e Rosa atravessam o êxodo de uma gente inteira esmagada entre Deus e o Diabo, até que a profecia se cumpre em imagem: o sertão vira mar, e o mar vira sertão.

O Menino e o Mundo (2014)

Diretor: Alê Abreu

Do interior colorido e ingênuo de seu vilarejo, um menino de traços quase rabiscados parte em uma jornada silenciosa atrás do pai, que migrou para a cidade grande em busca de trabalho. O que começa como uma aventura lúdica por paisagens vibrantes e povoadas por bichos musicais, se transforma em um doloroso descobrimento: o mundo além é uma engrenagem cinza e desumana, onde fábricas devoram campos, máquinas trituram almas e a esperança se esvai em fileiras de cortiços opressores.

Nessa odisseia sem palavras, o menino testemunha o desmonte do velho mundo pela monocultura, pelo consumo e pela guerra, mas carrega consigo a resistência das cores e da memória afetiva, fazendo de sua trajetória um manifesto visual contra o progresso que arrasa as raízes — e um canto de esperança tecido com as notas de uma flauta e o eco de uma infância que insiste em não se apagar.

Chico (2017)

Diretor: Marcos e Eduardo Carvalho

Tela Brasil

Imagem: Reprodução

Num futuro próximo em que o Brasil reduz a maioridade penal para 16 anos, o jovem negro Chico acorda no dia do seu aniversário sabendo que se tornou um alvo legal do Estado. Em um cotidiano sitiado por viaturas, cadastros de extermínio e a normalização do genocídio institucionalizado da juventude negra, cada esquina é uma sentença e cada olhar policial, um veredicto.

O curta acompanha as horas tensas em que Chico tenta simplesmente sobreviver ao próprio aniversário, enquanto o sistema transforma a data de seu nascimento em licença para matar — um pesadelo político que expõe, com urgência documental e força simbólica, a lógica racial que já opera no presente.

Jangada (1949)

Diretor: Armando Hime

Tela Brasil

Imagem: Reprodução

Curta-metragem documental que registra a vida e o trabalho heroico dos jangadeiros cearenses, famosos por sua histórica viagem até o Rio de Janeiro para reivindicar direitos trabalhistas a Getúlio Vargas. Com imagens captadas no mar e na praia, o filme de Armando Hime documenta a coragem e a precariedade desses homens do mar, suas embarcações rústicas e a relação íntima com as águas, tornando-se um importante registro do cinema documental brasileiro da época.

Jangada foi produzido pela Pan-Filme do Brasil e narra a história do abolicionista cearense Dragão do Mar. Originalmente idealizado como longa-metragem, ficou inacabado devido a um incêndio nos estúdios em 1949.

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Jota Wagner

Jota Wagner escreve, discoteca e faz festas no Brasil e Europa desde o começo da década de 90. Atualmente é repórter especial de cultura no Music Non Stop e produtor cultural na Agência 55. Contribuiu, usando os ouvidos, os pés ou as mãos, com a aurora da música eletrônica brasileira.