Foto: Reprodução/InstagramShakira em Copacabana celebra potência da música latina
Com público estimado em dois milhões de pessoas, megashow no Todo Mundo no Rio rompe barreiras linguísticas em noite histórica
Texto: Gabriel Fabri
Edição: Flávio Lerner
Do alto do palco de 1.500 m², a boliviana Mitty Becerra se emocionou ao ver uma multidão de dois milhões de pessoas, quando subiu para performar ao som de Waka Waka na praia de Copacabana. Residente no Brasil há duas décadas, a dançarina, coreógrafa e DJ passou cinco dias ensaiando com a equipe de Shakira, que chamou um corpo de baile extra, composto por bailarinos e bailarinas locais, especialmente para o espetáculo da turnê Las Mujeres Ya No Lloran World Tour no Todo Mundo no Rio.

“Estar em cima de um palco sempre é uma visão linda, mas para dois milhões na praia é uma doideira, porque você olha pra frente e vê um mar de gente, um mar de água e uma escuridão, na sua direita, e um monte de luz, na sua esquerda. É uma loucura, foi uma das visões mais bonitas que eu já tive na minha vida”, conta ela, que ensaiou com o corpo de baile outras coreografias, mas acabou não participando de todas elas por conta do atraso na entrega da estrutura do palco, finalizada apenas na madrugada de sábado. “Quando nós, os dançarinos extras, entramos em Waka Waka, foi um momento de olhar pra frente e perceber que tudo valeu a pena.”
Para Mitty, apesar das diferenças culturais, a discografia pop de Shakira a torna mais aceita no Brasil, país que, apesar de fazer parte da América Latina, ainda tem pouca aderência à música em espanhol. “Como professora ou como DJ, seja dando aula ou tocando em festas, sempre sinto que Shakira é uma conexão fácil. Não me vejo apresentando algo novo quando o público é mais brasileiro, sinto que eles abraçam e se conectam com essa latinidade”, explica a boliviana, criadora do Proyecto Medusa, com aulas de reggaeton do nível iniciante ao avançado. “Sempre toco músicas dela, Hips Don’t Lie está nos sets, nas aulas, em tudo.”
Parte dessa aceitação da colombiana na noite histórica do último dia 2 de maio, deve-se a uma estratégia que ela construiu ao longo da carreira para ganhar o mercado anglófono sem abandonar as raízes latinas. Se hoje nomes como Bad Bunny, Karol G, J Balvin e Maluma fazem sucesso mundial cantando apenas em espanhol, muito se deve às portas abertas pela diva de Barranquilla, que introduziu ritmos latinos ao pop mundial, gravando versões em inglês de suas músicas, e, assim, trazendo um tempero hispânico a um mercado extremamente restrito.

Foto: Reprodução/Instagram
Até o álbum Shakira (2014), era comum que ela gravasse duas versões da mesma música, uma em inglês e outra em espanhol. A estratégia funcionou não apenas para os EUA, mas para o Brasil, que ainda não se vê como um país latino: os shows aqui são os únicos do continente que ouviram She Wolf, Whenever Wherever e Waka Waka (This Time For Africa) ao invés de Loba, Suerte e Waka Waka (Esto es África). Apenas em Loca, curiosamente, Shakira preferiu cantar a versão em espanhol.
Segundo Mitty, o Brasil já está se vendo, ao seu modo, como latino-americano, ainda que parcialmente. “Eu acredito que, principalmente nesse momento que a gente vive hoje, com a explosão do reggaeton aqui no Brasil, a vinda do Bad Bunny e todas essas questões sobre ser latino, o brasileiro está sim se vendo, mas de uma forma única ainda. O latino do brasileiro é diferente, sabe? Ainda tem uma separação”, explica a DJ, que se apresenta em festas como a SÚBETE! e a Bogotá.
Falando em português, com novos figurinos, e as participações especiais de Anitta, Ivete Sangalo, Maria Bethânia e Caetano Veloso, além da bateria da Unidos da Tijuca e dos dançarinos brasileiros, Shakira tentou diminuir essa distância cultural. Aos 49 anos e após três décadas em contato com nosso país, a loba mostrou apreço por seus fãs e pela cultura brasileira. A cantora enalteceu, especialmente, a força das mulheres brasileiras, com destaque para as mães solo, identificando-se como uma delas, em momento em que dispensou o pedestal e se mostrou gente como a gente: artista, empresária, mãe e mulher latina. Um gesto de rara potência simbólica.

Enfatizando esse diálogo entre diferentes experiências latino-americanas, logo na segunda música, a Loba exibiu, uma a uma, as bandeiras de diversos países da América Latina celebrando as mulheres latinas em Girl Like Me, parceria com Black Eyed Peas. O momento, presente em todos os shows da turnê iniciada no Rio de Janeiro em fevereiro de 2025, assemelha-se politicamente ao de Bad Bunny em seu Super Bowl, que lembrou ao mundo que toda a América Latina também é “América” — em provocação a um cenário estadunidense marcado por discursos xenófobos.
Para além das memórias e do impacto econômico estimado de R$ 800 milhões, a artista continua a projetar a imagem do país para o mundo. Mal tirou os pés da areia de Copacabana e já prometeu mais uma pitada do Brasil no lançamento de Dai Dai, tema oficial da Copa do Mundo 2026, cujo clipe foi gravado no Maracanã. Na prévia divulgada, ela veste amarelo, azul e branco, cores da bandeira brasileira que marcaram também o figurino especial feito para o “Lobacabana”.
Em pé de igualdade com Gaga e Madonna
Colunista especializado em música latina, o jornalista Franklin Valverde relembra o carinho que Shakira teve quando ele a entrevistou em 1996 e em 1998, período em que a colombiana estava dando os seus primeiros passos no Brasil com a divulgação do álbum Pies Descalzos. “Ela me enviou uma carta em agradecimento, por ter mandado uma cópia da revista para ela, pelo correio”, explica ele, que ainda a tem guardada. “Era uma simpatia de pessoa, muito bem-preparada, com muita coerência.”

Três décadas depois desse encontro, Valverde acredita que o show em Copacabana foi a sua coroação. “Ela é considerada a rainha do pop latino, e é mesmo. E o que tem de bom dessa música é que sempre tem elementos culturais latino-americanos sendo incorporados”, explica. “Dois milhões de pessoas em uma praia, não é qualquer um que faz isso. Ou seja, ela está em pé de igualdade com Madonna, com Lady Gaga, com os grandes astros e estrelas que cantam em inglês.”
Para Franklin, o impacto cultural do espetáculo também é muito significativo para o Brasil. “Nós brasileiros também somos latinos, apesar de quererem vender essa ideia que latino é só quem fala espanhol. Não, a cultura latina, quando vem para cá, vem em fórmula de diálogo, não em forma de imposição. É só ver o número de artistas que ela chamou para participar do show.”
Pop mainstream?
Para Miriam Soares, que comanda o La Mezcla, podcast sobre culturas e línguas no mundo hispano e no Brasil, Shakira ocupa o lugar consolidado nos corações e na memória cultural brasileira. Entretanto, apesar de ser uma presença marcante da música latina no Brasil, representa apenas uma faceta mais mainstream dela.

“Embora cante em espanhol, tem toda uma performance muito estadunidense, se vincula a um modelo do pop global e que remete muito pouco às raízes latino-americanas dela”, explica. “Infelizmente, aqui no Brasil, para consumirmos música que não seja nem em inglês, nem em português, isso tem que passar pela chancela dos Estados Unidos. O que falta é a gente passar por um ponto de virada, em que a gente não precise mais desse selo estadunidense.”
Mainstream ou não, a presença de artistas latinos no país é sempre positiva. Shakira é uma personalidade que, além de cantar em espanhol, também colabora com artistas latinos, do veterano Alejandro Sanz ao novato Beéle, o seu conterrâneo de Barranquilla, com quem dividiu a versão de 20 anos de Hips Don’t Lie e o lançamento de Algo Tú.
“Quanto mais o Brasil receber artistas dos demais países latino-americanos, quanto mais todos esses artistas estiverem presentes em toda e qualquer forma de mídia e tiverem fãs, é sempre muito relevante e sempre muito bem-vindo”, opina Miriam.

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Um palco só para divas
Responsável pelo festival de cultura latina Mucho!, o produtor Hernan Halak notou um aumento no interesse pela música dos países vizinhos, do duo experimental de CA7RIEL & Paco Amoroso ao pop e reggaeton de Karol G, e acha que o show vai contribuir ainda mais para isso.
“Percebo que a latinidade está se abrindo muito aqui, está todo mundo começando a se perceber como latino”, afirma o argentino, radicado no Brasil desde 2008. “Ou talvez esteja fazendo um clique de que a latinidade não tem a ver com o castelhano, tem a ver com uma atitude, com uma forma de viver, com uma forma de olhar para as pessoas.”
Para Halak, mais poderoso do que qualquer impacto econômico é o simbolismo construído pelo evento em Copacabana. “Muito mais potente é a mensagem para o mundo de que o Brasil é um palco para mulheres fodas”, sintetiza, a respeito do Todo Mundo no Rio. “Esse deveria ser um palco só para elas, não deveria ter nenhum homem tocando.”



