Foto: Reprodução“Pet Sounds”: 60 anos do álbum pop perfeito
Edição: Flávio Lerner
Lançado em 16 de maio de 1966, disco foi divisor de águas na carreira dos Beach Boys — e na história da música
Quando se fala de álbuns que mudaram uma época, Pet Sounds, dos Beach Boys, é obrigatório em qualquer lista. Lançado dia 16 de maio de 1966, o disco supreendeu e assustou os fãs da banda e sua gravadora. Aquele grupo de garotos que cantava rock’n’roll falado sobre surfe, praias, carros e garotas, havia crescido. Os meninos de calça branca e camisa listrada conhecidos não existiam mais. Aquela ali era outra banda.
Naquele ano, muita gente havia perdido a inocência. Aquilo que era considerado “genial” estava vindo das experimentações com LSD em discos de artistas como 13th Floor Elevators, The Byrds e Frank Zappa & The Mothers Of Invention (neste caso, a psicodelia ficou só na música, pois Zappa não curtia drogas). Mas foi um outro disco, vindo do outro lado do Oceano Atlântico, responsável pelo crise existencial de Brian Wilson, o gênio criativo dos Beach Boys. Rubber Soul, dos Beatles, bateu forte no líder da banda estadunidense, principalmente porque representava um sonho que ele também dividia: elevar o pop ao status de “música séria”, bem-feita e sofisticada.
Após ouvir o disco dos rivais britânicos e achar “particularmente interessante e estimulante”, Wilson convidou o amigo Tony Asher, um músico que trabalhava majoritariamente com jingles publicitários, a se afundar em estúdio por dois meses para preparar um novo álbum. Asher ficaria com a maioria das letras, e o Beach Boy com os arranjos e melodias. A ideia era criar uma obra que tirasse do grupo a aura juvenil e lhes trouxesse respeito, assim como também aconteceu com os Beatles e seu Rubber Soul.
Quando ficou pronto, a gravadora achou Pet Sounds tão estranho que não o promoveu. Obrigou Brian Wilson a incluir ali, pelo menos, alguma coisa mais comercial. A solução foi rearranjar uma música antes gravada pelo Kingston Trio, Sloop John B, escolhida para ser o single do disco. As vendas foram decepcionantes nos Estados Unidos, uma vez que o grupo já era icônico no cenário rock. O cover se tornou um dos maiores clássicos da banda, mas nem se comparava a músicas monstruosas como Wouldn’t Be Nice, God Only Knows e I Know There’s An Answer.

Por mais uma dessas brincadeiras do destino, a reação morna em relação ao álbum ficou só em seu país natal. No Reino Unido, foi um sucesso imediato de público e crítica. Ficou em segundo lugar nas paradas de sucesso, teve apoio gigantesco da crítica musical e, principalmente, dos colegas músicos. Eric Clapton declarou que era “um dos maiores LPs pop já lançados”, em uma matéria da revista Melody Maker que coletou o depoimento de diversas personalidades da música. Os influenciadores também se tornaram influenciados: até hoje, Paul McCartney cita a obra como a maior referência para o icônico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
Hoje, ninguém duvida que Pet Sounds é obrigatório para qualquer pessoa que gosta de música de pop. A indústria musical nunca mais foi a mesma. Brian Wilson ajudou a abrir as portas para a ousadia. Uma ousadia que veio através da dor.
Dois anos antes de compor o disco mais importante de sua carreira, o músico teve um ataque de pânico em um avião e abandonou as turnês com a banda. Tinha apenas 22 anos. A parte positiva dessa reclusão foi a total imersão que o músico pôde fazer em seu estúdio, dedicando todo o seu tempo para experimentar. A parte ruim é que também usou esse tempo livre para abusar do LSD e da maconha.

Se enfiar em um estúdio com o amigo e se dedicar somente à composição foi um refúgio e uma salvação temporária. Declarou mais tarde que aqueles meses foram de “felicidade extrema”. Muitas das letras dos Beach Boys nesse álbum, antes frívolas, agora falavam sobre vulnerabilidade, perdas, reencontros e saúde mental.
Já debilitado, Wilson não conseguiu lidar com Pet Sounds. Frustrou-se com a recepção nos Estados Unidos e ainda teve que lidar com uma pressão imensa da gravadora. Entrou na onda de que queria gravar um “álbum pop perfeito” e o projeto resultaria no controverso Smile, que começou a ser produzido em 1966 e só veio conhecer a luz do dia em 2011. Mas o líder dos Beach Boys já estava em franca decadência mental. Tudo piorou quando se envolveu com Eugene Landy, um psiquiatra picareta que assumiu o controle de sua vida, afastando-o da família e ainda por cima tornando-se empresário e parceiro de composições.
A cada ano que passava, o mundo dizia a Brian Wilson que Pet Sounds já era seu disco perfeito. Talvez o músico tenha falecido ainda sem acreditar nisso, em junho de 2025.



