Public Image Ltd. São Paulo Foto: Flavio Santiago/Divulgação

Public Image Ltd.: a melhor trilha sonora dançante para o fim do mundo

Leonardo Vinhas
Por Leonardo Vinhas

Edição: Flávio Lerner


Comandado pelo “popstar anticonsenso” John Lydon, show do PiL no Cine Joia teve hinos do pós-punk, promessa de volta e xingamento a nazista

This is not the last tour é o esperançoso, irônico e autorreferente título da turnê atual do Public Image Ltd., vulgo PiL. Na perna brasileira dessa tour — realizada na noite desta quarta-feira, 08, no Cine Joia, em São Paulo —, o vocalista John Lydon voltou para o bis dizendo: “olhem só para vocês, fazendo esses senhores de idade ainda tendo que trabalhar para ganhar a vida”, e ainda encerrou o show provocando: “mesma hora no ano que vem? Eu realmente espero que sim, porra!”.

John é uma figura como poucas, e essas provocações são parte do seu show — dentro e fora dos palcos. Você sabe, ele era a voz, as letras e a imagem visual mais furiosa dos Sex Pistols. Mas no PiL, fez muito mais: junto com algumas das dezenas de colaboradores que passaram pela banda ao longo de décadas de atividade, ele cravou os alicerces do pós-punk, fez rock para acabar com o rock (assim como Alan Moore fez HQs de super-heróis para acabar com as HQs de super-heróis) e meteu pelo menos dois hits mundiais improváveis (Rise e This Is Not a Love Song).

O Public Image Ltd. está com fome de bola, e Lydon parece estar ainda mais: além da turnê com a banda, vai rodar a Inglaterra fazendo um monólogo (I Could Be Wrong, I Could Be Right). Ele parece refeito dos lutos que vivenciou recentemente — em 2023, em um intervalo de oito meses, perdeu a esposa Nora Forster, com quem foi casado por 44 anos, e o amigo de infância, produtor e assistente pessoal John “Rambo” Stevens. Disse que queria voltar a trabalhar muito para tirar a cabeça dessas coisas, e tem honrado a promessa.

E isso o trouxe de volta ao Brasil, 34 anos depois da primeira e única vez que passou por aqui com a banda (esteve também em 1996 com os Sex Pistols). Naquela ocasião, a formação era outra: incluía outras lendas do pós-punk, como o batera Mike Joyce (The Smiths) e o guitarrista John McGeoch (Siouxsie and the Banshees, Magazine). O público, se não era outro, tinha uma atitude bem diferente: ficava cuspindo no palco o tempo todo e chamando-o de “traidor do punk”.

Public Image Ltd. São Paulo

Foto: Flavio Santiago/Divulgação

Agora, quem estava no Cine Joia queria festa ou reencontro com o próprio passado. Ou, mais provavelmente, testemunhar a encarnação atual de uma das bandas mais inventivas da história do rock, e ver o que ela tinha a dizer nesse momento em que muita gente pegou bode de John Lydon por causa das suas declarações contraditórias. Seja lá qual tenha sido a intenção, quem foi descobriu que o PiL ainda é a melhor trilha sonora dançante para o fim do mundo.

Afinal, o show abre com Home, de 1986, e os primeiros versos que a banda canta rezam que “dias melhores nunca acontecerão”. Não muito depois, vem World Destruction, um funk-rock pioneiro e pesadão sobre a Terceira Guerra Mundial que Afrika Bambaataa gravou com o Sr. Lydon em 1984. Entre as duas, Corporate, uma bela e pesada tijolada pacifista e antiliberal, xingando empresários de assassinos e pregando igualdade racial e social.

Esse é o mesmo John Lydon que manifesta apoio a Trump e ao Brexit? É. Mas também é a mesma pessoa que grita para um idiota que, ali no Cine Joia, levantou a mão em uma saudação nazista — “abaixe esse braço, seu nazista de merda!” —, sem poupar xingamentos ao palhaço enquanto cantava Shoom.

O vocalista é, desde sempre, o modelo de um “popstar anticonsenso”. Em muitos momentos, isso implica em contradições ou más interpretações por parte de seu público. Enquanto persona pública, não está sob os holofotes para facilitar. Enquanto criador musical, ele tem lá seus momentos de acessibilidade (estava lá o megahit Rise, no bis, para não me deixar mentir), mas ele cria grandes canções sem jamais escolher o caminho mais óbvio.

A turma que o acompanha hoje pode ter gravado apenas três álbuns de estúdio e alguns singles, mas é a formação do Public Image Ltd. que está há mais tempo na ativa — ou seria, se o baterista Bruce Smith não tivesse picado a mula em 2024, sendo substituído no ano seguinte por Mark Roberts. Mas Lu Edmonds e Scott Firth estão no grupo desde 2009, quando foi reformado depois de um hiato de 17 anos. E esses caras sabem o que fazer com essas grandes composições.

A maneira como Roberts recria as complexas e inusitadas frases de bateria é um show à parte: com seu kit misto de peças acústicas e eletrônicas, os samples são usados para garantir fidelidade aos timbres enquanto peles e couros garantem a pegada pesada que o show necessita, sem sacrificar a força rítmica que sempre desenhou o som essencial do pós-punk.

Public Image Ltd. São Paulo

Foto: Flavio Santiago/Divulgação

Edmonds, com seu visual de cientista louco, se desdobra não para recriar, mas reinterpretar as variadas texturas que Keith Levene, John McGeoch, Steve Vai e outros guitarristas (incluindo ele próprio) criaram ao longo dos anos. Para isso, ele se alterna entre diferentes guitarras e versões eletrificadas e modificadas de saz (o alaúde turco) e banjo. A pedaleira não fica no chão, mas numa mesinha ao seu lado, para poder dar conta da multiplicidade de traquitanas de forma prática. Já Firth, limitado por uma bota ortopédica, ficou sentado entregando os riffs inspirados por dub e funk que são característicos da banda.

O resultado dessa soma é um show pesado e dançante, torto por essência, mas jamais feio. O repertório passeia pelos hits inescapáveis, e ainda inclui três músicas do pouco conhecido, mas excelente, What The World Needs Now, de 2015. Várias delas cantadas pelo público, e até dançadas, quando a coluna e os quadris permitiam.

Não, não é um comentário etarista: ao contrário de alguns contemporâneos ou nomes que vieram pouco depois, como o The Cure ou o Depeche Mode, o PiL não fez um crossover geracional. A banda simplesmente não existe para os mais jovens, então a fauna do Joia estava majoritariamente na faixa dos 55+, segundo o Instituto DataVinhas de Estatísticas por Olhômetro. Viam-se, inclusive jornalistas musicais bem ativos nos anos 1980 e rockers das antigas como BNegão, Gabriel Thomaz, Lucia Turnbull e Luiz Thunderbird, entre outros.

+ Participe do canal de WhatsApp do Music Non Stop para conferir todas as notícias em primeira mão e receber conteúdos exclusivos

+ Siga o Music Non Stop no Instagram para ficar atualizado sobre as novidades do mundo da música e da cultura

Todos receberam mais do que esperavam. A noite no Joia foi uma das melhores de 2026 até o momento para quem gosta de dissonâncias, rock, “anti-rock”, pós-punk e quejandos. Foi, também, a tal trilha do fim do mundo, com batidas entre o tribal e o industrial, e palavras de ordem mais que necessárias para o momento atual (“raiva é uma energia” é a que mais sobressai, mas boa parte do repertório ali não perde a validade). E, no meio disso tudo, o riff mais veloz e dançante da história do pós-punk: Public Image, a canção, cantada ainda em tom alto e estridente pelo septuagenário frontman.

Seria a última turnê? Na música pop, nunca dá pra saber. John Lydon vai continuar xingando nazistas e corporações enquanto apoia Trump? Tampouco dá pra saber. E na real, para quem esteve no Joia, não importa. Importa que tivemos, esfregado em nossos rostos, almas e mentes, o fato de que pessoas podem passar, mas uma grande obra nunca. A obra do Public Image Ltd. merece mais do que recebe. Mas quem a recebe, teve ali mais do que merecia.

Leonardo Vinhas

Leonardo Vinhas é jornalista, escritor e produtor cultural na ativa há mais de 20 anos. Escreve para o Scream&Yell desde 2000, já produziu 19 discos para o selo S&Y, e foi co-responsável pelo Festival Conexão Latina.